Deserto de culto às armas

Deserto de culto às armas

Americanos exibem placas e mensagens dessa cultura tão consolidada no Arizona

Redação Internacional

08 de novembro de 2016 | 18h31

Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

No norte do Arizona, lugar de calor escaldante, escassez de vegetação e pessoas, há um estabelecimento de aparência antiga, colorida e que presta serviços dos mais diversos. Além de posto de gasolina, o Arizona Last Stop, em White Hills, também é hamburgueria. O menu da lanchonete está escrito nas paredes, e nelas também estão penduradas dezenas de tipos de armas.

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Foto: Claudia Müller

Caso seja do gosto do freguês, o estabelecimento também vende placas de decoração, com mensagens do tipo: “não gosta de armas, não compre!”. Além de tapetes de boas-vindas: “minha casa está trancada para a sua segurança, não para a minha”, ilustrados com uma arma apontada para quem olha. Para os que quiserem mergulhar ainda mais na experiência, há também um estande de tiro. Em meio àquele mar de areia, onde o calor é tão intenso – acima dos 40ºC – que o cenário parece uma miragem, é possível ouvir as balas saindo ininterruptamente de alguma arma semi-automática.

Ao ir embora, o folheto em cima do balcão faz propaganda de um lugar chamado “Bullets and Burgers” (Balas e Hambúrgueres), em Las Vegas, a 95 km dali, onde se pode atirar de Uzi, AK-47, .50 ou outras diversas armas, de acordo com os pacotes oferecidos pelo lugar, a partir de US$ 175. Em outro centro de tiro, o pacote mais barato, chamado de “Corajoso e Bonito”, oferece uma Glock 9mm por US$ 80.

Na divisa com a Califórnia, próximo à Needles, uma loja de conveniência pequena na cidade de Topock, no Arizona, de apenas 1,7 mil habitantes, também demonstra seu amor às armas. Em cima da geladeira que armazena diversos tipos de hambúrgueres, um quadro com um texto dramático relata um pedido à Deus: “Que meu objetivo seja verdadeiro e minha mão mais rápida”. No corredor, uma placa na parede diz que o 11 de setembro de 2001 jamais será esquecido. Até mesmo no banheiro se é lembrado de que as armas ajudaram o país a ser livre, seguido de um conselho: “vamos manter desse jeito”.

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Na placa, lê-se “Deus, armas e coragem libertaram a América. Vamos mantê-la assim.” (em tradução livre). Foto: Claudia Müller.

Os habitantes daquela região parecem os americanos clássicos, ou, como se imagina o estereótipo, brancos e amantes de armas. Do carro estacionado no comércio à beira da estrada saem um casal e seis crianças para esticarem as pernas. Casais jovens com, pelo menos, três filhos não é tão incomum na região.

Nos arredores, o cenário das outras cidades parece o mesmo: além de algumas casas e motorhomes, há igrejas e lugares para atirar. Placas na beira da rodovia divulgam um número de telefone para quem quiser mais informações sobre Jesus, com o prefixo da cidade e discagem “For-Truth” (pela verdade).

Tradicionalmente um reduto do partido republicano, alguns carros que passam pelas estradas do Arizona exibem adesivos de “Vote for Trump” e “Veterans for Trump”, em referência aos militares que foram para guerras pelos Estados Unidos. Porém, de acordo com pesquisas de intenção de voto no Estado, a disputa não está tão definida assim. E, apesar do perfil mais conservador dos eleitores, o Arizona pode ser um Estado-chave para a corrida presidencial americana.

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