Novo secretário de Estado de Trump liderou entrada da Exxon na Rússia

Aposta de Tillerson no setor energético da Rússia pode criar uma linha muito vaga separando seus interessas no campo do petróleo e sua função como chefe da diplomacia dos Estados Unidos

Redação Internacional

14 Dezembro 2016 | 05h00

Andrew Kramer e Clifford Krauss
THE NEW YORK TIMES

Agora que Donald Trump escolheu Rex W. Tillerson, diretor executivo da Exxon Mobil, para secretário de Estado, a gigantesca empresa petrolífera deverá ganhar muito com isso: ela possui bilhões de dólares em acordos que só poderão avançar se os Estados Unidos suspenderem as sanções contra a Rússia.

Como dirigente da maior empresa petrolífera dos Estados Unidos, Tillerson foi condecorado com a Ordem da Amizade da Rússia e tem manifestado ceticismo com as sanções americanas que suspenderam alguns dos maiores projetos da Exxon Mobil naquele país.

Rex Tillerson, novo secretário de Estado dos EUA (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Rex Tillerson, novo secretário de Estado dos EUA (Foto: EUTERS/Kevin Lamarque)

Mas a aposta de Tillerson no setor energético da Rússia pode criar uma linha muito vaga separando seus interessas no campo do petróleo e sua função como chefe da diplomacia dos Estados Unidos.

Texano alto e corpulento, Tillerson conduziu a entrada da Exxon na política petrolífera russa depois do colapso da União Soviética. Ele sempre elogiou o país pelo seu vasto potencial como grande fornecedor de petróleo, desenvolvendo relações muito estreitas com a liderança do Kremlin.

A Exxon Mobil possui vários projetos em andamento na Rússia que são permitidos pelas sanções americanas. Mas outros estão suspensos por causa das sanções, incluindo um acordo com a empresa estatal petrolífera russa para explorar campos na Sibéria, equivalente a dezenas de bilhões de dólares. As autoridades russas qualificam o acerto como o acordo de US$ 500 bilhões.

Quanto a Tillerson, pessoalmente, deve se aposentar no próximo ano. De acordo com registros da companhia, ele possui US$ 218 milhões em ações da Exxon e seu plano de aposentadoria equivale a US$ 70 milhões.

A Rússia tornou-se um foco de preocupação depois de a CIA revelar que o Kremlin interferiu na eleição presidencial para ajudar Donald Trump. Agora a nomeação de Tillerson acende o debate sobre a mistura de negócios com política – e se isso pode fazer pender a balança em favor da Rússia em decisões políticas importantes, como a questão das sanções.

Discursando na segunda-feira em Moscou, Carter Page, partidário de Trump que afirmou que o seu trabalho na campanha do presidente eleito foi “reunir ideias” sobre política externa, declarou estar empolgado porque Tillerson provavelmente dará mais ênfase às oportunidades de negócios para o setor privado nas relações entre Rússia e Estados Unidos.

“O que me entusiasma é a chance de realmente trabalhar em algo novo para as coisas avançarem do ponto de vista comercial”, afirmou. Outros se mostram mais cautelosos.

“Como secretário de Estado ele será convocado para negociar com líderes mundiais como Vladimir Putin”, disse Michael T. Klare, professor no Hampshire College. “Nessas negociações, é caso de perguntar o que influenciará os tipos de acordos que ele firmar. Surgirão dúvidas se suas ações estarão beneficiando sua companhia ou os interesses dos Estados Unidos e seus aliados”, acrescentou.

Juntamente com outros executivos americanos, em 2014 Tillerson deixou de participar do fórum econômico organizado por Putin em São Petersburgo, atendendo à pressão da Casa Branca para isolar a Rússia. Os executivos da Exxon Mobil insistem que cumprem com as sanções. “Cumprimos a lei” disse Alan Jeffers, porta-voz da empresa. “Se a lei determina que uma companhia americana não deve participar de atividades em uma jurisdição particular, é o que fazemos”.

O objetivo das sanções é pressionar a Rússia por sua intervenção destrutiva a leste da Ucrânia, com o objetivo de forçar a liderança russa a mudar de estratégia. Mas Tillerson tem feito críticas à política americana.

Na assembleia anual da Exxon em 2014, ele afirmou: “Não apoiamos as sanções, no geral, porque não as consideramos eficazes, salvo se implementadas de modo bem mais abrangente, o que é muito difícil. Assim sempre insistimos para as pessoas que estão adotando essas decisões para examinarem os amplos danos colaterais para aqueles que estão realmente prejudicando”.

E durante uma sessão de perguntas e respostas em uma conferência em Houston, no início de 2015, ele disse que sua companhia espera que as sanções sejam suspensas.

O enfoque de Tillerson no tocante à Rússia acompanha o que Robert Amsterdam, advogado do magnata russo Mikhail Khodorkovski, descreveu como “a geopolítica de sinalização” para o Kremlin, um recurso de sobrevivência e sucesso para os executivos do setor de petróleo na Rússia.

“A Exxon tem adotado práticas que a tornam uma candidata de primeira linha aos novos ativos russos. E a maneira de fazer isto é chegar o mais perto do humanamente possível para apoiar os russos”, sem violar a lei.

As sanções ocidentais foram aplicadas pela primeira vez contra a Rússia em março de 2014, em resposta à anexação da Crimeia pelos russos. Em seguida os Estados Unidos e seus aliados, incluindo a Holanda, implicaram a Rússia na derrubada do voo 17 da Malaysia Airlines a leste da Ucrânia, em julho. Todos os passageiros e tripulantes morreram, incluindo 193 holandeses que seguiam para a Ásia em férias, quando o avião por alguns momentos sobrevoou uma zona de guerra.

O incidente resultou em sanções mais rígidas. Um mes depois, tanques russos invadiram o leste da Ucrânia, mudando o curso do conflito contra as forças do governo central ucraniano apoiado pelos americanos. Hoje cerca de 300 soldados americanos giram pela Ucrânia atuando como instrutores.

Depois da incursão russa em 2014, os Estados Unidos proibiram a transferência de tecnologia avançada na prospecção de petróleo em alto-mar e em áreas de xisto para a Rússia. O governo americano anunciou em 12 de setembro que a Exxon cessaria sua assistência em perfurações offshore para a Rosneff, estatal petrolífera russa, em 26 de setembro. Mas uma plataforma de alta tecnologia da Exxon Mobil já estava em operação no Mar Kara, parte de um projeto inacabado de US$ 700 milhões, que ainda não havia encontrado petróleo. Seria inútil se não fosse concluído.

Os executivos russos informaram a Exxon Mobil que os serviços de segurança da Rússia enviariam uma tripulação e basicamente confiscariam a plataforma se a Exxon Mobil cumprisse a legislação americana e deixasse inacabado o poço, afirmou um executivo da companhia que havia visitado a área no Ártico.

A Exxon transmitiu a ameaça ao governo americano e o Departamento do Tesouro capitulou, autorizando uma extensão do período de trabalho até 10 de outubro. Em um comunicado em 2014, a estatal de petróleo russa negou a ameaça.

Com a dilatação do prazo, a Exxon Mobil descobriu um enorme campo com cerca de 750 milhões de barris de petróleo para a Rússia algumas semanas depois. Igor Sechin, diretor executivo da Rosneff, chamou o novo campo descoberto de Pobeda, – vitória em russo.

É um dos projetos no Ártico no qual a Exxon Mobil tem direito de continuar trabalhando caso as sanções sejam suspensas. /Tradução de Terezinha Martino

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