Entrevista: ‘Juntos, poderiam fazer mais que individualmente’

Entrevista: ‘Juntos, poderiam fazer mais que individualmente’

Para William Chafe, autor de livro sobre a história dos Clinton e professor da Universidade Duke, casal percebeu o benefício da parceria mesmo antes do avanço do feminismo

Redação Internacional

07 Agosto 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Cada vez que Hillary Clinton salvou seu marido de escândalos provocados por casos de infidelidade, ela ampliou seu poder e influência dentro de seu governo. O exemplo mais extremo dessa dinâmica ocorreu na campanha presidencial de 1992, quando Gennifer Flowers revelou ter tido um relacionamento de 12 anos com Bill Clinton no período em que ele era governador de Arkansas.

Depois que Hillary o defendeu, Clinton começou a falar em uma copresidência com a mulher e a propagar que os eleitores estariam levando “dois pelo preço de um”, disse ao Estado William Chafe, autor do livro Bill and Hillary: The Politics of The Personal (Bill e Hillary: A Política do Pessoal) e professor de História da Universidade Duke.

Candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton

Candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton

Quando eles chegaram à Casa Branca, em 1993, Clinton deu a Hillary a responsabilidade de implementar uma reforma que ampliasse o acesso da população aos serviços de saúde, uma das prioridades de sua gestão. Mas a postura intransigente da então primeira-dama levou à derrocada do projeto no Congresso.

A seguir, trechos da entrevista de Chafe.

Qual é a dinâmica da parceria pessoal e política de Bill e Hillary Clinton?

Desde o início, Hillary Clinton teve de decidir se perseguiria suas ambições sozinha ou se teria uma chance melhor de realizá-las em parceria com Bill. Quando eles se casaram, em meados da década de 70, o movimento feminista não estava tão avançado a ponto de se imaginar uma mulher presidente. Obviamente eles se amavam, mas um ingrediente importante foi o fato de que juntos eles poderiam fazer mais do que individualmente.

Quais eram as ambições?

Ter impacto na política e na sociedade e mudar a América na direção consistente com os valores de ambos. Para ela, era a crença nos direitos das mulheres e das crianças e nos direitos civis, o que remonta à sua experiência na Juventude Metodista. No caso de Bill, ser popular e ter influência política para mudar as coisas.

O que os manteve juntos apesar das infidelidades de Bill Clinton? Foi o lado pessoal ou o político da parceria?

Ambos. A mãe de Hillary, que teve influência decisiva sobre ela, foi maltratada pelos pais, pelos avós e por seu marido. Ainda assim, ela insistia em que a coisa mais importante era manter a família unida e nem mesmo pensar em algo como divórcio. Desde o primeiro dia Hillary sabia que Bill Clinton era um mulherengo, mas sempre esperou que aquilo pudesse ser contido.

No início, Hillary tinha a intenção de disputar eleições?

Na dinâmica entre Bill e Hillary, sempre que ela tornou a vitória dele possível ou resgatou sua carreira de escândalos que envolviam mulheres, ela ganhou mais poder. Depois que Hillary salvou Clinton do caso Gennifer Flowers, em 1992, ele começou a falar dela como sua copresidente e a usar a expressão ‘dois pelo preço de um’. Esse foi o ponto em que ela passou a reivindicar poder real e assegurar que ninguém interferisse com seu exercício. Mas não creio que Hillary tenha contemplado disputar eleições até o fim da presidência de Clinton.

O sr. descreve a Hillary do início da presidência de Clinton como uma pessoa intransigente, que valoriza o sigilo e é confrontadora. Quanto disso existe na Hillary de hoje?

Há duas Hillary Clinton. A primeira é a que saiu da igreja de sua mãe e que durante a faculdade trabalhava na construção de pontes e na busca de consensos em torno de reformas sociais. A segunda Hillary é a que ganhou poder e estava sempre com medo de que alguém pudesse subtraí-lo. Mas os desastres de 1993 e 1994 mostraram a ela que este não era o caminho correto. Hillary foi a responsável pela derrota da reforma do sistema de saúde. Em qualquer momento ela poderia ter tido 95% do que queria. Bill Clinton queria ceder, mas ela não permitiu. Em seguida, veio o desastre da eleição de 1994 (quando republicanos ganharam maioria na Câmara dos Deputados). Depois disso, ela retornou à sua antiga personalidade. Quando Hillary concorreu ao Senado, ela passou a ouvir as pessoas e a buscar consensos. A Hillary que disputa a presidência é muito mais parecida com a primeira Hillary do que com a segunda.

E a natureza sigilosa?

Isso ainda é importante e está relacionado à sua autoimagem como um ser moralmente puro. Quando ela se recusou a entregar os papéis do caso (do empreendimento imobiliário) Whitewater ao Washington Post (em 1993), sua motivação não foi algo relacionado ao Whitewater, mas sim ao fato de que aqueles papéis tinham evidência de que ela havia cobrado mais do que devia de clientes (do escritório Rose Law Firm) e podia ter agido de maneira inapropriada representando pessoas que tinham interesses com o Estado de Arkansas no período em que seu marido era governador. Ela não queria que nada afetasse sua reputação. A mesma coisa ocorreu com sua decisão de ter um servidor privado de internet quando era secretária de Estado. Ela tem receio de que qualquer coisa extremamente pessoal seja revelada. Esse é o seu calcanhar de Aquiles. É onde ela é mais vulnerável. Ela própria gera esses problemas com a obsessão por privacidade.

Veja abaixo: Os desafios de Hillary Clinton