‘Imprensa marrom digital’ lucra alto

‘Imprensa marrom digital’ lucra alto

Eleição americana rendeu cliques e montanha de dólares para sites de noticiário falso

Redação Internacional

24 de novembro de 2016 | 05h00

Terence McCoy
THE WASHINGTON POST
Pouco menos de 2 mil leitores acessaram seu site quando Paris Wade, de 26 anos, ao acordar de uma sesta, abre seu laptop e acha que precisa “alimentar” seu público, como costuma dizer. “Rapaz, ninguém está cobrindo esse acordo TPP (Parceria Trans-Pacífico)”, é o que pensa depois de ler um artigo informando que o presidente Barack Obama deseja que o acordo seja aprovado antes de deixar o cargo. Wade, um oportunista digital da era moderna, vê aí uma brecha. E começa a redigir.]

“Não podemos confiar em Obama”, é o título que dá ao artigo. Pausa. Seu público odeia Obama, adora o presidente eleito Donald Trump e o objetivo de Wade é capturar essa repulsa e apresentá-la como uma luta entre o bem e o mal. E volta a escrever: “Veja o lance doentio dele para apunhalar Trump pelas costas”. Dez minutos e quase 200 palavras depois, ele termina seu artigo que é totalmente opinativo, repleto de insinuações e especulações. No final, conclui “DOWN WITH THE GLOBALISTS” (“Vamos acabar com os globalistas”). E então publica o artigo no seu site, LibertyWritersNews.com e o coloca em sua página do Facebook.

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Em seis meses, ele arrebanhou 805 mil seguidores e dezenas milhões de visualizações. “NÃO PODEMOS PERMITIR QUE ISSO OCORRA!”, escreveu, ao postar o artigo no Twitter. “#COMPARTILHEM um milhão de vezes, patriotas!”. Em seguida, ele examina o monitor ao lado, que faz análises matemáticas do site, enquanto observa as manifestações dos leitores que começam a chegar ao site.

Num momento de intensa e contínua discussão sobre o papel que sites hiperpartidários, notícias falsas e as redes sociais desempenham num país dividido, como os EUA neste ano de 2016, o LibertyWritersNews é um exemplo de como os sites podem usar o Facebook para explorar uma ideologia que vem se intensificando e rapidamente sair da sua insignificância e influenciar milhões de pessoas, contabilizando enormes lucros.

Há seis meses Wade e seu sócio, Ben Goldman, eram garçons desempregados. Hoje, estão no comando de um site que só em outubro registrou 300 mil seguidores no Facebook e, segundo afirmam, estão ganhando tanto dinheiro que nem gostam de falar a respeito porque não querem que comecem a lhes pedir algum emprestado.

Wade começa a cantarolar e a redigir uma nova postagem, enquanto seus leitores continuam ligados, compartilhando e enviando mensagens pessoais. Uma delas vem de uma mulher: “VOCÊ É A ÚNICA PESSOA EM QUEM CONFIO E INFORMA A VERDADE.”

Wade escreve: “A VERDADE ESTÁ AUSENTE! A mídia não quer que você veja o que Hillary fez depois de ter perdido…”. “Nada nesse artigo é diferente da média, mas já usei este título milhares de vezes. Violência, caos e uma linguagem agressiva é que atraem as pessoas”, afirma ele.

“Não tem nada de reflexão no artigo, basta formatar no Facebook e dar um clique”. “Verdade”, diz Goldman. “Somos a imprensa marrom”, Wade afirma, depois de um dia e uma noite em que o número de pessoas seguindo o seu site no Facebook já passa dos 20 mil. “Somos aqueles alarmistas que saem na rua gritando que o mundo está para acabar.”

Itinerantes. Tudo o que se sabe da vida de Wade e Goldman nos dá uma ligeira sensação de alguma coisa que pode ser separada em poucas horas, encaixada e transportada, desde as assinaturas falsas que utilizam – Wade é Paris Swade; Goldman é Danny Gold –, que usam até para alugar o imóvel. Nenhum acessório, exceto algumas roupas espalhadas pelo chão dos quartos, um par de laptops e um videogame.

