Hillary e Trump ignoram América Latina durante campanha

Hillary e Trump ignoram América Latina durante campanha

Candidatos focam em temas como guerra na Síria e futuro do Iraque, mas não abordam o processo de paz na Colômbia ou a crise política e econômica na Venezuela

Redação Internacional

06 de novembro de 2016 | 17h34

WASHINGTON – Após mais de um ano de discursos e debates, a campanha presidencial nos EUA chega ao fim sem que nenhum candidato tenha expressado uma ideia geral sobre a forma como o futuro governo se relacionará com a América Latina.

A região do globo que conta com uma população de mais de 600 milhões de pessoas e que possui laços históricos e comerciais com os EUA foi praticamente ignorada durante a campanha, com exceção das grosserias proferidas pelo republicano Donald Trump.

Candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton (Foto: AFP PHOTO / Jewel SAMAD)

Candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton (Foto: AFP PHOTO / Jewel SAMAD)

Em certos momentos, especialmente nos debates, o candidato e sua rival, a democrata Hillary Clinton, falaram exaustivamente sobre a guerra na Síria, o futuro do Iraque, as relações entre israelenses e palestinos e o que fazer com Rússia e Irã.

Mas a crítica situação humanitária no Haiti, o êxodo migratório centro-americano, a consolidação de um processo de paz na Colômbia, a interminável crise política e econômica na Venezuela, a instabilidade no Brasil e a proximidade com o novo governo na Argentina não foram sequer mencionados por Trump ou Hillary.

Apenas o México conseguiu um lugar privilegiado na campanha, e da pior forma possível. Trump lançou sua candidatura destacando que muitos mexicanos eram estupradores e que se propunha a construir um gigantesco muro na fronteira com o território mexicano. Trump também propôs revisar todos os acordos comerciais dos EUA – em especial o que o país mantém com Canadá e México -, outra declaração que acendeu o alerta na região.

Cuba. Durante um ato na Flórida, Trump afirmou que pretende reverter o curso da política de reaproximação com Cuba, iniciada pelo atual presidente Barack Obama em 2014, mas sua visão política da região não passou disso.

No fim de agosto, o governo do México arriscou ao convidar Trump e Hillary para reuniões, talvez com a esperança de que a candidata democrata aceitasse o desafio e que o polêmico milionário o rejeitasse.

A aposta não poderia ter sido mais desastrosa: Hillary simplesmente ignorou o convite e Trump fez uma coletiva de imprensa junto ao presidente Enrique Peña Nieto, como se fossem dois líderes em exercício.

A poucos dias da eleição, o site oficial da campanha de Hillary inclui uma versão em espanhol, mas em nenhum lugar é explicada a visão de política externa de uma candidata presidencial que já foi secretária de Estado.

Enquanto isso, o site da campanha de Trump inclui uma seção sobre política externa, mas dedicada a temas como a necessidade de derrotar o grupo Estado Islâmico e “vencer a ideologia terrorista do radicalismo islâmico”.

Para Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, em Washington, este quadro é resultado de uma campanha “que esteve vazia de ideias políticas e que foi impulsionada por slogans e frases de efeito”.

Veja abaixo: A maior ambição do polêmico Trump

Por sua vez, Lisa Haugaard, do centro Latin America Working Group (LAWG, em Washington), concordou que “não ocorreram, na realidade, discussões profundas e sofisticadas sobre nenhum tema de política externa nesta campanha”. Inclusive as discussões sobre outras regiões do país, disse ela, abordaram a discussão do ângulo das ameaças aos EUA, e não do ponto de vista da diplomacia.

Futuro. Para Shifter, “diante da sordidez e do baixo nível da campanha, a maioria dos governos da América Latina deve estar aliviado por ficar de fora do radar e não ter atraído as atenções”. Diante deste cenário, os analistas têm dificuldades para delinear um mapa de como seria a política dos dois candidatos em relação à região, particularmente em relação a Trump.

Lisa disse que as ideias do magnata para a região são “um vazio”. Shifter, por sua vez, afirmou que “não há qualquer evidência de que Trump tenha se dedicado a pensar, de nenhuma forma, em como se relacionar com os desafios da região, nem com a nova paisagem política”.

Na visão de Shifter, Hillary representa “essencialmente a continuidade da abordagem do governo de Obama para a América Latina”, embora a retórica de Trump já tenha “provocado danos” à relação do México com os EUA, danos que, “aconteça o que acontecer no dia 8 de novembro, precisarão de tempo para ser reparados”. / AFP

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