Kerry: O que acertamos

Kerry: O que acertamos

Como ex-secretário de Estado, não posso falar com total isenção. Mas deixo o meu cargo certo de que, em geral, as tendências globais continuam a nosso favor e a liderança e o comprometimento dos Estados Unidos são essenciais e eficazes hoje como sempre foram

Redação Internacional

20 Janeiro 2017 | 10h46

John Kerry
THE NEW YORK TIMES

Com a investidura do novo governo, é natural avaliar o legado deixado pela administração anterior.
Olhando para a presente situação, alguns têm a impressão de viver um pesadelo e estão convencidos de que todo o sistema global está em frangalhos e que a posição do nosso país como líder mundial se encontra num acentuado declínio.

Como ex-secretário de Estado, não posso falar com total isenção. Mas deixo o meu cargo certo de que, em geral, as tendências globais continuam a nosso favor e a liderança e o comprometimento dos Estados Unidos são essenciais e eficazes hoje como sempre foram.

Dawn breaks behind the Capitol Dome as last minute preparations continue for swearing in of Donald Trump as the 45th President of the United States during the 58th Presidential Inauguration at the U.S. Capitol in Washington. Friday, Jan. 20, 2017 (AP Photo/Patrick Semansky)

Capitólios dos EUA durante os preparativos para a posse de Donald Trump (AP Photo/Patrick Semansky)

A principal razão disso é que o presidente Obama restabeleceu uma diplomacia firme como nosso instrumento de política externa e primeiro recurso, utilizando-a, vez por outra, para promover a segurança e a prosperidade da nação.

Isto é evidente, antes de mais nada, em nossa campanha para combater o Estado Islâmico. Há dois anos e meio, estes assassinos estavam avançando no Iraque e na Síria. Em lugar de nos precipitarmos para uma guerra unilateral, respondemos ajudando sem estardalhaço o Iraque a formar um novo governo de maior integração, e criando uma coalizão composta de 68 membros em apoio às forças armadas iraquianas. já então restauradas, ao pashmerga curdo e a outros parceiros locais com a finalidade de libertar o território antes ocupado pelo EI.

Estamos engajados num esforço decisivo para libertar os principais redutos que restam no Iraque (Mosul) e na Síria (Raqqa). Estas iniciativas militares dependeram da cooperação diplomática da qual fomos intermediários com o propósito de cortar os recursos financeiros do EI, reduzir a facilidade do recrutamento e refutar a propaganda venenosa na mídia social e na região.

O presidente Obama assumiu quando o programa nuclear avançava a todo vapor e nossa nação estava sendo submetida a uma crescente pressão para optarmos pela ação militar. Embora deixássemos claro que faríamos tudo o que fosse necessário para impedir que o Irã tivesse uma arma nuclear, adotamos a diplomacia, estabelecendo o mais rigoroso regime de sanções internacionais que o mundo já viu, a fim de testar se o Irã negociaria um acordo que garantisse que seu programa nuclear tinha um objetivo exclusivamente pacífico. Como resultado, sem disparar um único tiro e sem colocar em risco a vida de soldados, os Estados Unidos e os nossos parceiros concluíram o Plano de Ação Global Conjunto, que bloqueou os caminhos do Irã para uma arma nuclear e tornou nossa nação, nossos aliados e o mundo mais seguros.

Na invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2014, os Estados Unidos poderiam ter respondido como seis anos antes, quando a intervenção russa na Georgia foi tratada exclusivamente com declarações retóricas. Entretanto, após a restauração dos laços diplomáticos consideravelmente prejudicados pela guerra no Iraque, o governo Obama desafiou os céticos colaborando com os parceiros da União Europeia e impôs sanções que isolaram a Rússia e danificaram em grande parte sua economia. Também reforçamos a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ampliando nossa assistência aos aliados no Báltico e na Europa Central.

Em toda parte, continuamos trabalhando com a Rússia sempre que isto foi do nosso interesse. Mas como nos mantivemos firmes, agora a Rússia – apesar das bravatas dos seus líderes – está minada pela redução de suas reservas financeiras, pelo rublo historicamente fraco e por relações internacionais capengas.

