Em despedida, Obama mantém legado de coerência

Em despedida, Obama mantém legado de coerência

Para especialista, discurso de 2004, que apresentou o democrata, e a fala de quarta-feira mostram que presidente se manteve o mesmo

Redação Internacional

31 Julho 2016 | 05h00

Renata Tranches

Os cabelos estavam mais brancos e o corpo, menos agitado. Mas em seu último discurso como presidente em uma convenção democrata, Barack Obama ressoou a mensagem de um homem otimista, ouvida pela primeira vez 12 anos atrás, quando ainda era um desconhecido senador americano.

Em 2004, para um país marcado pelo atentado terrorista de 11 de Setembro e pelo início de duas guerras – Afeganistão e Iraque –, o então senador do Estado de Illinois falava em defesa do candidato democrata na época, John Kerry, que mais tarde se tornaria seu secretário de Estado. Alternando frases sobre sua vida pessoal e a capacidade dos democratas de enfrentarem aquele momento, Obama falou de esperança, assim como o fez na quarta-feira.

Obama e Hillary, de adversários a aliados. Foto: Robyn BECK/AFP

Obama e Hillary, de adversários a aliados. Foto: Robyn BECK/AFP

“Ele tem sido muito consistente. Em 2004, falou sobre unidade e parceria. Ele fez a mesma coisa agora”, disse, em entrevista ao Estado o professor de discursos políticos da American University (Washington) Robert Lehrman. O professor foi um dos responsáveis pelos discursos do ex-vice-presidente democrata Al Gore (1993-2001).

Para Lehrman, o Obama que subiu no palco da convenção democrata na Filadélfia, na semana passada, pouco mudou daquele que falou em Boston.

A Casa Branca, segundo ele, não o transformou. Em quase oito anos no cargo de maior poder do mundo, segundo o especialista, o democrata conseguiu se manter íntegro com suas crenças políticas. “Essa é uma administração que se encerra sem ser marcada por escândalos pessoais ou casos extraconjugais. Nem suborno. Até mesmo seus inimigos estão tendo dificuldade em acusá-lo de corrupção pessoal”, afirma Lehrman. “E ele é claramente um bom pai.”

Prestes a completar 55 anos, na quinta-feira, Obama se prepara para encerrar dois mandatos presidenciais com um dos mais altos índices de aprovação para um presidente americano. Segundo o último índice do Instituto Gallup, esse número era de 49%. Entre os presidentes em fim de mandato mais recentes, fica atrás de Bill Clinton (63%) e Ronald Reagan (51%).

No discurso de quarta-feira, Obama preocupou-se em reforçar a mensagem com qual espera ser lembrado. “Enquanto esta nação tem sido testada pela guerra, pela recessão e todos os tipos de desafios, venho aqui diante de vocês, após quase dois mandatos como seu presidente, para dizer que estou ainda mais otimista sobre o futuro da América do que estive no passado”, declarou um emocionado presidente, considerado nos EUA um dos mais talentosos oradores da história da política moderna americana.

Segundo Lehrman, há três aspectos pelos os quais Obama gostaria de ser lembrado, como demonstrou na Filadélfia. O primeiro é que a sua presidência realmente “resolve coisas”. “Evitamos a depressão. Realizamos coisas que não puderam ser feitas em 50 anos, como o seguro saúde”, parafraseou o professor, mencionando o seguro-saúde implementando no país, após várias tentativas fracassadas de presidentes democratas e republicanos.

Outro aspecto está ligado à própria trajetória de Obama, que fez história ao tornar-se o primeiro presidente negro dos EUA. A representação da família Obama na Casa Branca, segundo o professor, é um símbolo de promessa para todos os afro-americanos.

Quanto ao terceiro aspecto, esse dependerá de uma vitória democrata em novembro para a continuidade de seus projetos. Lehrman lembra que Obama ressaltou o fato de ter “pavimentado o caminho” para as futuras conquistas, como uma reforma migratória e um sensível controle de armas.

Na impossibilidade de aprovar uma reforma migratória ampla, Obama tentou soluções paliativas, com decretos executivos. Mas esses acabaram barrados pela Suprema Corte.

Com relação ao controle maior sobre a venda de armas de fogo nos EUA, Obama manifestou diversas vezes seu descontentamento por não ter conseguido fazer mais.

“Eu diria que Obama está profundamente frustrado por não ter alcançado tudo que ele queria, especialmente um maior controle de armas”, afirma o professor, lembrando ainda que um dos desejos do presidente era diminuir a polarização com os republicanos, mas ela tornou-se ainda mais profunda.

No entanto, como destacou em seu discurso, “está feliz” com o que conseguiu. O especialista lembra que o presidente conseguiu conduzir uma recuperação econômica com um plano que foi “muito difícil de passar no Congresso” e baixar o desemprego de 11% para 4% – além de tirar o país do Iraque.

Então desconhecido, Barack Obama fala na convenção de Boston. Foto: Gary Hershorn/Reuters

Então desconhecido, Barack Obama fala na convenção de Boston. Foto: Gary Hershorn/Reuters

*******************

O mundo em 2004
No discurso que o tornou conhecido, em 2004, Barack Obama não teve como fugir da guerra. Na sequência do 11 de Setembro, os EUA tinham invadido dois países, Afeganistão, em 2001, e Iraque, em 2003 – conflito que levou à deposição e morte do ditador Saddam Hussein. Os democratas perderam as eleições naquele ano para George W. Bush. Cansados do discurso bélico e das consequências da crise econômica, que levaram o país a números recordes de desemprego e a um colapso na Bolsa de Valores, os EUA elegeram, em 2008, o primeiro presidente negro do país e sua mensagem de esperança.

Na Filadélfia, usou seu capital político para defender Hillary. Foto: Alex Wong/AFP

Na Filadélfia, usou seu capital político para defender Hillary. Foto: Alex Wong/AFP

O mundo em 2016
Na reta final de seu segundo mandato, Barack Obama deixa os EUA com um pé no Oriente Médio, com a participação do país na coalizão que combate o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Reeleito em 2012, seu governo assistiu também à queda de regimes árabes, com a onda de manifestações populares conhecidas como Primavera Árabe, e acumulou algumas vitórias no campo diplomático. Entre elas, o acordo com o Irã sobre o programa nuclear do país e a reaproximação com Cuba após mais de 50 anos de hostilidades, virando uma importante página da Guerra Fria.

Mais conteúdo sobre:

Barack ObamaEUAPartido Democrata