Hillary usa declarações de rival para atrair voto de republicanos moderados

Hillary usa declarações de rival para atrair voto de republicanos moderados

Barack e Michelle Obama, seus mais poderosos cabos eleitorais, condenaram o discurso depreciativo de Donald Trump em relação às mulheres e disseram que são uma ameaça também para meninos que buscam modelos masculinos para se inspirar

Redação Internacional

15 Outubro 2016 | 05h11

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington

Com ampla vantagem no eleitorado feminino, a democrata Hillary Clinton está usando o tratamento de seu adversário em relação às mulheres para tentar conquistar o voto de homens republicanos moderados. A mensagem está sendo repetida em anúncios transmitidos em Estados-chave e em declarações de Barack e Michelle Obama, seus mais poderosos cabos eleitorais.

Em discurso no qual condenou as declarações depreciativas de Donald Trump em relação às mulheres, na quinta-feira, a primeira-dama dirigiu-se não apenas ao eleitorado feminino atingido de maneira direta pelos comentários. “Descartar isso como uma conversa cotidiana de vestiário é um insulto a homens decentes”, disse Michelle, referindo-se ao vídeo no qual o republicano se gaba de poder fazer o que quiser com as mulheres por ser famoso.

A candidata Hillary Clinton em Seattle, Washington. Foto: Brendan Smialowski/AFP

A candidata Hillary Clinton em Seattle, Washington. Foto: Brendan Smialowski/AFP

A primeira-dama apresentou as declarações de Trump como uma ameaça às filhas, mulheres, irmãs e mães dos eleitores, mas também a seus filhos, que buscam modelos masculinos nos quais se inspirar.

“Os homens que vocês e eu conhecemos não tratam as mulheres dessa maneira”, ressaltou Michelle, mãe de duas adolescentes. Horas mais tarde, Obama ressaltou que a mensagem de sua mulher ia além do universo feminino. “Ela também estava falando em nome dos homens que sabem que somos melhores do que isso, que não queremos ensinar a nossos filhos o tipo de coisas que estamos ouvindo na TV.”

Diretor do Instituto Ipsos nos EUA, Clifford Young acredita que os homens brancos com educação superior formam o grupo demográfico que poderá definir a corrida nos 24 dias que faltam para a eleição. Em sua opinião, Trump já perdeu as mulheres e agora corre o risco de ver uma deserção ainda maior no universo masculino de classe média ou classe média alta. “Quando escutam o diálogo, eles pensam ‘eu nunca tive uma conversa assim, eu não me reconheço nesse cara’.”

A disputa atual registra a maior divisão por nível educacional de eleições recentes americanas e Trump deverá ser o primeiro republicano a perder entre eleitores brancos com ensino superior em seis décadas. Na avaliação de Young, essa tendência pode ser acentuada pela divulgação do vídeo em que o candidato fala de maneira depreciativa do sexo oposto e pelas denúncias de mulheres que dizem ter sido vítimas de investidas impróprias de Trump.

Veterano de guerra e histórico eleitor do Partido Republicano, Robert Kearney é a estrela de um dos comerciais que a campanha de Hillary começou a veicular nesta semana. “Eu sou pai de três garotas e não suporto escutar Donald Trump chamando as mulheres de porcas, cachorras e idiotas. E, com certeza, não quero que minhas filhas escutem isso”, diz Kearney no anúncio. “Quero que minhas filhas cresçam orgulhosas e fortes, em uma nação na qual são valorizadas e respeitadas. A América de Donald Trump não é o país pelo qual lutei.”

Mark Blumenthal, diretor de Pesquisas Eleitorais do SurveyMonkey, avalia que as declarações deverão ter um efeito marginal sobre o voto masculino. Ainda assim, o impacto pode ser crucial em Estados nos quais a disputa está acirrada. Blumenthal observou que Trump obtém 83% das intenções de voto entre eleitores republicanos, porcentual inferior aos 88% conquistados por Hillary entre os democratas. “Se ele perder 2 ou 3 pontos porcentuais, isso será suficiente para deixá-lo trás em alguns Estados nos quais a diferença entre os candidatos é pequena”, afirmou.

Em sua opinião, essa possibilidade é mais acentuada nos “swing States” nos quais pessoas com educação superior formam uma parcela significativa do eleitorado, como Carolina do Norte, Colorado e Virgínia.