Milícia resistirá a confisco de armas

Milícia resistirá a confisco de armas

Membros da Força de Segurança da Geórgia se alinham à política de Trump e treinam para enfrentar mudanças sob o governo de Hillary

Redação Internacional

07 de novembro de 2016 | 05h00

David Zucchino*
THE NEW YORK TIMES

“Armas no chão!” A ordem foi dada num alto-falante por dois subxerifes barricados atrás das portas do carro de polícia e garantidos por fuzis semiautomáticos. Em frente, num posto improvisado, em um local no centro da Geórgia, estava um grupo de milicianos de meia-idade com fuzis AR-15 e pistolas 9 mm.

Eram membros da milícia Força de Segurança da Geórgia. Após resmungarem um pouco, depuseram as armas no chão de terra vermelha. A saia-justa terminou num papo amigável, com os homens retomando o armamento tão logo os policiais partiram. Mas o breve entrevero serviu para mostrar os crescentes temores de milicianos de que sua tão querida Segunda Emenda esteja sob ameaça.

Chris Hill (ao centro), uma espécie de paramilitar de 42 anos e barba loura, atende pelo codinome de Blood Agent e comanda a milícia Força de Segurança da Geórgia (Foto: Kevin D. Liles/The New York Times)

Chris Hill (ao centro), uma espécie de paramilitar de 42 anos e barba loura, atende pelo codinome de Blood Agent e comanda a milícia Força de Segurança da Geórgia (Foto: Kevin D. Liles/The New York Times)

A Força de Segurança da Geórgia é uma das muitas milícias radicais que se alinharam à campanha de Donald Trump, empolgadas com os ásperos ataques do candidato a imigrantes, muçulmanos e refugiados sírios. Mas nenhum outro assunto motiva tanto os milicianos quanto armas – e a persistente crença de que Hillary Clinton planeja tomá-las.

Os milicianos da Geórgia mobilizaram-se nos bosques de pinheiro no fim de semana passado para treinar para o dia em que, acreditam, se vejam forçados a defender o que chamam “nosso modo de vida”. Cerca de 20 homens e mulheres se entregaram a treinamento de infiltração, busca e destruição de alvos, tudo com farto fogo real, que deixou no solo um tapete de cartuchos vazios.

“Achávamos que estava ruim nos oito anos de Obama, mas o assédio às armas vai ficar muito pior se Hillary for eleita”, disse Chris Hill, uma espécie de paramilitar de 42 anos e barba loura, que atende pelo codinome de Blood Agent e comanda a milícia. Ele usava trajes de camuflagem e trazia no cinto uma pistola Smith & Wesson .40.

Quando Trump diz que quer fazer os Estados Unidos grandes novamente, Hill e os cerca de 50 milicianos sob seu comando se deslumbram. Eles querem de volta um país que, acreditam, foi roubado deles por liberais, imigrantes e “a corja do politicamente correto”. Nesses EUA que almejam, o cristianismo é ensinado nas escolas, o aborto é ilegal e os imigrantes devem vir da Europa, não de longínquas terras muçulmanas.

Os guerreiros de fim de semana formam o núcleo duro da “nação Trump”: a classe trabalhadora branca rural. Eles votam e têm muitas armas – das pesadas à pistolinha Derringer .22 de Nadine Wheeler, uma aposentada de 63 anos que descreve sua arma como “a melhor para proteger uma mulher”.

Nas conversas do grupo, as queixas fluíam tão prodigamente quanto as balas saíam das armas. Durante incursões de treino na floresta, eles falavam de uma vaga, mas próxima, tirania – um amálgama de forças sinistras que só podem ser mantidas longe por meio de armas e da disposição de usá-las. Os milicianos são operadores de máquinas e aposentados, carpinteiros e operários, todos imersos na cultura do sul rural. Todos acham que Trump, bilionário de Manhattan e magnata imobiliário, fala por eles.

