Democratas usam lemas de Reagan, ícone dos republicanos, contra Trump

Menções à religião, demonstrações de patriotismo, defesa de valores familiares e outros pontos normalmente frequentes na agenda republicana foram utilizados na convenção que consagrou Hillary para apontar bilionário como um usurpador da legenda de Lincoln

Redação Internacional

31 de julho de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan,
ENVIADA ESPECIAL / FILADÉLFIA, EUA

Ícone dos conservadores americanos, o republicano Ronald Reagan foi usado na convenção do Partido Democrata como antídoto para o cenário sombrio dos EUA promovido pelo adversário Donald Trump. Alguns dos principais oradores do evento fizeram referências à visão luminosa do ex-presidente em relação ao futuro do país e a sua crença na absoluta supremacia americana.

Reagan não foi o único símbolo republicano apropriado pelos democratas recentemente. Demonstrações de patriotismo, menções à religião e a defesa de valores familiares também ganharam espaço no evento realizado na Filadélfia, em um esforço para atrair moderados republicanos que não se identificam com Trump e o veem como um usurpador do partido de Reagan e de Abraham Lincoln.

O candidato a vice-presidente na chapa de Hillary, o senador Tim Kaine, deixou de lado a sutileza e foi bastante explícito no convite aos órfãos republicanos: “Se algum de vocês estiver procurando pelo partido de Lincoln, vocês têm um lar aqui mesmo, dentro do Partido Democrata”.

O presidente Barack Obama e Hillary Clinton, candidata à sua sucessão, incluíram em seus discursos referências a Reagan, historicamente desprezado por muitos democratas com a mesma paixão demonstrada por seus devotos republicanos.

“Ronald Reagan chamava a América de ‘uma luminosa cidade na colina’. Donald Trump a chama de uma ‘dividida cena de crime’ que só ele pode consertar”, disse Obama. Hillary usou o slogan da campanha de Reagan de 1984 para atacar as posições de seu adversário: “Ele levou o Partido Republicano muito longe, da “Manhã na América” para a “Meia-noite na América”.

Em campanha. O cientista político Norman Ornstein, do American Enterprise Institute, disse ao Estado que a convenção democrata foi marcada por um tom otimista e patriótico ao estilo de Reagan. O alvo eram os republicanos moderados e os independentes – a parcela do eleitorado que não se identifica com nenhum dos dois partidos e poderá definir o resultado da disputa presidencial em novembro.

“A convenção realizada na Filadélfia deixou claro que haverá um esforço dos democratas durante a campanha presidencial para que republicanos e independentes se sintam confortáveis com um eventual voto em Hillary Clinton”, afirmou Ornstein, autor do livro It Is Even Worse Than It Looks (É ainda pior do que parece), no qual analisa a crescente polarização da política americana.

Ainda assim, de acordo com ele, o mais importante fator na definição do voto da maioria dos republicanos será o comportamento de Trump até o dia 8 de novembro, data das eleições.

Refletindo o desconforto de muitos seguidores do partido com o bilionário, dois republicanos participaram da convenção democrata e declararam o voto em Hillary. “Eu conheci Ronald Reagan. Eu trabalhei para Ronald Reagan. Donald Trump, você não é Ronald Reagan”, afirmou Doug Elmets, republicano que foi assessor do ex-presidente Reagan na Casa Branca.

Diretora para políticas de saúde da poderosa Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Jennifer Pierotti Lim declarou ter votado em candidatos conservadores durante toda sua vida.

“Eu acredito nos valores fundamentais do Partido Republicano: liberdade, igualdade e a ideia de que há direitos individuas que não podem ser subtraídos”, observou Jennifer. “E porque o Partido Republicano abandonou esses valores neste ano, esta republicana votará em Hillary Clinton.”

As menções positivas dos democratas em relação ao partido adversário foram além de Reagan. O candidato a vice-presidente mencionou também Barbara Bush, uma das mais queridas ex-primeiras-damas dos EUA e matriarca da família que viu um de seus filhos, Jeb, ser derrotado por Trump nas primárias eleitorais.

Moderados. Em seu discurso no encontro da Filadélfia, Hillary também elogiou o senador John McCain, um republicano moderado, adversário de Obama em 2008, que passou cinco anos e meio como prisioneiro de guerra no Vietnã.

Em razão de torturas a que foi submetido, ele perdeu parte da mobilidade de seus braços. Logo depois de lançar sua candidatura, há pouco mais de um ano, Trump desqualificou a reputação de McCain como herói de guerra. “Eu gosto das pessoas que não foram capturadas”, disse o bilionário.

Na sexta-feira, a neta do senador, Caroline McCain, anunciou que votará em Hillary. “A lealdade ao partido nunca pode triunfar sobre a lealdade ao país. E lealdade ao partido não significa nada quando o partido foi envenenado”, disse Caroline.

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