Eleito terá desafio de completar a obra de Obama

Eleito terá desafio de completar a obra de Obama

Continuidade no trabalho desenvolvido na saúde e na proteção do clima, entre outras áreas, é o que se espera do novo presidente

Redação Internacional

09 de novembro de 2016 | 05h00

WASHINGTON – Barack Obama proferiu seu discurso de vitória há oito anos, no Grant Park de Chicago, falando de “um novo amanhecer” na história americana e prometendo à multidão entusiasmada: “nós, como povo, chegaremos lá”. “Diante do que realizamos neste dia, nesta eleição, neste momento decisivo, a mudança chega à América”, prometeu o então recém-eleito.

Mas, no momento em que o país se prepara para escolher o sucessor de Obama, a corajosa agenda política prometida por ele ficou incompleta. O que Obama descobriu – e seu sucessor também aprenderá – é que cada presidência dura apenas um breve momento no tempo.

President Barack Obama walks down the White House Colonnade from the main residence to the Oval Office, Tuesday, Nov. 8, 2016, in Washington. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais)

Obama na Casa Branca. Foto: Pablo Martinez Monsivais/AP

A lei sobre o seguro-saúde de Obama beneficiou milhões de pessoas, mas hoje são fortes os apelos para uma ampla reformulação da lei. A economia está nitidamente melhor, mas a renda e o crescimento continuam fracos.

A revisão das leis sobre imigração que ele pretendia está presa num limbo legal, como continuam no papel normas mais rígidas com relação ao clima. Hoje, menos americanos combatem em guerras, mas o Estado Islâmico surgiu como a nova ameaça. As tensões partidárias e raciais se intensificaram.

“Há muita coisa inacabada”, disse Tom Daschle, ex-líder do Senado, democrata, da Dakota do Sul, que apoia Obama. “Há uma satisfação em saber que ele mudou o panorama de modo profundo. Mas também frustração quando sabemos o que poderia ter sido feito.”

Obama reconheceu a transitoriedade de seu mandato quando discursou no Grant Park. “Nossa escalada será íngreme”, afirmou. “Podemos não chegar lá em um ano, ou mesmo em um mandato.” E mais recentemente, admitiu que seu legado seria progressivo. Em um artigo para a Economist, ele descreveu a presidência como “uma corrida de revezamento, exigindo que cada um de nós faça sua parte para levar o país mais perto das suas grandes aspirações”.

Jen Osaki, diretor de comunicações da Casa Branca, disse que Obama sempre entendeu que era somente parte de uma sequência. “Ele reconhece que aquele para quem passará o bastão produzirá um enorme impacto se tomar como base os avanços que ele conseguiu.”

Assessores da Casa Branca salientam o que consideram pontos fortes desses avanços: ele tirou o país de profunda recessão econômica, resgatou o setor automotivo, ampliou o seguro saúde para 20 milhões de pessoas, pressionou o mundo a enfrentar a mudança climática, reduziu o papel de combatente dos EUA em duas guerras. Mas, para um presidente que assumiu prometendo mudanças arrasadoras, a eleição é um lembrete de que caberá a outro completá-las.

A assistência à saúde é o mais importante exemplo. A aprovação do Affordable Care Act (sobre o seguro-saúde), em 2010, mudou drasticamente os mercados de seguros nos EUA, melhorando o acesso aos cuidados médicos. Mas mesmo os democratas concordam que muito mais precisa ser feito para melhorar os custos e a qualidade.

Para Tom Daschle, o fato de o programa não ter sido concluído se deve em parte à obstrução republicana e em parte foi resultado de atrasos que sempre ocorrem quando se reformula um programa social tão grande.

A questão da mudança climática também é um trabalho em curso. Internacionalmente, Obama conseguiu, com sucesso, pressionar os líderes mundiais a adotar medidas mais agressivas contra o aquecimento global. Internamente, exigiu normas mais rígidas sobre combustível para carros e impôs novos regulamentos para usinas elétricas movidas a carvão.

Mas os acordos internacionais firmados por insistência de Obama se desenvolverão durante décadas. Caberá aos futuros presidentes a adoção de medidas políticas de combate ao aquecimento global.

“Obama abriu caminho para efetiva proteção do clima no campo global e doméstico”, disse Paul Bledsoe, assessor para o clima no governo de Bill Clinton. “Mas grande parte do trabalho pesado será realizado por seu sucessor, especialmente no âmbito da política doméstica.” / THE NEW YORK TIMES

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.