Fantasias e sombras

Fantasias e sombras

A imagem que Trump e Ryan vendem dos EUA foge da realidade

Redação Internacional

18 de outubro de 2016 | 05h00

Paul Krugman
THE NEW YORK TIMES

Sou um baby boomer, ou seja, velho o bastante para lembrar de conservadores gritando “EUA: amem ou deixem” para esquerdistas que criticavam o racismo e a desigualdade. Mas isso foi há muito tempo. Hoje, o desprezo pelos EUA – o país verdadeiro, não aquele imaginário no qual minorias e mulheres conhecem seu lugar – está concentrado na direita.

Na verdade, progressistas ainda veem muita coisa errada na sociedade americana e querem mudar isso. Mas também comemoram progressos, e as mudanças que buscam envolvem acréscimos: melhorar as instituições e não destruir o que está feito para começar de novo.

Mas na direita o que se vê cada vez mais são figuras de destaque descrevendo nossa sociedade como um cenário de pesadelo.

Trump critica declarações de Paul Ryan (E)

Trump critica declarações de Paul Ryan (E)

Isso é obviamente verdade para Donald Trump, que vê o mundo com óculos de lentes ensanguentadas. Nos EUA de sua visão – amplamente inspirada em fontes supremacistas brancas e neonazistas –, o crime corre desenfreado, o centro das cidades virou zona de guerra e hordas violentas de imigrantes invadem pelas fronteiras abertas.

Mas a realidade é que os índices de criminalidade atravessam uma baixa histórica, as cidades vivem grande recuperação e o número de mexicanos que deixam os EUA é maior que o dos que estão chegando. Mas eu, claro, só digo isso porque sou parte da conspiração.

Entretanto, encontramos quase essa mesma visão sombria, conflitante com a realidade, entre republicanos do establishment, pessoas como Paul Ryan, líder republicano na Câmara.

Ryan é um queridinho da mídia. Não tem grande apoio na base do partido. Na verdade, seu cartaz vem de jornalistas que cobrem sua atividade e decidiram que ele é o arquétipo do conservadorismo sério e honesto – e se aferram a essa história, não importando quantas vezes sejam apontadas a fraude e a crueldade de suas propostas.

Mas vamos levar em conta o quadro dos EUA que Ryan pintou na semana passada em discurso no comitê de apoio universitário aos republicanos. Foi algo tão distante da realidade quanto o destempero verbal de Trump. Para sermos honestos, Ryan disse estar mais descrevendo o futuro – o que acontecerá se Hillary for eleita – que falando do presente.

Mas o que Hillary propõe, essencialmente, é uma agenda de centro-esquerda, extensão da política que o presidente Obama conseguiu implementar em seus dois primeiros anos de governo – e ficou muito claro que Ryan, com suas obervações, buscava formar um quadro do que tais políticas produzem hoje. Segundo ele, o quadro é sinistro. Haverá uma situação “sombria e indefinida” criada por “uma burocracia fria e insensível”. Seremos um país “em que a paixão – a própria essência da vida – estará extinta”. E Hillary “não se deterá diante de nada” para alcançar esse país.

Será que os EUA de hoje parecem algo assim? Não. Temos muitos problemas, mas estamos longe de viver em desespero. O Gallup constatou que 80% dos americanos estão satisfeitos com seu padrão de vida, acima dos 73% de 2008, e 55% se consideram “prósperos”, para os 49% de 2008. E há razões para esse otimismo: a saída da crise financeira vem sendo lenta, mas o desemprego está baixo, a renda subiu em 2015 e, graças ao Obamacare, nunca tantos americanos tiveram seguro-saúde.

Assim, a imagem de Ryan dos EUA foge da realidade. Mas é absolutamente familiar para qualquer um que na adolescência tenha lido o Atlas Shrugged, de Ayn Rand. O republicano nega ser devoto de Ayn Rand. Mas, mesmo admitindo-se que o rapaz tenha deixado o culto, o culto nunca saiu do rapaz. Como Ayn Rand – que escreveu basicamente sobre os EUA dos anos Eisenhower! –, ele vê o que as horríveis políticas progressistas mundiais podem produzir, não o país no qual vivemos, esperançoso, apesar de seus defeitos.

Assim sendo, por que a direita moderna odeia os EUA? Não há muita sobreposição entre o alarmismo de Trump e o de Ryan, mas há claro alinhamento de interesses. As pessoas que Trump representa querem reduzir ou suprimir direitos de vocês-sabem-quem. O grande capital que apoia o estilo conservador de Ryan quer privatizar e desmantelar a rede de seguridade social. A dúvida é se rosnados políticos podem ser uma estratégia vencedora. É o que logo descobriremos. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É COLUNISTA

Tudo o que sabemos sobre:

TrumpPaul Ryan

Tendências: