‘Magnata pensa o mundo como uma transação comercial’

‘Magnata pensa o mundo como uma transação comercial’

Com saída de Obama, EUA escolherão caminho entre a previsibilidade de Hillary e a impulsividade do magnata republicano

Jéssica Otoboni

12 Junho 2016 | 03h00

Na terça-feira, os eleitores do Estado da Califórnia, maior colégio eleitoral dos EUA, selaram com seus votos as candidaturas de Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, e Donald Trump, pelo Republicano, rumo às eleições de 8 de novembro. Para a ex-secretária de Estado, foi o início do fim de uma luta árdua contra Bernie Sanders. O magnata não precisou se preocupar com rivais internos, mas tem agora pela frente uma campanha em que vai precisar lidar com as críticas a sua posição ultranacionalista e xenófoba.

Promessas como a construção de um muro na fronteira com o México e a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA, apesar de desagradarem a diversos setores da sociedade, seduzem eleitores conservadores.

“Eles o veem como um defensor dos valores tradicionais” que “lutará contra os regulamentos”, afirma o presidente emérito do Diálogo Interamericano, Peter Hakim. Ele destaca que Trump lidará com a política externa como um homem de negócios pensa suas transações. A seguir, trechos da entrevista:

Como o senhor vê as ideias de Trump com relação à política externa americana?

Acho que Trump tem uma certa visão de mundo que vem de sua experiência, que é muito limitada ao setor imobiliário. Isso vendeu o nome dele. Trump vê o mundo dividido entre nós e eles, entre os EUA e o restante do mundo. Se nós ganhamos, outros países perdem, e se outros perdem, o nosso ganha. É como uma transação comercial. Ele pensa as relações com os outros países como uma pessoa de negócios. Como posso reduzir custos? Como posso ganhar mais? Como posso vender isso por um preço mais alto?

Qual é a opinião do Partido Republicano com relação a essa forma de pensar de Trump?

Se você observar os republicanos, verá que discordam de Trump em muitos assuntos. Acho que têm uma visão de mundo menos agressiva que o empresário. Uma das coisas que as comunidades de negócios gostam é de certa previsibilidade, mas Trump parece estar confortável com um grau de imprevisibilidade. Muitos republicanos evangélicos o apoiam. Eles o veem como alguém que insistirá em mudanças na sociedade com as quais estão insatisfeitos, como legalização do aborto, casamento gay e direitos das mulheres. Certos grupos se sentem mais atraídos por Trump por inúmeras razões, mas, no geral, o veem como defensor dos valores tradicionais.

Se Trump é visto como alguém imprevisível, o que se pode dizer sobre Hillary?

Hillary é absolutamente previsível. Se ela vencer as eleições, será talvez a presidente mais previsível que tivemos em muito tempo. Porque já conhecemos a performance dela como secretária de Estado e como senadora.

Caso Trump se torne presidente dos EUA, conseguirá construir o muro na fronteira com o México e proibir a entrada dos muçulmanos no país?

É muito difícil pensar em como ele faria tudo isso. Há o Congresso, a Suprema Corte, os direitos de Estado… Há muitas restrições como presidente. Trump pode não conseguir fazer o muro, mas reforça esse tipo de atitude – de que vai tomar medidas para reduzir a imigração e de que o México não será capaz de resistir.

Em seus discursos, Trump normalmente ignora a América Latina. Por quê?

O próprio Barack Obama tem ignorado amplamente a América Latina, que tem a sensação de que uma relação mais distante, ou mais independente, é melhor. Com relação a EUA e Brasil, estamos começando a ouvir mais sobre a gestão de (Michel) Temer e José Serra como ministro das Relações Exteriores. A relação é amigável, mas não tem sido cooperativa ou produtiva.

Trump tentará uma aproximação com a América Latina se chegar à Casa Branca?

Acho que não. E acredito que Hillary também não o fará. As duas perguntas centrais para o próximo presidente serão como administrar a relação com o México e como frear a imigração de mexicanos. A América Latina não está no horizonte.

Qual deve ser a posição de Trump sobre a Venezuela?

Isso é tão imprevisível quanto Trump. Acho que os EUA perceberam que não mudarão o modo como a Venezuela evolui. Qualquer coisa que se faça provavelmente não terá muito impacto e pode ser contraproducente. A menos que Washington consiga encontrar aliados na América Latina, deveria ficar fora da Venezuela.

A relação dos EUA com Cuba piorará com a saída de Obama?

Não necessariamente. Há pouca oposição nos EUA à reaproximação com Cuba. Na verdade, a popularidade de Obama com relação a isso está muito alta. Não há uma resistência no Congresso às iniciativas do atual presidente. Mas Washington pode começar a mostrar impaciência com Havana, em razão dos contínuos abusos dos direitos humanos e da economia que continua muito fechada. Mas isso é o que Cuba tem sido por 50 anos. Ela mudará quando decidir mudar. Um país crucial para os americanos é o México.

O México é mais importante do que a China?

É tão importante quanto. O México é importante por ser econômica e demograficamente integrado com os EUA. Quase metade dos latinos no país são de origem mexicana.

Com relação à política externa, o que deve permanecer e o que mudará com a possível entrada de Trump na Casa Branca?

Primeiro, o país perderá provavelmente um dos presidentes mais intelectuais e analíticos que já teve. Obama realmente pensou muito sobre certos assuntos. Trump é mais impulsivo e imprevisível. Obama pressionou os conselheiros com questionamentos e alternativas. Acho que Trump vai pelo outro lado. Ele foi colocado em um pedestal e precisa de pessoas que apontem para os obstáculos à frente e para onde deve ir.

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