O presidente Obama deixou claro aos nossos aliados e possíveis adversários na Ásia que os Estados Unidos continuarão sendo uma grande força em favor da estabilidade e da prosperidade destas regiões. Conseguimos que o mundo concordasse com a aplicação de sanções sem precedentes contra a Coreia do Norte e suas ameaças, aumentamos nossa presença naval no Pacífico, colaboramos com os atores regionais para fortalecer o estado de direito no Sul da China e concluímos uma parceria estratégica com a Índia. Também conseguimos a união dos principais parceiros num importante e histórico acordo comercial, a Parceria Trans Pacífico, que acreditamos será ratificado pelo Congresso – embora mantendo um relacionamento mutuamente benéfico com Pequim.

Quando o presidente Obama assumiu, as iniciativas para a proteção do planeta dos efeitos catastróficos das mudanças climáticas estavam estagnadas, asfixiadas por décadas de divisões entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Mas nossa busca de uma aproximação da China levou a uma série de avanços graças às quais o ano de 2016 foi o mais profícuo na história da diplomacia do clima. Partindo deste progresso, em lugar de ignorá-lo, obtivemos um avanço histórico na questão da energia limpa e a chance de salvar o planeta da maior devastação provocada pelo clima.

Os frutos da diplomacia do seu governo podem ser vistos também no hemisfério, onde fortalecemos nossa posição normalizando as relações com Cuba e contribuindo para pôr fim à guerra civil que há décadas grassava s na Colômbia. Na África, conquistamos amigos treinando jovens líderes e liderando o esforço global para conter o Ebola.

Obviamente, não solucionamos todos os problemas, particularmente no Oriente Médio, região em perpétua combustão. Mas os Estados Unidos foram absolutamente justificados em sua ênfase na necessidade de uma solução de dois estados entre israelenses e palestinos.

Também estou convencido de que a fórmula adotada para acabarmos com o tremendo conflito na Síria foi e continua sendo a única com possibilidades concretas de acabar com a guerra – usando a diplomacia na busca do alinhamento dos países de maior peso em vista de um cessar-fogo nacional, permitindo o acesso da ajuda humanitária, marginalizando os terroristas e promovendo conversações lideradas pela Síria sobre a criação de uma constituição e de um governo democrático.

A resposta da comunidade internacional à tragédia na Síria terá de ser amplamente debatida. Aliás, foi o que fizeram, durante anos, funcionários dos EUA na Sala da Situação. Algumas opções, como o envio de enormes contingentes de tropas terrestres, foram acertadamente abandonadas. Outras, como a utilização de forças especiais adicionais em operações limitadas, foram mais aceitas. Mês após mês, avaliamos as condições que se deterioravam e os benefícios incertos da intervenção em relação a riscos reais, inclusive um envolvimento mais profundo numa guerra cada vez mais abrangente. Embora eu não tenha vencido em todas as discussões – nenhum estrategista consegue – posso testemunhar que todas as ideias viáveis receberam ampla atenção.

Não sou um pacifista. Mas quando jovem, aprendi combatendo no Vietnã que, antes de recorrer à guerra, as pessoas que ocupam cargos de responsabilidade deveriam fazer tudo o que está ao seu alcance para alcançar seus objetivos por outros meios.

Acabo de regressar do Vietnã, onde uma diplomacia inteligente e persistente realizou o que dez anos de guerra jamais conseguiram: a instauração de uma sociedade capitalista dinâmica, a criação de uma universidade de estilo americano com a promessa de liberdade acadêmica e, o que é talvez mais importante, o fortalecimento dos laços não apenas entre os nossos dois povos, mas também entre as nossas forças armadas que outrora se viam como inimigas.

Olhando para o futuro, espero que a turbulência ainda evidente no mundo não obscureça as extraordinárias conquistas da diplomacia no governo do presidente Obama e nem permita o abandono de estratégias que se mostraram extremamente úteis à nossa nação.

Diplomacia exige criatividade, paciência e empenho incansáveis, muitas vezes longe das atenções do público. Os resultados raramente são imediatos. Mas ela ajudou a construir um mundo que nossos ancestrais invejariam – um mundo em que as crianças na maioria dos países nascerão saudáveis muito mais do que acontecia antes, receberão uma educação e viverão livres da pobreza extrema.

O novo governo enfrentará muitas dificuldades, como aconteceu com todos os governos anteriores. Mas para isto, ao assumir hoje, estará armado de enormes vantagens. A economia e as forças armadas dos EUA são os mais fortes do mundo, e a diplomacia contribuiu para que o vento esteja a nosso favor, nossos adversários informados das nossas resoluções e com os amigos ao nosso lado. / Tradução de Anna Capovilla