Julgamento político teve início com negócio imobiliário suspeito

Julgamento político teve início com negócio imobiliário suspeito

Caso Whitewater foi origem de processo de impeachment contaminado por escândalo sexual

Redação Internacional

07 Agosto 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Muitas das pessoas que viveram os primeiros dois anos de Bill Clinton na Casa Branca ou escreveram sobre ele posteriormente atribuem a Hillary Clinton a responsabilidade pela abertura da investigação que levou ao processo de impeachment contra seu marido.

O ponto de partida foi a recusa de Hillary de entregar à imprensa documentos sobre o empreendimento imobiliário Whitewater, no qual o casal havia investido durante a gestão de Clinton como governador de Arkansas. A decisão reforçou a suspeita de que havia algo impróprio na transação, o que levou à indicação de Kenneth Starr como procurador independente para investigar o caso.

Candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton

Candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton (REUTERS/Kevin Lamarque/Files)

O que começou com a investigação de um negócio imobiliário terminou com a acusação de que o presidente havia cometido perjúrio ao testemunhar sobre seu relacionamento com a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. No relatório final de Starr, a palavra “sexo” apareceu 581 vezes. “Whitewater”, apenas 4.

O clima de suspeição e intriga em torno do caso foi reforçado pelo suicídio de Vince Foster, um dos mais íntimos amigos de Hillary, com quem ela havia trabalhado durante quase duas décadas no escritório Rose Law Firm, em Arkansas. A proximidade de ambos era tanta que gerou rumores –nunca comprovados- de que eles tinham um relacionamento extraconjugal.

Quando Clinton chegou à presidência, em 1993, Foster foi trabalhar na Casa Branca. Em poucos meses, ele mergulhou em uma depressão provocada por críticas à sua administração de uma série de controvérsias que atingiram o governo e pela transformação da natureza de seu relacionamento com Hillary – que deixou de ser uma amiga para se transformar em uma chefe implacável.

Foster também era o guardião de papeis relacionados a transações financeiras dos Clinton, à venda da participação dos ativos do casal no empreendimento Whitewater e à atuação de Hillary no Rose Law Firm. Poucas horas depois de seu corpo ser achado em um parque, no dia 20 de julho de 1993, assessores da Casa Branca separaram documentos de seu escritório e se recusaram a entregar aos investigadores os que classificaram de “pessoais”.

Tudo contribuiu para o surgimento de teorias conspiratórias, segundo as quais Foster havia sido assassinado em uma tentativa de impedir a divulgação de informações supostamente comprometedoras para os Clinton. Depois de três anos de investigação, Starr concluiu que Foster havia se suicidado.

Os documentos relativos ao Whitewater que Hillary havia se recusado a entregar em 1994 “apareceram” na Casa Branca dois anos mais tarde. Entre eles, havia registros de sua atuação, como advogada, em outro empreendimento imobiliário dos mesmos donos do Whitewater, que acabaram condenados por fraude no negócio. Ainda assim, a investigação de seis anos sobre o assunto concluiu que não havia elementos para acusar o presidente e a primeira-dama de qualquer conduta criminal.

Depois que Hillary chegou à Casa Branca também veio à tona a revelação de que ela havia tido um ganho espetacular em um investimento no mercado futuro de gado, no qual colocou US$ 1.000 e retirou US$ 100 mil.

Mesmo sem a comprovação de condutas irregulares, esses fatos reforçaram no público a percepção de que os Clinton nem sempre navegam nos estritos limites da lei. A obsessão em proteger informações privadas gerou a mais recente controvérsia ao redor de Hillary, com sua decisão de usar um servidor privado de internet durante sua gestão no Departamento de Estado. Antes de entregar cópias dos e-mails ao governo dos EUA, Hillary deletou 32 mil mensagens que ela classificou de pessoais, o que deu munição a seus adversários. Na atual disputa, dúvidas em relação a seu caráter são a principal debilidade da candidata. Pesquisas recentes mostram que dois terços dos entrevistados a consideram não confiável e desonesta.

Veja abaixo: Os desafios de Hillary Clinton

Criada depois da saída do casal da Casa Branca, a Fundação Clinton também contribuiu para alimentar a percepção negativa em relação à família. Enquanto Hillary era secretária de Estado, a entidade recebeu doações de vários países, entre os quais notórios violadores de direitos humanos. Não há nenhum indício de que Hillary tenha favorecido qualquer dos financiadores da fundação em suas decisões no Departamento de Estado, mas havia no mínimo o potencial conflito de interesses.