Mercado reage com euforia a leve vantagem de Hillary sobre Trump

Mercado reage com euforia a leve vantagem de Hillary sobre Trump

Eleitores vão às urnas hoje para decidir quem será presidente dos EUA nos próximos 4 anos e pesquisas indicam que a democrata está na frente por 2,9 pontos porcentuais; concorrentes dedicam último dia de campanha a comícios em 5 Estados-chave

Redação Internacional

08 de novembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
ENVIADA ESPECIAL / NOVA YORK
Douglas Gavras

Hillary Clinton e Donald Trump encerraram a campanha presidencial ontem com uma maratona de comícios em Estados com disputa equilibrada. A democrata chega como favorita à eleição de hoje, com vantagem de 2,9 pontos porcentuais na média de pesquisas do site RealClearPolitics. Projeções dão a ela entre 68% e 98% de chance de se tornar a primeira mulher a ocupar a Casa Branca, o que trouxe alívio ao mercado ontem.

A onda favorável a Hillary, que no domingo se livrou de uma investigação do FBI sobre o uso de um servidor privado de e-mails enquanto era chanceler, levou o dólar a fechar em queda e voltar ao patamar de R$ 3,20, e a Bovespa encerrou o dia com alta de 3,98%. As principais bolsas da Europa também tiveram elevação.

ALLENDALE, MI - NOVEMBER 07: Democratic presidential nominee former Secretary of State Hillary Clinton speaks during a campaign rally at Grand Valley State University on November 7, 2016 in Allendale, Michigan. With one day to go until election day, Hillary Clinton is campaigning in Pennsylvania, Michigan and North Carolina. Justin Sullivan/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Em último dia de campanha, Hillary fala a Allendale, Michigan. Foto: Justin Sullivan/AFP

Um eventual governo de Hillary seria melhor para o Brasil e para a América Latina, segundo analistas. Historicamente, presidentes democratas tendem a ser mais protecionistas que os republicanos, mas essa é uma disputa incomum, lembra Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

“O Brasil não é prioridade na atual política externa americana, mas será afetado indiretamente. O cenário ideal é ter um governo Hillary com um Senado comandado pelos republicanos, mantendo a relação atual de forças e evitando um fortalecimento de democratas com maior inclinação à blindagem do mercado interno, como Bernie Sanders.”

“Hillary adotou um discurso contra a globalização, em parte para não perder votos. Uma vez eleita, porém, deve continuar as políticas de Obama, de mais diálogo internacional”, estima o brasileiro Rafael Dix Carneiro, economista da Universidade Duke, na Carolina do Norte.

Caso a vitória da democrata se concretize, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deverá decidir elevar os juros – atualmente entre 0,25% e 0,50% – em sua próxima reunião, em dezembro.

“Ele deve ser o candidato republicano mais protecionista desde a 2.ª Guerra, diz Brian Kovak, da Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia. “Trump criticou fortemente os acordos comerciais, e os EUA recebem cerca de 12% das exportações brasileiras. Ainda que tenha feito ressalvas quanto à Parceria Transpacífico (TPP), Hillary costuma ser a favor dessas negociações.”

No último dia de campanha, Hillary pediu a eleitores que votem por uma América “inclusiva” e “esperançosa”, enquanto o republicano reforçou seus ataques à elite política do país e se apresentou como um elemento externo capaz de mudar um sistema que considera corrupto. Os dois candidatos dedicaram as últimas horas antes da abertura das urnas a cinco Estados cruciais, nos quais a disputa está acirrada ou o domínio democrata enfrenta resistência.

A eleição americana não é definida em uma votação nacional, mas em eleições estaduais, das quais sai a composição dos 538 votos no Colégio Eleitoral. Hillary fez campanha ontem em três campos de batalha: Filadélfia, Pensilvânia e Michigan, território tradicionalmente democrata que viu uma ofensiva de Trump nos últimos dias. O roteiro do bilionário incluiu os três Estados, além da Carolina do Norte e New Hampshire, onde está empatado com Hillary.

A democrata defendeu a união do país, cindido pela mais agressiva campanha de sua história recente. “Eu realmente quero ser a presidente de todos”, disse Hillary em Pittsburgh, na Pensilvânia.

Trump usou a decisão do FBI para atacar o sistema político americano e reforçar sua retórica personalista, que o apresenta como a única solução para os problemas do país. “Nosso establishment político não nos deu nada”, declarou na Carolina do Norte, um dos mais importantes Estados da disputa. “Nunca teremos outra oportunidade”, afirmou, em referência à sua própria candidatura.

Para o republicano, a Flórida é o mais decisivo dos territórios em disputa, sem o qual sua chance de chegar à Casa Branca será praticamente nula. O Estado é o que tem o maior número de votos no Colégio Eleitoral entre os “swing states”, que balançam entre os dois partidos e acabam decidindo a eleição. A maior parte dos Estados americanos são bases sólidas democratas ou republicanas e ficam virtualmente fora da campanha.

Pesquisas recentes indicam que os dois candidatos estão empatados na Flórida. Mas o aumento da participação de eleitores latinos pode fazer a balança pender a favor da democrata.

Trump prometeu deportar 11 milhões de imigrantes que vivem de maneira irregular, a maioria dos quais latinos. E a proposta de construção de um muro na fronteira com o México se transformou em uma das principais palavras de ordem de seus seguidores.

Hillary se apresenta como a candidata da continuidade, capaz de preservar o legado dos oito anos de governo de Barack Obama. A democrata escolheu Filadélfia, na Pensilvânia, para o grande comício de encerramento, que teria a participação de Bill Clinton, Obama e da primeira-dama, Michelle Obama. A trilha sonora seria de Bruce Springsteen e Jon Bon Jovi.

No último debate presidencial, Trump se recusou a dizer se aceitaria o resultado da eleição caso fosse derrotado. “Vou deixá-lo em suspense”, respondeu ao moderador. O suspense acaba hoje.

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