Imigração e desemprego estão entre primeiros alvos de Trump

Trump quer avançar em medidas na 1º semana de gestão, mas precisará negociar com o próprio partido

Redação Internacional

20 Janeiro 2017 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Donald Trump deverá usar suas primeiras semanas na Casa Branca para anunciar medidas de impacto nos três pilares que sustentaram sua candidatura: controle da imigração, criação de empregos nos EUA e rejeição de tratados de livre-comércio. Apesar de ter maioria nas duas Casas do Congresso, ele enfrentará o desafio de negociar com o próprio partido, que resistiu à sua candidatura até o fim e com o qual tem diferenças ideológicas.

O novo presidente americano também usará a caneta para revogar uma série de decretos que compõem o legado construído por Barack Obama nos últimos oito anos. Na mira da nova gestão estarão restrições ambientais, regulações trabalhistas e regras de funcionamento do mercado financeiro, que costumam ser descritas pelo presidente eleito como inimigas da criação de empregos.

U.S. President-elect Donald Trump and his wife Melania arrive at Joint Base Andrews outside Washington, U.S. January 19, 2017, one day before his inauguration as the nation's 45th president. REUTERS/Jonathan Ernst

Trump chega a Washington para a posse  REUTERS/Jonathan Ernst

“Haverá uma ênfase em repelir o legado do governo Obama desde o primeiro dia”, avaliou o cientista político Geoffrey Kabaservice, autor do livro Rule and Ruin (Governar e Arruinar), no qual descreve a perda de espaço da ala moderada dentro do Partido Republicano.

O maior símbolo desse movimento será a rejeição do chamado Obamacare, a reforma do sistema de saúde que se transformou na principal realização doméstica do homem que comandou o país nos últimos oito anos. Mas sua revogação testará a sintonia entre Trump e sua própria legenda.

Algumas das posições do novo presidente estão em rota de colisão com os dogmas republicanos, que defendem a redução da interferência do governo na economia e corte de programas sociais. Poucos dias antes de sua posse, Trump disse que sua intenção é conceder seguro de saúde para todos os americanos, algo que contraria a posição anti-Estado de seu partido.

“Trump é um populista que não fez campanha de acordo com linhas conservadoras tradicionais e desafiou todas as facções do Partido Republicano”, opinou Kabaservice. Segundo ele, a vitória unificou a legenda, mas não há garantia de que a lua de mel será duradoura.

Choque. No terreno doméstico, o maior atrito deverá ocorrer entre as propostas de Trump para ampliar os gastos públicos e a visão fiscal conservadora de Paul Ryan, o presidente da Câmara dos Deputados que defende a redução de benefícios da seguridade social e do Obamacare.

A reforma da saúde promovida por Obama ampliou em 20 milhões o número de americanos que possuem seguro de saúde. Em muitos casos, isso só foi possível pelo concessão de subsídios do governo, aos quais os republicanos se opõem. Outros 10 milhões de cidadãos do país continuam sem nenhuma cobertura de saúde.

O cientista político Cal Jillson, professor da Southern Methodist University, acredita que também haverá colisões entre Trump e seu partido na revisão de tratados comerciais e em torno da promessa de imposição de tarifas de importação de 35% sobre produtos de empresas que transferirem suas linhas de montagem para o exterior. “Os republicanos são a favor do livre-comércio há décadas”, disse Jillson.

Em sua opinião, o novo presidente e sua base no Congresso tentarão encontrar pontos de concordância para aprovar medidas no curto prazo que possam beneficiar candidatos do partido nas eleições parlamentares de 2018.

Despesas. Segundo Jillson, outro potencial ponto de atrito é a proposta de Trump de aumentar os gastos em infraestrutura ao mesmo tempo em que há corte de impostos, uma receita para aumento do déficit público.

Durante a campanha, o presidente eleito prometeu rever o tratado de livre-comércio que une Estados Unidos, México e Canadá (o Nafta), criticou o acordo sobre o programa nuclear do Irã e ameaçou abandonar o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

Jillson observou que todos são acordos multilaterais e não podem ser simplesmente abandonados pelos Estados Unidos. Em sua avaliação, Trump buscará ajustes em seus termos e apresentará as mudanças como vitórias políticas.

A promessa de deportação de milhões de imigrantes ilegais também pode opor Trump a integrantes de seu partido ligados a setores que dependem da mão de obra barata para serem competitivos, como agricultura, construção civil, hotelaria e gastronomia. Mas de todas as propostas de Trump, essa é a que tem maior apelo popular: 72% dos entrevistados em pesquisa Washington Post/ABC News divulgada na terça-feira se disseram favoráveis à medida.

A construção de um muro na fronteira com o México é rejeitada por 60%, enquanto 63% se opõem à proibição da entrada de muçulmanos no país.