Discurso de candidato será inspirado em Nixon

Discurso de candidato será inspirado em Nixon

Donald Trump tentará apresentar os EUA atuais como uma versão contemporânea de 1968, um ano marcado por protestos e tensão racial

Redação Internacional

21 de julho de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
ENVIADA ESPECIAL / CLEVELAND, EUA

Quando fizer o discurso de aceitação da candidatura republicana à presidência hoje, Donald Trump buscará inspiração em Richard Nixon e tentará apresentar os EUA de 2016 como uma versão contemporânea dos EUA de 1968, um ano marcado pelo confronto racial, protestos violentos e manifestações contra a Guerra do Vietnã. Sua esperança é repetir a caminhada bem-sucedida do partido à Casa Branca com o mesmo lema em defesa da lei e da ordem usado por Nixon.

O então candidato proferiu seu discurso na convenção republicana quatro meses depois do assassinato de Martin Luther King Jr. e pouco mais de um mês após o assassinato de Robert Kennedy, que disputaria a presidência pelo Partido Democrata. Nos dias seguintes à morte de Luther King, motins violentos se espalharam por uma centena de cidades americanas, deixando um rastro de destruição. Em novembro daquele ano, Nixon elegeu-se presidente, derrotando o candidato democrata Hubert Humphrey e o independente George Wallace.

A tentativa de aproximar a percepção de insegurança atual com a de 1968 ficou evidente na primeira noite da convenção republicana, na segunda-feira, quando oradores enfatizaram os ataques recentes a policiais, acusaram o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) de incitar a violência e apresentaram os EUA como um país sob ataque de inimigos internos e externos. Quando falou por vídeo aos delegados que consagraram sua nomeação na noite de terça-feira, Trump referiu-se duas vezes o lema “lei e ordem”, que teve tanto destaque quanto o slogan tradicional da campanha, “Tornar a América Grande Novo”.
“O discurso de Nixon de 1968 – se você voltar ao passado e ler o discurso – é muito alinhado com muitas das questões que ocorrem hoje”, disse na segunda-feira o dirigente da campanha de Trump, Paul Manaforte, em evento organizado pela agência de notícias Bloomberg.

Mas vários analistas observam que os EUA de 2016 são muito diferentes dos EUA de 1968. “O discurso da lei e da ordem funciona se a sociedade realmente está em uma situação de desordem, mas em muitos aspectos, a sociedade americana é mais ordeira hoje do que em muito tempo”, disse Geoffrey Kabaservice, consultor do Partido Republicano e autor do livro Rule and Ruin (Governar e Arruinar), no qual descreve a perda de espaço dos moderados dentro da legenda.

Desde o início do mandato do presidente Barack Obama, em 2009, o número de crimes violentos nos EUA diminuiu 16%. No caso de homicídios, a queda foi de 13%. Mas a percepção de insegurança foi acentuada pelos recentes confrontos entre policiais e homens negros e os ataques terroristas dentro e fora do país.

Kabaservice aponta outras diferenças entre 2016 e 1968: a sociedade americana não é tão dividida racialmente como naquela época, quando o movimento pelos direitos civis combatia a segregação entre brancos e negros. Outro contraste apontado por Kabaservice é entre os candidatos. “Não creio que Trump seja um político tão talentoso como Nixon”, observou. “Há mais diferenças do que semelhanças entre Trump e Nixon.”

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