Entrevista: ‘A política virou um esporte de gladiadores’

Entrevista: ‘A política virou um esporte de gladiadores’

Redação Internacional

14 Agosto 2016 | 05h00

Geoffrey Kabaservice, consultor republicano e autor de Rule and Ruin

Qual o impacto político dos talkshows conservadores?
Eles deram um verniz de entretenimento ao processo político. Agora, os eleitores esperam roteiro claros, respostas simples e pessoas que atuam como em reality shows, de maneira crua, desmedida, não diplomática. Trump respondeu a essas expectativas e se preparou para o papel sendo ele próprio uma estrela de reality show. Mas o caminho foi aberto para ele por esses apresentadores, que convenceram as pessoas de que a política é inútil, que todos os políticos são corruptos e nada de positivo vem de tentar governar de maneira responsável.


Os programas também demonizam Hillary Clinton.
Havia limites em como seu oponente era estigmatizado. Quando John McCain foi candidato à presidência (2008), ele rechaçava afirmações de seus seguidores de que (Barack) Obama era muçulmano e havia nascido no Quênia. Mas Trump adotou um comportamento que antes era considerado inaceitável. O complexo de entretenimento transformou a política em um esporte de gladiadores.
O Partido Republicano conseguirá sobreviver à divisão provocada pela candidatura Trump?
É prematuro falar em dissolução do Partido Republicano. É um bem muito valioso da política americana. Conscientemente ou não, os talkshows redefiniram a legenda na direção do populismo, de um partido mais opositor do que nunca, e contribuíram para o anti-intelectualismo, no qual a opinião de especialistas não importa ou é vista como parte de uma conspiração. É uma forma de niilismo e eu gostaria de pensar que o establishment republicano reagiria, mas eu acho que eles têm medo. Eles sabem que alguns desses talkshows têm seguidores dedicados e aliená-los tem custos para o partido.