Demora em revelar doença reforça imagem pouco transparente de Hillary

Candidata democrata à Casa Branca foi diagnosticada com pneumonia na sexta-feira, mas informação só foi divulgada por integrantes da campanha ao público americano após ela passar mal durante um evento em Nova York no domingo

Redação Internacional

13 de setembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON
A demora da campanha presidencial de Hillary Clinton em revelar que a candidata está com pneumonia trouxe problemas mais sérios para a democrata do que a própria doença, ao reforçar a imagem de falta de transparência e honestidade que muitos eleitores associam a ela. Diagnosticada na sexta-feira, a doença só foi divulgada depois de Hillary passar mal durante um evento público no domingo.

O desconforto provocado pela demora na confirmação da pneumonia foi traduzido em uma mensagem postada no Twitter pelo também democrata David Axelrod, principal estrategista das duas campanhas de Barack Obama à presidência: “Antibióticos podem curar pneumonia. Qual é a cura para uma tendência nociva por privacidade que repetidamente cria problemas desnecessários?”

Hillary Clinton addresses the American Legion?s national convention in Cincinnati, Aug. 31, 2016. Clinton?s address regarding America?s leadership role in the world both militarily and diplomatically was a rare public appearance during a stretch of the campaign where she has focused in large part on fund-raising. (Sam Hodgson/The New York Times)

Hillary em campanha em Cincinnati, em agosto. Foto: Sam Hodgson/The New York Times

No mesmo dia em que foi diagnosticada com a infecção, Hillary criou outra dificuldade para a própria campanha ao dizer que metade dos seguidores do candidato republicano Donald Trump são “deploráveis”. No dia seguinte, ela se desculpou e reconheceu que havia feito uma generalização grosseira.

Acusado com frequência pela democrata de ser intolerante e preconceituoso, Trump deu o troco ontem. “Eu fiquei profundamente chocado e alarmado na sexta-feira ao ouvir minha oponente atacar, caluniar, difamar, diminuir essas pessoas maravilhosas e incríveis que estão apoiando nossa campanha aos milhões”, afirmou.

Os dois episódios ocorreram no momento em que as pesquisas eleitorais mostram a redução da liderança de Hillary na disputa pela Casa Branca, em votação marcada para 8 de novembro. No dia 28 de agosto, sua vantagem era de 6,3 pontos porcentuais, segundo média de pesquisas calculada pelo site RealClearPolitics. Ontem, a diferença caíra a 3 pontos.

Em um tom diferente do usual, Trump reagiu de maneira contida à revelação de que Hillary tem pneumonia e desejou que a adversária se recupere logo. Mas o candidato disse em entrevista à Fox News que a saúde dos candidatos se tornou uma “questão” na disputa presidencial e prometeu divulgar nos próximos dias resultados detalhados de exames médicos que fez na semana passada.

A campanha de Hillary reconheceu ontem que errou ao lidar com o diagnóstico e também prometeu dar mais informações médicas da candidata nesta semana. Mas o porta-voz da campanha, Brian Fallon, ressaltou em entrevista à rede MSNBC que a ex-secretária de Estado não possui nenhuma outra “condição não revelada”.

Com 70 e 68 anos de idade, respectivamente, Trump e Hillary estão entre os mais velhos candidatos à presidência dos EUA em toda a história. Até agora, a democrata deu informações mais detalhadas sobre a situação de sua saúde que o republicano, mas o atraso na divulgação da pneumonia aumentou a pressão sobre a campanha para ser mais transparente.

Justificativas. Calor excessivo e desidratação foram as explicações iniciais dadas para o mal súbito da candidata durante uma cerimônia em Nova York que marcou os 15 anos dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Hillary deixou o evento de maneira abrupta, uma hora depois de seu início e muito antes de seu término.

Imagens filmadas por uma pessoa que testemunhou sua saída mostraram a candidata sendo arrastada para dentro de uma van depois de desfalecer e ser amparada por agentes de segurança. Mais de cinco horas se passaram entre a divulgação das imagens e a confirmação de pneumonia por sua campanha.
A percepção de falta de transparência foi agravada pelo fato de que o grupo de repórteres que normalmente segue a candidata não foi autorizado a acompanhá-la quando ela deixou a cerimônia. Durante 90 minutos, os jornalistas ficaram sem informação sobre a situação.

Alimentadas por republicanos, especulações sobre supostos problemas de saúde de Hillary circulam na internet desde junho. A maioria delas aponta para o coágulo detectado no cérebro da candidata em 2013, consequência de uma queda sofrida no ano anterior. Meses mais tarde, seus médicos disseram que o problema havia sido tratado e não havia sintomas remanescentes.

Em agosto, o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que apoia Trump, estimulou telespectadores, em entrevista à Fox News, a fazerem buscas na internet com as palavras “Hillary Clinton” e “doença”, para ver vídeos que supostamente mostrariam a debilidade física da candidata.

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