Eles pretendem passar mais dois meses ali e não sabem onde estarão depois disso. Toda noite escrevem suas matérias sentados no sofá, monitoram para ver como se tornam virais, programam novas para a manhã seguinte e vão direto para a cama.

Mas agora, de manhã, chega Goldman, os degraus da escada rangendo à medida que sobe às pressas. “Meu artigo foi proibido”, diz ele, explicando que o Facebook removeu uma matéria que levava o título “Logo após PERDER a eleição, Hillary Clinton se humilhou da pior maneira possível como nunca se viu”.

“O Facebook”, diz Wade, sabendo que seus algoritmos às vezes pressupõem que artigos rapidamente compartilhados são spam e os bloqueia temporariamente quando são postados por um canal alternativo. “Eles têm um filtro.”

Wade chama o técnico que cuida do seu servidor no Texas: “não sei o que devemos fazer para contornar esses filtros de spams. Mas provavelmente perdemos milhares de dólares por causa deles”, diz ele.
Goldman senta-se no sofá, acessa o site de uma anunciante e examina quanto, apesar de tudo, eles ganharam. “Super vendas de eleição. Todos os candidatos colocaram dinheiro no site, houve dias em que arrecadamos US$ 13, US$ 14 para cada bloco de mil visualizações”.

De junho a agosto, dizem, ganhavam entre US$ 10 mil e US$ 40 mil por mês com anúncios. Então, o drama político se aprofundou e o seu público cresceu cinco vezes. Goldman acha que para ganhar o que ganhou nos últimos seis meses, levaria cinco anos se continuasse a servir mesas no seu velho emprego.
Wade e Goldman hoje têm um advogado e contabilidade, empregam outros redatores e estão ampliando seu negócio.

Origens. Ambos se formaram na Universidade do Tennessee. Wade formou-se em propaganda em 2012 e Goldman em administração em 2013. Mas não conseguiram encontrar um estágio remunerado e acabaram trabalhando em um restaurante mexicano. Nenhum dos dois pensava muito em política. Vindo de lares liberais, ambos votaram em Obama nas duas eleições, mas diante das dificuldades para encontrar um emprego melhor começaram a questionar sua opção política, sua educação universitária e os valores progressistas.

Eles então se mudaram para a Califórnia, primeiro Wade e em seguida Goldman, onde abriram uma empresa de publicidade que rapidamente foi à falência. Mas conseguiram atrair um cliente que mantinha inúmeras páginas de direita no Facebook e precisava de mais redatores. Em 2015, Wade e Goldman começaram a escrever artigos para a página, ganhando com base no número de cliques.

O primeiro artigo escrito por Wade foi sobre uma história da Coreia do Sul informando que, segundo uma fonte anônima, um cientista norte-coreano havia fugido do seu país com dados sobre experimentos em humanos. Wade sabia que precisava de uma imagem para vender aquela história aos leitores.

Procurou na internet a imagem de um experimento humano e encontrou uma fotografia “totalmente enganosa” de uma massa de carne e colocou como imagem, com o título “Coreia do Norte: Experimentos em Humanos”. Publicou o artigo e ganhou US$ 120 por dez minutos de trabalho. Para ele aquilo foi uma revelação. “Você tem de usar de artimanhas para convencer as pessoas a lerem.”

Agora, estabelecido na carreira que evoluiu a partir daquela revelação, Wade liga a TV para ver Alex Jones, um teórico das conspirações que possui 1,4 milhão de seguidores no Facebook, o oportunista que gostariam de ser. Wade entra no seu site, começa um novo artigo, enquanto assiste Jones gritando para a câmera. Não é no monólogo de Jones que Wade presta atenção, mas na estrutura do programa. “Queremos começar a filmar num estúdio como esse. Isso funciona no Facebook”.

