‘Efeito Trump’ amplia violência escolar

‘Efeito Trump’ amplia violência escolar

Pesquisa indica que discurso de candidato contra muçulmanos e imigrantes tem influência no bullying de estudantes contra minorias

Redação Internacional

27 Agosto 2016 | 17h21

Cláudia Trevisan,
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Os ataques verbais de Donald Trump a imigrantes e muçulmanos levaram a um aumento das manifestações de ódio e intolerância racial nos EUA, segundo instituições que estudam ações extremistas no país. A violência vai além de insultos na internet e abrange ataques a pessoas e símbolos islâmicos, além da multiplicação de casos de intimidação contra crianças hispânicas e muçulmanas em escolas.

“Os ganhos obtidos por anos de trabalho contra bullying nas escolas foram revertidos no período de poucos meses”, disse estudo do Southern Poverty Law Center com base em questionário respondido por 2 mil professores dos ensinos fundamental e médio. Segundo os relatos, a retórica da campanha eleitoral encorajou estudantes “a insultar, falar palavrões e dar declarações inflamadas uns contra os outros”.

Retórica agressiva do republicano contra imigrantes e muçulmanos tem se reproduzido e amedrontado estudantes

Retórica agressiva do republicano contra imigrantes e muçulmanos tem se reproduzido e amedrontado estudantes

A análise foi divulgada em abril, quando a disputa pela nomeação do Partido Republicano à Casa Branca estava em andamento, mas muitos dos comentários faziam referência ao bilionário, que deu título ao estudo: “O Efeito Trump – O Impacto da Campanha Presidencial nas Escolas de Nossa Nação”.

Os professores descreveram um cenário de crescente medo e ansiedade entre estudantes que pertencem a minorias – em especial hispânicos, muçulmanos e negros – e de aprofundamento da tensão racial nas salas de aula. Estudantes estimulados pela retórica de Trump se referem a colegas islâmicos como terroristas e dizem que os latinos serão deportados caso o republicano seja eleito, relatou o estudo do Southern Poverty Law Center, entidade que monitora a atuação de grupos extremistas nos EUA.

Filhos de pelo menos um pai ou mãe imigrante representam 25% das 70 milhões de pessoas com menos de 18 anos que vivem no país. Desse universo, 88% (15,4 milhões) nasceram nos EUA e têm cidadania americana. Um professor da Carolina do Norte relatou casos de estudantes latinos que vão à escola com a certidão de nascimento, temendo a deportação.

Em março, alunos secundaristas gritaram “Trump” e “construa aquele muro” como palavras de ordem na torcida de um jogo de basquete contra um time de estudantes hispânicos. No Tennessee, uma criança do jardim de infância pergunta todos os dias aos professores se “o muro já chegou”.

Muro. A imigração está no centro da campanha de Trump, que prometeu construir um muro na fronteira com o México e deportar as 11 milhões de pessoas que vivem sem documentos nos EUA. Nos últimos dias, ele indicou que poderá suavizar sua posição em relação à expulsão, considerada impraticável e economicamente inviável por muitos analistas.

Levantamento divulgado em maio pela Universidade Georgetown mostrou relação entre a retórica da campanha presidencial e o aumento da violência contra muçulmanos nos EUA. No período de março de 2015, quando o ciclo eleitoral começou, a março de 2016, houve 180 ataques contra muçulmanos nos EUA, entre os quais 12 homicídios.

O maior número de ocorrências foi registrado em dezembro, depois dos atentados terroristas em Paris e San Bernardino, aos quais Trump reagiu com a proposta de barrar a entrada de muçulmanos nos EUA. “O Islã nos odeia”, disse o candidato. Só em dezembro, houve 56 incidentes, um terço do total de 2015.

Ódio. Engy Abdelkader, uma das autoras do estudo, disse ao Estado que há indícios de que a violência se manteve em patamares elevados desde março e aponta para os casos ocorridos no mês passado. No dia 12 de agosto, em Oklahoma, um homem branco matou a tiros o descendente de libaneses Khalid Jabara, seu vizinho de 37 anos, a quem se referia como “árabe sujo”.

No mesmo dia, Siham Zahdam e sua filha Suzanne Damra, foram insultadas em Chicago por uma mulher que gritava palavrões e dizia que elas pertenciam ao Estado Islâmico. As mulheres, que usam véus negros sobre os cabelos, relataram que foram seguidas pela agressora, que cuspia e as insultava. Imagens de celular mostram ambas entrando em seu carro, enquanto a terceira mulher tenta abrir a porta do veículo e grita palavrões.

No dia seguinte, em Nova York, o imã Maulama Aknojee e seu ajudante Thara Uddin foram mortos a tiros quando caminhavam no Queens depois de uma cerimônia religiosa. Ambos usavam roupas islâmicas tradicionais e foram assassinados à luz do dia.

Em março, um estudante muçulmano de Bangladesh, Khondoker Usama, e um colega hispânico foram atacados em um posto de gasolina de Kansas por um homem branco. Em entrevista ao Washington Post, Usama disse o agressor gritava “Trump, Trump, Trump”, os chamava de “lixo marrom” e afirmava que eles seriam jogados sobre o “muro”.

Mais conteúdo sobre:

Donald TrumpPartido Republicano