“Na extrema direita, muitos dos mais apaixonados adeptos de Trump vêm do movimento miliciano”, disse Mark Pitcavage, pesquisador do Centro sobre Extremismo da Liga Antidifamação. “O movimento miliciano por trás da candidatura Trump é avassalador.”

A visão antiestablishment de Trump “vai ao encontro do estilo político paranoico das milícias”, disse Ryan Lenz, editor do blog Hatewatch no Southern Poverty Law Center.

Segundo Pitcavage, a Força de Segurança da Geórgia destaca-se entre as milícias pela islamofobia aguda. Seus membros se autodenominam “os 3%”. O rótulo vem da tese de que apenas 3% dos americanos coloniais lutaram na Guerra Revolucionária. Para Pitcavage, um historiador, isso é mito, mas um mito útil para os que acreditam que uns poucos homens armados podem derrotar tiranias.

Existem pelo menos 330 grupos desses “3%” espalhados por todos os 50 Estados, pelas contas de Pitcavage. Segundo Ryan Lenz, em 2015 havia 276 milícias ativas. Milícias e “3%” às vezes se juntam.

Trump já retuitou posts de nacionalistas brancos e simpatizantes do nazismo, mas Chris Hill e seus seguidores insistem que não são racistas, apenas cidadãos e patriotas intransigentes, com uma admitida perspectiva apocalíptica. Eles consideram Trump um baluarte contra a detestada Hillary.

Teresa Bueter, de 41 anos, trabalhou 26 anos como chapeira numa Waffle House e criou três filhos. Hoje ela é membro ativo da Força de Segurança da Geórgia e usa uniforme militar. Tem uma pistola .32 e um fuzil de precisão alemão. Segundo Teresa, os refugiados sírios que chegam aos EUA fazem-na “morrer de medo”. Com suas armas e o treinamento paramilitar dos fins de semana ela diz estar preparada para lutar pelos valores que instilou nos filhos e nos três netos. “Se Trump viesse a nosso grupinho, estaria em casa”, disse. “Ele quer uns EUA como nós queremos, o país que era antes.”

Para Daniel Potts, de 21 anos, ter uma arma e aprender a usá-la, participando de uma milícia bem treinada, é essencial para deter o que chama de “alastramento do Islã radical”. Ele admira a ferrenha oposição de Trump aos refugiados muçulmanos. “Nem todo muçulmano é do Estado Islâmico, mas muitos, sim”, disse Potts. Ele exibe nos braços tatuagens do logotipo dos “3%” e do Kuntry Krackerz, grupo afiliado à Força de Segurança da Geórgia.

Potts ganha US$ 18 por hora consertando telhados. Considera-se o tipo de americano trabalhador e obediente às leis que é menosprezado e marginalizado pelas elites costeiras.

Naquele encontro de fim de semana, Hill, o comandante da milícia, liderou Potts e outras duas dezenas de membros em um treinamento numa pista com obstáculos aberta na selva. Eles escalaram uma parede de troncos e atiraram em inimigos imaginários para “libertar” casas de madeira compensada e folhas de plástico negro. Um dos milicianos usava uma camiseta com a inscrição “Quando a tirania se torna lei, resistir passa a ser um dever”.

Tudo isso, segundo Hill, é parte do esforço para se armar, preparar-se e unir-se contra ameaças iminentes, especialmente se Hillary for eleita. Hill falou dos dois filhos, afirmando que a segurança deles o motiva a fazer o que faz.

Chris Hill chama seu grupo de “milícia defensiva” e prevê que haverá desordens e violência por parte de extremistas ligados aos dois candidatos, não importando qual deles vença a eleição. Se for Hillary, prevê, milhões de donos de armas marcharão sobre Washington à primeira tentativa de restringir sua posse. E concluiu: “Se o povo decidir que não aguenta mais a desigualdade, estarei com o povo e seguirei com minhas armas para Washington.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É JORNALISTA, VENCEDOR DO PRÊMIO PULITZER, E ESCRITOR

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