O que funciona no Facebook e o que não funciona é o tema dominante das conversas entre os dois. Dizer explicitamente para as pessoas provarem que apoiam Trump compartilhando seus artigos funciona. Nenhum dos dois é particularmente religioso, mas seus leitores são, então, seus artigos pedem para Deus abençoar o presidente eleito – e isso funciona. Como também uma notícia falsa, como “SEGREDOS QUE ENVOLVEM O NASCIMENTO DE OBAMA REVELADOS! As cartas do pai dele revelam algo sinistro…” .

Métodos. Algumas vezes, Wade se pergunta como seria escrever um artigo no qual realmente acreditasse. “Num mundo perfeito”, afirma, ele teria nuances e um certo equilíbrio, longos parágrafos e levaria mais do que 10 minutos para compor. Levaria as pessoas a refletir. Mas nunca escreve tal artigo, afirma, porque ninguém se interessaria por ele, então, para quê? Em vez disso, com 4 mil pessoas acessando seu site a cada noite, Wade e Goldman continuam escrevendo e alimentando o público.

Wade escreve sobre um rumor que partiu do site da Fox News, de que “as novas manifestações de protesto contra Trump foram financiadas por indivíduos como o ativista bilionário George Soros”. “Cara”, diz Wade, “a esquerda está fabricando protestos”.

Por seu lado, Goldman redige um artigo. “Foi literalmente um pandemônio na sede da Convenção Nacional Democrata que se viu hoje.” E ri. “Deus, sei que essa declaração está totalmente errada”, afirma, e acrescenta, ainda rindo. “O que é um pandemônio?”.

Encerra seu artigo e Wade coloca um velho título no seu artigo sobre Soros, título que não tem nada a ver com o que escreveu, mas uma outra vez gerou inúmeras visualizações. Compartilha o artigo no Facebook e fica observando o fluxo de leitores. No começo algumas centenas, e depois quase mil.

Mas Goldman dá uma olhada no que Wade escreveu. “Quando vamos cair em cima desse traidor? Está na hora de acabar com ele. Temos de caçá-lo até o inferno e mais além.”. Goldman olha e sorri nervosamente. “Talvez exista uma maneira menos violenta de dizer isso.”

“Na verdade, vou mudar essa frase”, diz Wade, de repente aterrorizado, acessando seu laptop para substituir a frase “Vamos acabar com esse traidor” por “vamos humilhá-lo”. Mas os comentários já haviam disparado no site. “Ele deve ser preso e enforcado por crimes de guerra”, escreveu uma mulher. “Esse homem deveria ir direto para o maldito inferno” outra mulher postou. “Eu me habilito com prazer a eliminar esse traidor da América”, diz outro. “Prisão seria algo bom demais para ele.”

Autoavaliação. Goldman e Wade acham que não estão criando algo que não existe, mas simplesmente ventilando e atiçando os fatos, que seus leitores sabem que não devem levar suas hipérboles e exageros a sério. E mesmo que os comentários indiquem o contrário, elas não dão atenção.

Eles se consideram apenas participantes secundários de uma “guerra de memes” entre agências de notícias como The Other 98% à esquerda e a Nation in Distress à direita, mas quando veem os protestos nas ruas, as divisões no país, se perguntam se seu trabalho estaria tornando as coisas piores. E se um dos leitores realmente causar algum dano a Soros? Eles seriam cúmplices? Seu site é perigoso? Ou uma iniciativa empresarial? E se for uma oportunidade, até que ponto conseguirão mantê-la?

Uma noite, Goldman teve uma ideia. “Este seria o momento perfeito de abrir um pequeno jornal liberal. O Partido Democrata acabou. Espere até ver o que aconteceu hoje.” “Seria”, concorda Wade.

“Há muita animosidade dentro da esquerda.” “Não seria difícil para mim falar em nome do outro lado”, diz Wade, digitando uma postagem com o título “CURTA+COMPARTILHE SE VOCÊ AMA TRUMP”. Está na hora de curar o país, diz o texto. “Todas as mentiras que nos contam sobre ele são erradas. Ele não é nazista, não é xenófobo, não é deplorável, não é racista e está pronto para tornar a América um grande país novamente.”

Goldman continua digitando. Wade também. São 2.268 leitores que frequentam seu site e está na hora de conquistar outros mais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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