Família negra teme eleição de Trump

Família negra teme eleição de Trump

Para os Jacksons, que têm Obama como fonte de inspiração, futuro é incerto com republicano

Redação Internacional

06 de novembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
ENVIADA ESPECIAL / JACKSONVILLE, EUA

Nos EUA dos anos 50, Maude Burroughs Jackson estudava em uma escola segregada, na qual todos seus colegas eram negros. Na década seguinte, ela participou do movimento pelos direitos civis que levou ao fim da separação racial no país e garantiu o direito de voto aos afro-americanos.

Agora, ela se despede do primeiro presidente negro a ocupar a Casa Branca e olha com apreensão para uma disputa presidencial na qual defensores da supremacia branca saíram das sombras para apoiar a candidatura de Donald Trump. “Tenho medo do que a América pode se tornar se ele vier a ser presidente”, disse Jackson, de 74 anos, enquanto esperava para ver Barack Obama em Jacksonville, na Flórida.

Quatro gerações da mesma família aguardam para ouvir Obama em evento de campanha em Jacksonville

Para muitos negros americanos, o slogan “Tornar a América Grande de Novo” é carregado de conotação racial e aponta para um passado no qual o domínio branco não era desafiado. Os brancos representam a maioria esmagadora das milhares de pessoas que participam dos eventos de campanha do candidato, nos quais a homogeneidade racial predomina.

“Ah, olhem o meu afro-americano aqui. Olhem para ele”, disse Trump em um comício no mês de junho, apontando para o único negro da plateia, em uma tentativa desastrada de mostrar o suposto apoio entre não brancos.

Sobrinha de Jackson, Adelean Dixon esperava o discurso de Obama com os filhos, Victoria e Marlim, e o neto Jeremiah Kennick, de 3 meses. Quando ele ganhou a presidência, há oito anos, seu primeiro neto havia acabado de nascer. “Estar aqui é algo muito emotivo para mim”, disse Dixon, que olha para os Obamas como uma fonte de inspiração. A família do presidente é uma das mais ajustadas e livre de escândalos a ocupar a Casa Branca.

Victoria votou pela primeira vez na eleição de Obama, em 2008, e se prepara para marcar o nome de Hillary Clinton na terça-feira. Sua maior preocupação com uma eventual vitória de Trump é o futuro dos três filhos homens, em um país no qual jovens negros morrem com mais frequência do que brancos vítimas da violência policial.

“Meus filhos cresceram e serão jovens negros. Preciso de alguém que ajude a moldar seu futuro e não a destruí-lo antes que eles tenham uma chance de crescer”, afirmou Victoria.

Durante sua campanha, Trump apresentou uma imagem estereotipada e apocalíptica de comunidades negras, as quais descreveu como regiões mergulhadas na pobreza, na criminalidade e na ignorância. “O que vocês têm a perder?”, perguntou, em um de seus apelos pelo voto afro-americano.

O pastor negro Barry Townsend acredita que o republicano despertou o racismo de parcelas da sociedade americana e empurra o país de volta ao passado nas relações entre brancos e negros.

No início de sua campanha, Trump se negou a repudiar o apoio de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan que é um dos principais supremacistas brancos dos EUA. Sob pressão, ele acabou rechaçando o seguidor. Na semana passada, o jornal oficial do grupo declarou apoio ao republicano, o que ele disse ser “repulsivo”.

Contas associadas a grupos racistas e antissemitas estão entre as fontes de apoio do bilionário no Twitter e costumam realizar ataques eletrônicos em massa a críticos do candidato.
Trump foi o principal protagonista do movimento que levantou dúvidas sobre o local de nascimento do presidente Obama, no que foi visto como uma tentativa nada sutil de tirar a legitimidade do primeiro negro a chegar à Casa Branca.

Três décadas antes de lançar sua candidatura à presidência, o bilionário publicou anúncios em jornais de Nova York pedindo o restabelecimento da pena de morte para quatro adolescentes negros e um hispânico que haviam sido condenados erroneamente pelo estupro de uma mulher branca.

Em 2014, os cinco receberam indenização de US$ 41 milhões pelo erro judicial. Mesmo assim, Trump não se desculpou por pedir sua execução. “Chegar a um acordo não significa inocência”, afirmou.

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