Nos EUA, Trump tenta novo aceno a latinos

Nos EUA, Trump tenta novo aceno a latinos

Depois de falar em deportação em massa, magnata é pressionado a mudar de posição

Redação Internacional

31 Agosto 2016 | 21h05

WASHINGTON – Poucos horas após reiterar no México a defesa da construção de um muro na fronteira sul dos EUA para barrar imigrantes ilegais, o candidato republicano à Casa Branca deve fazer na noite desta quarta-feira, 31, no Estado americano do Arizona, um pronunciamento sobre o tema, no qual tentará atenuar sua retórica.

Essa tem sido uma questão determinante para a campanha do republicano, que parece tentar mudar o tom. Após dizer, em meio às primárias que ele pretendia “forçar a deportação” de todos os cerca de 11 milhões de imigrantes que vivem ilegalmente nos EUA, Trump sugeriu na semana passada que poderia suavizar essa posição.

EVERETT, WA - AUGUST 30: Donald Trump speaks during a campaign rally on August 30, 2016 in Everett, Washington. Trump addressed immigration issues on the same night that his campaign confirmed an August 31 meeting with Mexican President Enrique Peña Nieto.   Matt Mills McKnight/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Donald Trump, durante evento de campanha. Foto: Matt Mills McKnight/AFP

A comunidade latina exerce forte influência sobre o eleitorado americano, principalmente em alguns Estados considerados chave na disputa.

O magnata tem estado sob pressão para esclarecer exatamente sua posição no discurso desta noite, que já foi remarcado diversas vezes, em meio a mensagens confusas do candidato e de sua equipe de campanha.

“Os americanos verão mais claramente que há apenas um candidato nessa corrida preparado para tomar os passos necessários para pôr fim ao fluxo de imigração ilegal nos EUA”, declarou o companheiro de chapa de Trump, Mike Pence, mais cedo, à TV CNN.

A outro canal, CBS, Pence, governador do Estado de Indiana, afastou a possibilidade de legalização desses imigrantes. “Não haverá nenhum caminho para a legalização, para a cidadania. As pessoas precisarão deixar o país para serem elegíveis para obter o status legal ou a cidadania.”

A expectativa do discurso foi abruptamente rompida na noite de terça-feira com a notícia de que Trump aceitara o convite do presidente Enrique Peña Nieto para visitar o México no mesmo dia. Um editorial do jornal El Universal afirmou que, ao aceitar tão rapidamente o convite, Trump “pegou diplomatas mexicanos desprevenidos”.

Hillary Clinton addresses the American Legion?s national convention in Cincinnati, Aug. 31, 2016. Clinton?s address regarding America?s leadership role in the world both militarily and diplomatically was a rare public appearance during a stretch of the campaign where she has focused in large part on fund-raising. (Sam Hodgson/The New York Times)

Hillary Clinton faz campanha em Ohio. Foto: Sam Hodgson/The New York Times

Fazendo campanha no Estado de Ohio, a democrata Hillary Clinton criticou a atitude de Trump, tanto por visitar o México quanto por tentar mudar suas posições. Ao fazer isso, destacou sua própria experiência com líderes internacionais quando era a chefe da diplomacia americana.

“As pessoas precisam saber que podem contar com você, que você não dirá uma coisa num dia, e outra completamente diferente no outro”, declarou Hillary, na cidade de Cincinnati. “E isso certamente significa mais do que tentar se redimir de um ano de insultos e insinuações dando um pulo na casa do vizinho por algumas hora e voltando logo depois.”

Pressão. Assessores cobram de Trump um discurso menos conflitivo. Segundo o site Politico, 64% dos republicanos em Estados-chave como Nevada e Colorado disseram acreditar que Trump deveria “atenuar” suas posições em questões migratórias, especialmente a proposta de deportação em massa.

Desta forma, enquanto entre os republicanos o discurso de Trump provocava expectativa, na bancada democrata alguns legisladores se puseram na defensiva.

“Não importa o que Trump diga no futuro, não importa como jogue com suas palavras ou com quem trate de se rodear. Há uma proposta constante sobre a qual edificou sua campanha: deportar à força milhões de pessoas do país, incluindo crianças nascidas nos EUA”, afirmou, na terça-feira, o legislador Xavier Becerra.

Segundo o legislador, a proposta de deportação em massa “sempre foi parte da agenda de Donald Trump” e faz parte de “quem é ele”.

O mesmo repúdio foi expressado pelo legislador afro-americano Jim Clyburn, que disse considerar “uma falta de respeito” o apelo que Trump fez nos últimos dias à comunidade negra, que sofre de maneira desproporcional com pobreza e desemprego e a quem o magnata pediu o voto lhes perguntando: “O que vocês têm a perder?”.

“Temos tudo a perder. Não há forma de um afro-americano aceitar essa retórica (de Trump) e respeitar a si mesmo”, ressaltou Clyburn, que lutou pelos direitos da minoria negra no Estado da Carolina do Sul.

Analistas disseram que o discurso do magnata poderia focar mais nos eleitores republicanos moderados, que têm uma maior simpatia pelos latinos, que na base de eleitores brancos atraída até agora por Trump e também estarão atentos a qualquer mudança de rumo do magnata.

Na opinião deles, se perceber que a nova abordagem de Trump se afasta das palavras que a conquistou durante o período de primárias, a base de eleitores brancos poderá ficar em casa no próximo dia 8 de novembro, dia das eleições presidenciais. / AP, EFE e NYT