Entrevista: ‘Brasil não será prioridade para Trump’

Para Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos EUA (1999-2004) e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, agenda de campanha do presidente eleito será diferente das promessas feitas durante campanha

Redação Internacional

13 de novembro de 2016 | 05h00

 

Felipe Corazza

A eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA não deve ter impacto na política externa do país em relação à América do Sul e ao Brasil. A avaliação é do ex-embaixador do País em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, Rubens Barbosa.

Em entrevista ao Estado, o diplomata afirma que Hillary Clinton talvez se interessasse em alguma medida pela região caso vencesse a disputa, mas o republicano deve dar pouca atenção a essa parte do mundo. “Não vejo nenhuma consequência, em termos de política externa”, afirmou.

Donald Trump surpreendeu o mundo ao conseguir derrotar Hillary Clinton e se tornar presidente dos Estados Unidos (Foto: Carlo Allegri/ Reuters)

Donald Trump surpreendeu o mundo ao conseguir derrotar Hillary Clinton e se tornar presidente dos Estados Unidos (Foto: Carlo Allegri/ Reuters)

Barbosa acredita que o sucesso de Trump é similar ao do Brexit no Reino Unido – um catalisador de uma insatisfação popular com os efeitos prometidos, mas nunca cumpridos, da globalização como vetor de prosperidade para as camadas mais pobres.

Sobre as promessas controvertidas durante a campanha, o diplomata brasileiro não crê na aplicação integral da agenda quando o republicano finalmente ocupar a Casa Branca. Segundo ele, no entanto, o núcleo econômico do discurso eleitoral deve se concretizar.

Qual é sua avaliação do impacto da eleição de Trump?
Depois de uma eleição tão dividida, tão dura, cheia de acusações, o que aconteceu no discurso que ele fez logo depois do resultado e quando se encontrou com Barack Obama mostra que o tom vai ser diferente.

Muda algo na relação dos EUA com o Brasil?
Não vejo nenhuma consequência da vitória dele, em termos de política externa, em relação à América do Sul e ao Brasil, porque a América do Sul e o Brasil não são prioridades para a política externa americana. A Hillary talvez pudesse ter algum interesse porque conhece o Brasil, já esteve por aqui. O Trump não conhece nada daqui. Um jornalista fez um levantamento de todos os discursos da Hillary e do Trump com a palavra Brasil. No caso da Hillary havia 15 ou 20 referências, 10 delas sobre a corrupção nos negócios que o Trump fez no Brasil.

Ele vai mudar em relação ao que pregou na campanha?
Assim como cansei de dizer que essa eleição era imprevisível, acho que a agenda dele é imprevisível também. Mas o tom adotado no discurso da vitória e no encontro com o Obama já é diferente da campanha. Nunca achei que a agenda que ele discutia na campanha fosse implementada na íntegra. Houve um discurso do medo contra ele. E a raiva venceu o medo.

O que o sr. considerou como discurso do medo?
As coisas que foram ditas sobre ele desqualificando-o como comandante-chefe, falando sobre um ataque nuclear. As coisas que foram ditas sobre ele pela Hillary e pelo próprio Obama foram claramente uma tentativa de causar receio na população para não aceitá-lo. Como aconteceu de fato em parte da população, agora estamos vendo manifestações de rua contra ele em muitas cidades de lá.

Como será o futuro próximo ou não tão próximo na vida dos EUA e na relação com o mundo?
É realmente imprevisível. A única coisa que eu me aventuro a dizer é que a agenda não será implementada na íntegra. Fiz uma listagem de todas as promessas de campanha dele. Algumas coisas na área econômica ele deve fazer, como substituir a reforma de saúde do Obama por alguma outra coisa que a gente ainda não sabe qual é, mas ele vai fazer. A política econômica interna ele deve cumprir porque é programa do partido, medidas como reduzir impostos, política fiscal, política monetária, isso tudo é programa do Partido Republicano. Ele exagerou um pouco na apresentação, mas é o que o partido quer. Mas o próprio partido está dividido em relação a outras coisas que ele propôs na campanha.

Quais?
O muro (na fronteira com o México), a expulsão de imigrantes, barrar o acesso de muçulmanos, a revogação dos acordos comerciais. Tudo isso não tem apoio integral nem do governo dele, vai ter uma oposição muito grande do Partido Democrata e vai ter uma oposição muito grande da sociedade. É por isso que a agenda política dele ao assumir a presidência vai ser diferente da que ele discutiu na campanha.

Falando dessa agenda de campanha, por que uma parte tão grande do eleitorado aderiu a esse discurso?
Trump foi o único político americano que entendeu os anseios de uma grande parte dos americanos. Há 52% da população que é branca, de classe média baixa, sem educação superior e perdeu tudo na crise de 2008. Alguns se recuperaram, a maioria, não. A globalização como foi vendida por essa narrativa liberal de que seria boa pra todo mundo, aumentar crescimento, reduzir desemprego, isso não chegou a essa população de 52% do país, que se expressava, mas não tinha quem a representasse, é uma crise de representação também. É o mesmo fenômeno que aconteceu no Reino Unido com o Brexit.

É uma onda global?
Não sei se é uma coisa global. O Trump é o primeiro político desde o Eisenhower e o quinto candidato à presidência dos EUA que nunca ocupou um cargo público. Todo mundo ficou contra ele, mesmo dentro do Partido Republicano, mas ele chegou à reta final competitivo porque ele foi a voz do grupo desiludido com a globalização.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.