Donald Trump, um ‘aprendiz’ com ego inflado para a Casa Branca

Donald Trump, um ‘aprendiz’ com ego inflado para a Casa Branca

Uma das poucas coisas que o magnata nova-iorquino não pode dizer que tem é experiência prévia em cargo político; ele terá que superar este grande desafio para que os eleitores não o eliminem na votação de 8 de novembro, como o próprio Trump fazia em seu reality show

Redação Internacional

20 Julho 2016 | 09h56

CLEVELAND, EUA – O polêmico magnata Donald Trump, escolhido oficialmente na terça-feira, 19, como candidato à presidência dos Estados Unidos na Convenção Republicana de Cleveland, pode se orgulhar de quase tudo, menos de uma coisa: experiência prévia em um cargo político.

Nesse terreno, Trump poderia assemelhar-se a um participante de “O Aprendiz”, o popular programa de televisão que lhe lançou ao estrelato aos gritos de “Você está demitido!”. De fato, o novo candidato presidencial, que atuava nesse espaço como juiz implacável perante a destreza empresarial de jovens aprendizes que aspiravam um suculento contrato anual para dirigir uma de suas companhias, abomina a classe política.

“Eu não sou um político. Os políticos falam e não agem. Eu sou o contrário”, ressaltou Trump há quase um ano, após apresentar-se como pré-candidato em 16 de junho de 2015 com um controvertido discurso no qual chamou os imigrantes mexicanos de “estupradores”.

Em abril, o impulsivo multimilionário reconheceu que só tem sido um político “durante um tempo muito curto” e está em processo de “aprendizagem”. “O que realmente fui é um empresário bem-sucedido durante muito tempo”, ressaltou Trump, conhecido por sua autoestima sem limites.

Tanto é assim que em 1995 ele publicou no jornal “The New York Times” um artigo intitulado, sem empacho algum, “O que meu ego quer, meu ego consegue”, filosofia que impulsionou sua meteórica e inesperada ascensão à indicação presidencial do Partido Republicano.

Antes de concorrer à Casa Branca com uma campanha infestada de insultos que soube capitalizar o descontentamento de muitos eleitores com a classe política de Washington, Trump era já nos EUA uma celebridade com uma biografia digna de um roteiro de Hollywood.

Nascido em 14 de junho de 1946 no bairro nova-iorquino de Queens, Trump é o quarto dos cinco filhos de Fred Trump, construtor de origem alemã, e Mary MacLeod, dona de casa de procedência escocesa. Era tão desde criança que seu pai teve que tirá-lo aos 13 anos da escola, onde agrediu um professor, e interná-lo na Academia Militar de Nova York, com a esperança que a disciplina militar colocasse rédeas em seu filho.

Aparentemente, o pequeno Donald “era um valentão boca-suja” que adorava “dizer palavrões a todo volume”, segundo o médico Steve Nachtigall, de 66 anos, que sofreu com suas travessuras. Trump se graduou em 1964 na academia, onde alcançou a categoria de capitão e inclusive vislumbrou seu destino: “Um dia, eu serei muito famoso”, comentou então ao cadete Jeff Ortenau.

Em 1968, o magnata formou-se em Economia na Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, e se transformou no favorito para suceder seu pai à frente da empresa familiar, Elisabeth Trump & Son, dedicada a edifícios de aluguel de classe média nos bairros nova-iorquinos de Brooklyn, Queens e Staten Island.

Trump tomou em 1971 as rédeas da companhia, rebatizada como The Trump Organization, e se mudou para glamorosa Manhattan à caça de uma fama que chegou a base de projetos pomposos, autopromoção e uma relação tempestuosa com a imprensa.

O “aprendiz” de presidente justifica essa estratégia nas memórias “Trump: A Arte da Negociação”, um best-seller imprescindível para entender o personagem, apresentado no livro como um “mestre do trato” que pensa “em grande estilo”.

“Lido com as fantasias das pessoas”, escreveu o candidato, que abusa – como se pode comprovar tanto nos negócios como na política – da “hipérbole” como “uma forma inocente de exagero e uma forma muito efetiva de promoção”.

O ousado empresário começou então a cimentar sua fama com deslumbrantes obras em Manhattan, como a Trump Tower, um luxuoso arranha-céus de 58 andares com uma cascata do lado de dentro em plena Quinta Avenida e onde, obviamente, lançou sua campanha presidencial.

O magnata ergueu um império que inclui hotéis, campos de golfe e cassinos, um negócio este último no qual incorreu em quatro falências apesar do “sucesso” que Trump tanto alardeia. Segundo a revista “Forbes”, o candidato republicano possui uma fortuna de US$ 4,5 bilhões, mas Trump insiste que o número ascende a US$ 10 bilhões.

O multimilionário também lucrou no mundo do espetáculo não só com “O Aprendiz”, que lhe valeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, mas com a aparição em vários filmes e a propriedade de concursos de beleza como o Miss Universo.

Com três casamentos e dois divórcios midiáticos (com a modelo tcheca Ivana Zelnickova em 1991 e a atriz americana Marla Maples em 1999), a vida pessoal de Trump foi tão agitada quanto sua carreira profissional, para deleite da imprensa sensacionalista.

Zelnickova teve três filhos com o magnata (Donald Jr., Eric e Ivanka), que trabalham como vice-presidentes executivos da Trump Organization e exercem um papel crucial na campanha presidencial de seu pai, enquanto com Maples teve uma filha, Tiffany.

Desde 2005, o multimilionário presbiteriano está casado com a ex-modelo eslovena naturalizada americana Melania Knauss, de 46 anos, com quem tem um filho, Barron William.

Pouco dado a abrir seu coração em público, Trump nunca escondeu o trauma pela “muito triste” morte de seu irmão mais velho, Fred, um “cara maravilhoso” que morreu aos 43 anos pelas consequências do alcoolismo, o que ajuda a explicar porque o candidato não fuma nem bebe álcool.

Como detalhe curioso sobre sua singular personalidade cabe destacar que o empresário se define como um “obcecado por micróbios” e, por esse motivo, sente aversão a apertar mãos.

Com a indicação debaixo do braço, Trump enfrenta agora um desafio “em grande estilo”, como ele gosta: equilibrar seu ego com políticas que seduzam o eleitorado para receber as chaves da Casa Branca. Caso contrário, o eleitor, como seu personagem em “O Aprendiz”, pode eliminá-lo nas eleições de 8 de novembro com um clamoroso “Você está demitido!”. / EFE