Denúncias marcam o início do império de Trump nos negócios

Empresa do magnata nos anos 60 e 70 foi acusada de não alugar casas para negros

Redação Internacional

29 Agosto 2016 | 05h00

Jonathan Mahler
Steve Eder
THE NEW YORK TIMES
Ela parecia ser uma inquilina modelo. Enfermeira de 33 anos, morando na Associação Cristã de Moças, no Harlem, queria alugar um apartamento de um quarto no ainda inacabado conjunto Wilshire, em Queens, Nova York. Preencheu a proposta, que o corretor considerou ótima. Nem quis ver como era o apartamento. Só havia um problema: Maxine Brown era negra.

O corretor, Stanley Leibowitz, falou com seu chefe, Fred C. Trump. “Perguntei o que fazer e ele disse: ‘Pegue a proposta, ponha numa gaveta e esqueça”, lembra-se Leibowitz, hoje com 88 anos.

Era no final de 1963 – poucos meses antes de o presidente Lyndon B. Johnson assinar o famoso Ato dos Direitos Civis -, e o alto e bigodudo Fred Trump chegava ao auge de sua carreira de construtor. Estava prestes a concluir a joia da coroa de seu império imobiliário de casas para a classe média: o conjunto de sete edifícios de 23 andares chamado Trump Village, ocupando 16 hectares em Coney Island.

Fred também estava preparando o herdeiro. Seu filho, Donald, então com 17 anos, logo entraria na Fordham University no Bronx. Morava na casa dos pais no Queens e passava muito do tempo livre visitando construções no Cadillac do pai, dirigido por um motorista negro. “O pai era seu ídolo”, diz Leibowitz. “Sempre que vinha visitar o empreendimento, Donald estava a seu lado.”

Na década seguinte, com Donald Trump assumindo funções cada vez mais importantes nos negócios da família, a prática da companhia de descartar potenciais inquilinos negros era dolorosamente documentada por ativistas e organizações empenhadas em fazer do direito igual à moradia a próxima fronteira da luta pelos direitos civis.

O Departamento de Justiça fez a própria investigação sobre a Trump Village e, em 1973, processou a Trump Management por discriminação contra negros. Tanto Fred Trump, líder do grupo, quando Donald Trump, presidente, apareceram como réus. Donald começou a ser conhecido do público.

Tomada em retrospectiva, a resposta de Trump ao processo pode ser vista como presságio de seus futuros métodos nos negócios e na política.

Em vez de procurar chegar discretamente a um acordo – como outro empresário da construção de Nova York fizera dois anos antes -, ele transformou o processo numa longa batalha, com negativas furiosas, demolição de reputações, acusações de que o governo queria forçá-lo a fazer assistência social e um processo cobrando indenização de US$ 100 milhões no qual acusava o Departamento de Justiça de difamação.
Quando tudo acabou, Trump proclamou vitória, enfatizando que o acordo que assinou não continha admissão de culpa.

Mas uma investigação de The New York Times – com o exame de arquivos de décadas da Comissão de Direitos Humanos da Cidade de Nova York – revela uma longa história de preconceito racial em torno de propriedades da família Trump em Nova York e outro lugares.

História que ganha novo destaque com Trump argumentando que os eleitores negros deveriam votar nele e não em Hillary Clinton, a quem acusa de intolerância. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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