Na defensiva, Trump denuncia ‘falsa interpretação’ de sua fala sobre armas

Na defensiva, Trump denuncia ‘falsa interpretação’ de sua fala sobre armas

Após comentário dúbio, considerado incitação à violência contra Hillary, magnata acusa ‘mídia tendenciosa’ por ‘alvoroço’; nova controvérsia despertou atenção do Serviço Secreto que, segundo a CNN, buscou explicações com a campanha dos republicanos

Redação Internacional

10 Agosto 2016 | 19h41

WASHINGTON – Na defensiva mais uma vez, o candidato republicano à presidência dos EUA, Donald Trump, condenou nesta quarta-feira, 10, o que chamou de “falsas interpretações” e “mídia tendenciosa” pelo alvoroço sobre seu comentário sobre a Segunda Emenda. Ele insistiu que nunca defendeu a violência contra Hillary Clinton e “democratas desonestos” tinham “exagerado”.

Em um comício na terça-feira, Trump disse que nada poderia ser feito caso Hillary fosse eleita presidente e pudesse escolher novos juízes para a Suprema Corte contrários ao porte de armas. Em seguida, acrescentou, de forma ambígua, “talvez as pessoas da Segunda Emenda, talvez haja, não sei”, o que foi interpretado como um incentivo à violência contra sua adversária.

WINDHAM, NH - AUGUST 06: Republican presidential candidate Donald Trump speaks during a rally at Windham High School on August 6, 2016 in Windham, New Hampshire.   Scott Eisen/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Donald Trump se envolve em nova polêmica. Foto: Scott Eisen/AFP

O comentário foi suficiente para deixar em alerta também o Serviço Secreto dos EUA. Segundo a TV CNN, o Serviço Secreto teve “mais de uma conversa” com a campanha de Trump relacionada ao seu comentário sobre armas.

Após a reação da campanha democrata, que defendeu a tese de que quem faz um comentário como esse não está preparado para ser presidente dos EUA, Trump afirmou ontem que não disse nada além de encorajar os defensores do porte de armas a “se engajarem e se envolverem politicamente” na campanha. Hillary voltou a condenar hoje o comentário.

Aparentemente, o argumento de Trump não foi muito convincente. Até o senador Jeff Sessions, um dos partidários mais ferrenhos de Trump, hesitou em defender o candidato e disse que, apesar de Trump não defender a violência, ele usa as palavras de maneira equivocada.

A Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), por sua vez, saiu em defesa do republicano e veiculou um comercial de US$ 3 milhões qualificando Hillary de “hipócrita”. O vídeo diz que Hillary viaja o mundo em aviões privados, cercada de homens armados há 30 anos. “Mas ela não acredita no seu direito de ter armas em casa para se defender.”

Mas nem alguns membros da NRA concordaram com o discurso do magnata. Bob Owens, editor de um site sobre armas, do qual a NRA é anunciante, tuitou que as palavras de Trump não foram inteligentes, mas sim “uma ameaça de violência” – o que considerou “terrível como defensor da Segunda Emenda”.

Uma reportagem do jornal The Washington Post mostrou hoje que o comportamento de Trump, na verdade, segue um padrão em sua campanha. “Primeiro, Trump usa expressões para ganhar atenção. Então, vêm as reações indignadas, seguidas pelas manchetes de jornal. Finalmente, Trump, seus assessores e partidários atacam a mídia, acusam jornalistas de distorcer suas palavras ou de não entenderem suas piadas”, diz a reportagem.

O jornal cita dois casos como exemplo. Na semana passada, depois de expulsar um bebê do seu comício e causar reação, Trump afirmou que estava brincado. Na semana anterior, depois de pedir que a Rússia espionasse a conta de e-mails de Hillary, afirmou que estava apenas “sendo sarcástico”.

PARA ENTENDER – A Segunda Emenda (“Sendo necessária para a segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser violado”) foi ratificada em 1791, quatro anos após a aprovação da Constituição. A medida previa o direito do cidadão de formar milícias e portar armas para se defender de um governo tirano. O contexto era o do fim da guerra de independência, da expansão para o Oeste e do estabelecimento de governos estaduais fortes. As armas mais comuns na época eram rudimentares espingardas e pistolas carregadas com pólvora pelo cano.  / W. POST, EFE e AP