Futuro da Otan no governo Trump preocupa Europa

Presidente eleito considera a aliança atlântica um órgão ultrapassado e diz que pretende abandonar bases militares em território europeu

Redação Internacional

13 de novembro de 2016 | 05h00

Andrei Netto
Correspondente / Paris

O slogan repetido à exaustão, “A América primeiro”, e as críticas do presidente eleito dos Estados Unidos à Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) transformaram a defesa da União Europeia na preocupação mais imediata dos líderes políticos do bloco.

Ansiosos com a falta de clareza da política externa de Donald Trump e com sua proximidade com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, chanceleres europeus se reúnem hoje em Bruxelas para organizar uma estratégia frente ao isolacionismo da Casa Branca nos próximos quatro anos.

A montage of British newspaper front pages reporting on President-elect Donald Trump winning the American election are displayed in London, Thursday, Nov. 10, 2016. (AP Photo/Tony Hicks)

Foto: Tony Hicks/AP

A reunião de ministros das Relações Exteriores foi convocada às pressas horas após a vitória de Trump, surpreendendo as chancelarias da Europa Ocidental, que apostavam no sucesso da democrata Hillary Clinton. O sinal vermelho acendeu em razão das críticas reiteradas do republicano à Europa – à França e à Alemanha, em especial – e à Otan.

Durante a campanha, Trump qualificou a aliança atlântica de entidade obsoleta e superada, afirmou que os Países Bálticos não serão protegidos em caso de ação militar da Rússia e Washington não tem mais meios de participar da defesa dos países da Europa. Sua ameaça é fechar bases da organização no continente ou pedir uma compensação financeira em troca do auxílio militar.

As declarações transformaram o impacto militar de Trump na Europa em um dos temas mais sensíveis da agenda bilateral. Durante sua gestão, Barack Obama ressaltou a disposição da Otan em proteger os países do leste, em especial Lituânia, Letônia e Estônia, os três vizinhos que se sentem mais ameaçados pela Rússia.

Na Polônia o sentimento anti-Putin também continua elevado, muito em função da anexação da Crimeia e do conflito no leste da Ucrânia envolvendo forças separatistas pró-Rússia apoiadas pelo Kremlin. Em resposta às preocupações dos europeus, Obama anunciou um plano para reforçar as tropas americanas na região com mais 4 mil homens, além de uma brigada de infantaria pesada. Da mesma forma, os investimentos em tecnologia e armamento não pararam.

Já Trump colocou tudo em questão durante sua campanha presidencial. “Quero conservar a Otan, mas eu quero que eles paguem”, afirmou, em referência aos países europeus. O republicano pressiona os aliados históricos a investir 2% de seus orçamentos em Defesa, como preveem os acordos da aliança atlântica. Mas o mais preocupante para a Europa é o desengajamento americano em relação à segurança do leste. “Protegemos países que ninguém nunca ouviu falar e vamos acabar em uma 3.ª Guerra”, afirmou, referindo-se às nações dos Bálcãs.

Em vários países da Europa, dirigentes não poupam críticas ao programa militar e ao isolacionismo de Trump durante a campanha, como o chanceler da Suécia, Carl Bildt, que chamou o republicano de “ameaça séria para a segurança do Ocidente”. Com a vitória eleitoral do republicano, várias autoridades exigem agora esclarecimentos do futuro ocupante da Casa Branca. “Ele deve dizer claramente de que lado está, se do lado da lei, da paz e da democracia, ou se ele não se importa com nada disso e quer um bom parceiro”, criticou a ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, em alusão a Vladimir Putin.

Especialistas em defesa ouvidos pelo Estado dividem-se sobre os riscos que Trump possa representar. Para Laurence Nardon, pesquisadora responsável pelo programa América do Norte do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), os europeus veem o presidente eleito dos EUA com hostilidade. “Ele defende um maior isolacionismo de seu país e só os interesses da América contam na sua visão”, diz ela. “Ele pratica uma política externa de businessman e creio que tenha convicção bem particular sobre a importância da Europa.”

Já o cientista político americano Nicolas Dungan, diretor de pesquisas no Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), de Paris, e pesquisador do Atlantic Council, de Washington, a União Europeia de fato não tem peso nos interesses americanos, mas a Otan ainda conta. “Quando os americanos pensam em Europa, não pensam em UE, mas em Otan”, diz o pesquisador.

Segundo Dungan, as maiores crises da atualidade, no Leste Europeu, no Oriente Médio – Síria, Iraque e Estado Islâmico – e na Ásia só terão solução com mais aproximação entre os EUA e a Rússia e a China. Trump promete uma melhor relação com Moscou, mas com Pequim os atritos são frequentes. “Os americanos não têm capacidade de realizar essa aproximação. É preciso que os europeus e os americanos cheguem a um acordo sobre assuntos como a Otan, limitando sua expansão, por exemplo”, prega o expert.

Decano da ciência política e das Relações Internacionais na França, Philippe Moreau Defarges relativiza a vontade de Trump de mudar de fato suas relações com a Europa e a Otan. Mais: ele considera a aproximação com Putin uma potencial boa ideia. “Putin é desagradável, mas não é Hitler. Trump é um personagem confuso, que não sabe bem o que quer. Mas talvez nessa aproximação haja uma racionalidade”, entende Defarges, que também considera a Otan ultrapassada. “O que Trump está dizendo é que chegou o momento de a Europa se assumir”, diz Defarges.

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