Notícias falsas ameaçam debate político nos EUA

Analistas apontam risco para a democracia na disseminação de boatos e veem desconexão entre a imprensa e partidários de Trump

Redação Internacional

26 de novembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

É difícil imaginar uma personalidade tão antagônica à de Donald Trump como a do papa Francisco, mas milhões de pessoas acreditaram que o pontífice apoiou a candidatura do republicano à presidência dos EUA. Muitos também foram levados a crer que um agente do FBI responsável pela investigação dos e-mails de Hillary Clinton havia sido assassinado.

A mais polarizada eleição da história recente dos Estados Unidos foi marcada pela propagação em escala inédita de teorias conspiratórias, notícias fabricadas e informações falsas. Por um bom tempo, especialistas ainda debaterão o impacto do fenômeno no resultado das eleições, mas é crescente a pressão para que mídias sociais adotem medidas para conter a multiplicação de inverdades apresentadas como fatos legítimos.

Eleitores de Trump acompanham apuração na Times Square, em Nova York (FOTO: EFE/ALBA VIGARAY)

Eleitores de Trump acompanham apuração na Times Square, em Nova York (FOTO: EFE/ALBA VIGARAY)

Levantamento do Buzzfeed mostrou que nos três meses anteriores à disputa presidencial, as 20 “notícias falsas” sobre a eleição mais lidas no Facebook geraram 8,7 milhões de comentários, likes e compartilhamentos, mais que as 7,3 milhões de reações provocadas pelas 20 principais notícias verdadeiras sobre o assunto.

O novo fenômeno é visto como uma ameaça à própria democracia por vários analistas, jornalistas e políticos, entre os quais o presidente Barack Obama. “A capacidade de disseminar desinformação, teorias conspiratórias malucas, de apresentar a oposição em uma luz extremamente negativa sem refutação, isso se acelerou de uma maneira que polarizou de forma muito mais aguda o eleitorado e tornou muito difícil ter uma conversa comum”, disse Obama em entrevista à revista New Yorker divulgada na segunda-feira.

De acordo com o entrevistador, que o acompanhou durante uma viagem, o presidente discutiu de maneira obsessiva com um assessor sobre uma reportagem do Buzzfeed sobre uma cidade da Macedônia na qual jovens ganharam dinheiro com a criação de pelo menos cem sites falsos de apoio a Trump. Todos eles disseminaram notícias fabricadas e sensacionalistas recicladas de páginas da alt-right, a extrema direita americana.

Mentiras. Clifford Lampe, professor da Escola da Informação da Universidade de Michigan, disse ao Estado que um dos fundamentos da democracia deliberativa é a concordância em relação aos fatos, que dá a base para o debate de distintas posições políticas. “Se as pessoas em cada lado do espectro político não podem concordar em relação ao que é verdadeiro em uma situação, fica difícil encontrar um terreno comum sobre o qual discutir propostas.”

A refutação de notícias fabricadas é dificultada pela baixa credibilidade da imprensa tradicional americana, especialmente entre eleitores de Trump. Pesquisa Gallup divulgada em setembro mostrou que apenas 32% dos entrevistados confiavam na imprensa. Entre os republicanos, o índice era de apenas 14%.

Professor da Escola de Comunicação da American University, W. Joseph Campbell atribuiu a incapacidade dos veículos tradicionais de captarem o humor do eleitorado à falta de diversidade das redações, dominadas por pessoas mais identificadas com o Partido Democrata do que com o Republicano.

Além disso, os principais órgãos de imprensa estão localizadas nas grandes cidades das costas Oeste e Leste, que concentram os eleitores de Hillary, enquanto os seguidores de Trump estão espalhados nos subúrbios e em pequenas localidades do interior do país. “O que aconteceu durante a eleição foi um grande constrangimento para a imprensa, que estava desconectada do meio da América”, observou Campbell.

 

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