Democratas usam origem familiar de Hillary e Biden para vencer na Pensilvânia

Democratas usam origem familiar de Hillary e Biden para vencer na Pensilvânia

Democrata passou infância em região operária e vice-presidente nasceu no Estado, considerado vital na corrida presidencial; apesar de ter apenas 77 mil habitantes, cidade de Scranton está há décadas no roteiro das campanhas dos dois partidos

Redação Internacional

22 Agosto 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
ENVIADA ESPECIAL / SCRANTON, EUA

Scranton tem 77 mil habitantes, mesmo tamanho de Ubatuba, mas está há décadas no roteiro das campanhas presidenciais dos EUA. Sempre que pode, a candidata democrata Hillary Clinton lembra a infância que passou na cidade e usa a história de seu avô para falar da origem operária de sua família. A mesma narrativa era repetida nos anos 90, durante as campanhas de seu marido, Bill Clinton.

Em 2008, Scranton ganhou mais um representante de peso na política americana com a eleição de Joe Biden à vice-presidência dos Estados Unidos. Como pai de Hillary, Biden nasceu na cidade, onde viveu até os 10 anos. Em sua mitologia pessoal, Scranton é o símbolo do trabalho árduo que supera dificuldades.

Vice President Joe Biden, left, and Democratic presidential candidate Hillary Clinton react to the crowd during a campaign event Monday, Aug. 15, 2016, in Scranton, Pa. (Butch Comegys/The Times & Tribune via AP)

Joe Biden e Hillary Clinton fazem campanha em Scranton. Foto: Butch Comegys/AP

Na semana passada, Hillary e Biden escolheram a cidade para o primeiro evento de campanha que realizaram juntos. “Não importa para onde a vida me leve, eu vou sempre lembrar que sou neta de um operário e filha de um pequeno empresário”, disse a candidata a pouco mais de 2 mil pessoas reunidas em um ginásio de esportes da cidade.

O avô de Hillary trabalhou toda sua vida na fábrica têxtil Scranton Lace Company, que fechou as portas em 2002. Seu pai e sua mãe estão enterrados no cemitério da cidade.

Biden usou seu discurso para apresentar Hillary como alguém capaz de se conectar com a realidade de uma comunidade que ainda não se recuperou totalmente da crise de 2008 e do processo de desindustrialização de décadas anteriores. “Essa é sua história de vida”, disse o vice-presidente. “E vamos ressaltar o óbvio: essa não é a história de vida de Donald Trump.”

Hillary pode ter laços com a cidade, mas seu estilo de vida é bastante distante da de seus moradores. Só no ano passado, ela e seu marido ganharam US$ 10,6 milhões. A renda média anual de uma família de Scranton é de US$ 38 mil.

A suburban neighborhood in Scranton, Pa., Nov. 29, 2011. President Barack Obama has scheduled a visit to Scranton Wednesday, his first trip there since he became president. (Ruth Fremson/The New York Times)

Scranton ganhou importância e simbolismo na corrida presidencial. Foto: Ruth Fremson/The New York Times

A cidade é o principal centro urbano do condado de Lackawanna, que tem uma população de 214 mil pessoas. Com um movimento sindical forte, a região é uma base sólida do Partido Democrata. Na eleição de 2012, Barack Obama obteve 63% dos votos do condado, 27 pontos porcentuais a mais que seu adversário, o republicano Mitt Romney.

No entanto, Trump tem seguidores apaixonados em Scranton, entre os quais Bob Bolus, dono de uma empresa de guincho que decorou caminhões com propaganda do candidato republicano. Há uma semana, um deles estava estacionado em frente ao local onde Hillary e Biden fizeram seu evento.

No dia 27 de julho, quando os democratas realizavam sua convenção na Filadélfia, a 200 quilômetros de distância, Trump fez um comício em Scranton no qual também falou de seus laços com a Pensilvânia. O bilionário lembrou que se formou na Escola de Negócios Wharton, ligada à universidade estadual, e seu filho Eric estudou em um internato na Pensilvânia.

“Essa é uma cidade muito engajada politicamente, por onde os políticos passam”, disse Jean Harris, professora de ciência política da Universidade de Scranton. Apesar do apelo do candidato republicano junto a homens brancos sem educação superior, Harris considera improvável que ele vença na Pensilvânia.

Segundo a professora, o perfil demográfico do Estado não favorece o bilionário de Nova York. Cinco áreas metropolitanas da Pensilvânia concentram 65% da população. Em todas elas, candidatos democratas venceram em eleições recentes. Trump pode ter apelo junto a trabalhadores sem qualificação, mas é rejeitado por mulheres e eleitores com educação superior. “Ele não entende o Estado como imagina entender”, observou Harris.

O coronel da reserva Wy Gowell é um histórico democrata que faz campanha por Hillary em Scranton. Apesar de acreditar que a candidata vencerá no Estado, ele reconhece o apelo da retórica do republicano. “Esta área sofreu um baque econômico. Muitas pessoas tinham bons empregos que deixaram de existir e são vulneráveis ao discurso populista de Trump.”