Hillary tenta romper resistência entre jovens

Hillary tenta romper resistência entre jovens

Democrata precisa dos eleitores de 18 a 34 anos para repetir coalizão que deu vitória a Obama

Redação Internacional

02 de outubro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington

Kenny Nero Jr. é negro e votou em Barack Obama em 2008 e 2012. Mas, em novembro, ele marcará o nome da candidata do Partido Verde, Jill Stein, na disputa presidencial dos EUA. Como muitos dos jovens nascidos entre 1982 e 2000, ele não é entusiasta de Hillary Clinton, que depende desse grupo para manter a coalizão que levou Obama à Casa Branca.

Em 2012, o presidente ganhou 60% dos votos dos eleitores na faixa de 18 a 34 anos, que foram cruciais para sua vitória na Flórida, Ohio, Virgínia e Pensilvânia, Estados em que a eleição foi definida. Pesquisas recentes mostram que Hillary não ultrapassa os 50% nesse segmento, que historicamente se identifica com as posições mais progressistas dos democratas.

Depois de votar em Obama em 2008 e 2012, Nero Jr. escolherá Jill Stein, do Partido Verde, em novembro (Foto: Cláudia Trevisan / Estadão)

Depois de votar em Obama em 2008 e 2012, Nero Jr. escolherá Jill Stein, do Partido Verde, em novembro (Foto: Cláudia Trevisan / Estadão)

Cerca de 30% dos integrantes dessa geração, conhecida como geração do milênio, declaram a intenção de votar em Stein ou no libertário Gary Johnson, porcentual superior a qualquer outra faixa etária. Esse também é o universo em que o republicano Donald Trump registra sua pior performance nas pesquisas.

A família de Nero é um microcosmo de algumas das tensões entre gerações que se manifestam nessa eleição, especialmente nas comunidades afro-americanos e hispânicas. Aos 61 anos, seu pai é um fiel eleitor do Partido Democrata e dará seu voto a Hillary. “Temos debates intensos sobre política e ele diz que um voto em Jill Stein representa um voto para Trump”, disse Nero Jr., de 33 anos, que vê a democrata como integrante de um sistema bipartidário que não o representa.

“Há uma diferença na comunidade negra entre os com mais de 40 anos e os mais jovens”, afirmou Dennis Black, de 25 anos. Ativista do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) ele votará na candidata do Partido Verde.

Hillary não conseguiu inflamar a geração do milênio da mesma forma que seu rival nas primárias democratas, o senador Bernie Sanders, que atraía multidões defendendo uma “revolução” no sistema político americano. Agora, ela tem a ajuda do ex-adversário de 75 anos para tentar arregimentar esses jovens eleitores.

Na semana passada, apareceram juntos em um evento na Universidade de New Hampshire para promover a proposta de estudo superior gratuito para famílias com renda anual de até US$ 125 mil, incluída na plataforma democrata em razão de Sanders. Ambos falaram de outro tema caro à geração do milênio, a mudança climática, que já foi descartada por Trump como uma “farsa”.

O desafio dos democratas não é só despertar a simpatia dos jovens em relação Hillary, mas convencê-los a sair de casa para votar. A candidata precisa equiparar ou superar a vantagem de Obama entre os mais jovens e minorias para compensar o favoritismo do republicano entre os eleitores brancos mais velhos.

No ano passado, o número de integrantes da geração do milênio em idade para ir às urnas se equiparou ao dos “baby boomers” – os americanos que têm entre 52 e 70 anos. Cada um desses grupos representa agora 31% do eleitorado do país. Mas há uma enorme disparidade em sua participação nas eleições.

Em 2012, apenas 45% dos eleitores entre 18 e 34 anos foram às urnas. Na faixa etária de 45 a 64 anos, o porcentual foi de 63%. A maior participação, de 70%, foi de eleitores com mais de 65 anos. Isso dá aos mais velhos uma influência desproporcional no resultado das urnas.

Estudante de finanças da Universidade Georgetown, Aakash Panjabi, de 19 anos, era um fervoroso seguidor de Sanders nas primárias. Agora, ele olha com desalento para uma disputa entre dois candidatos que são os mais impopulares da história recente dos EUA. “Não tenho certeza se gosto de qualquer um deles”, afirmou. “Obviamente, Trump é muito, muito, muito pior e vou acabar votando em Hillary.”

Veja abaixo: Hillary e Trump batem boca no primeiro debate

A expectativa do Partido Democrata é a de que a proximidade das eleições e a possibilidade de uma vitória de Trump convençam os jovens titubeantes a abandonarem candidatos de terceiros partidos e se perfilarem atrás de Hillary. Muitos já estão convencidos. “Vou votar em Hillary. Sou fã da Hillary desde o começo. Sei que ela tem alguns problemas, mas comparada com Trump ela é muito mais qualificada”, disse Amy Guay, de 19 anos, que cursa Estudos Americanos em Georgetown.

Na segunda-feira, cerca de 300 estudantes da universidade se reuniram para assistir ao primeiro debate presidencial entre os dois candidatos. “Estava lotado. Parecia a estreia de um filme do Harry Poter”, lembrou Danny Capuano, de 18 anos. “Não vou votar em Trump. Provavelmente, vou votar em Hillary, mas acho que nenhum dos dois era a melhor opção de seus partidos. Tenho que escolher o menos pior.”

Mais conteúdo sobre:

Donald TrumpHillary Clinton