O jogo da mentira

Reportagens que não refletem o imenso buraco que separa os candidatos em termos de honestidade apenas iludem o leitor

Redação Internacional

24 de setembro de 2016 | 05h00

Paul Krugman*
The New York Times

Podemos ter razoável certeza de como vai ser o debate de segunda-feira: Donald Trump vai contar mentiras grotescas e repetidas, envolvendo uma série de tópicos. Enquanto isso, Hillary Clinton pode dizer uma ou outra falsidade. Ou quem sabe ela não o faça.

Eis o que não sabemos: será que os mediadores vão intervir quando Trump apresentar uma de suas conhecidas e frequentemente reiteradas mentiras? Se ele disser, novamente, que se opôs à Guerra do Iraque desde o início – coisa que não fez –, será que vão desmenti-lo? Se ele disser que abandonou o questionamento sobre o local de nascimento do presidente Barack Obama anos atrás, será que os mediadores vão lembrá-lo que, na verdade, ele insistia nesse ponto até poucos meses atrás?

Candidatos à presidência dos EUA, Donald Trump e Hillary Clinton

Candidatos à presidência dos EUA, Donald Trump e Hillary Clinton

Se ele disser novamente que os EUA são o país de impostos mais altos do mundo – não são – será que alguém além de Hillary vai dizer que ele está errado? E será que a cobertura jornalística após o debate vai transmitir a natureza assimétrica das palavras trocadas pelos candidatos?

Podemos perguntar de onde vem tanta certeza do fato de um candidato ser tão mais desonesto que o outro. A resposta é que, a essa altura, temos um bom histórico de Trump e Hillary; graças a entidades não-partidárias envolvidas na checagem dos fatos, como a PolitiFact, podemos até quantificar a diferença entre eles.

A PolitiFact examinou 258 afirmações de Trump e 255 afirmações de Hillary, classificando-as numa escala que vai de “verdadeiro” a “mentira deslavada”. Podemos questionar algumas das avaliações deles, mas, no geral, o índice de acerto é grande. E o resultado mostra dois candidatos que habitam universos morais diferentes em se tratando de dizer a verdade. Trump teve 48 afirmações classificadas como “mentiras deslavadas”, enquanto Hillary teve apenas 6; o candidato republicano contabilizou ainda 89 “falsidades” e a democrata, 27.

A não ser que um deles sofra um colapso nervoso ou seja convertido a uma nova religião nos próximos dias, o debate deve seguir o mesmo rumo. Assim sendo, como deverá ser o trabalho jornalístico de cobertura?

Podemos partir do seguinte dado: não será possível investigar a fundo cada afirmação questionável feita pelos candidatos, por limitações de tempo, espaço e atenção do leitor. Minha sugestão é que os repórteres e organizações jornalísticas tratem o tempo e a atenção como uma espécie de orçamento que precisa ser distribuído pela cobertura.

O que as empresas fazem na hora de alocar capital é definir uma taxa mínima de atratividade, proporção mínima de retorno que um projeto precisa oferecer para ser levado a cabo. Em se tratando de reportagens e falsidades, isso corresponderia a dedicar tempo na emissora e centímetros de uma coluna a afirmações cuja falta de honestidade esteja acima de um certo limiar de indignação – uma mentira clara sem nem uma vírgula de verdade capaz de redimi-la, por exemplo. Nas categorias da PolitiFacts, isso pode corresponder a afirmações classificadas como “falsas” ou “mentiras deslavadas”.

E, se o debate for parecido com o que vimos na campanha até o momento, sabemos o que isso significa: um analista que dedica às mentiras de Trump cinco vezes mais tempo (ou espaço) do jornal do que às de Hillary.

Se sua reação a isso é pensar: “Não poder agir assim; seria como um viés partidário”, você acaba de demonstrar o imenso problema da cobertura jornalística desta eleição. Afinal, não estou pedindo que o jornalismo assuma um lado; peço apenas que as reportagens falem do que está ocorrendo de verdade, sem se preocupar com partidos. De fato, reportagens que não refletem o imenso buraco que separa os candidatos em termos de sua honestidade apenas iludem o leitor, mostrando ao público uma imagem distorcida que beneficia o mais mentiroso.

Mas há, é claro, intensa pressão para que a mídia jornalística se envolva nessa distorção. Aqueles que expõem as mentiras de Trump são agraciados com mensagens incríveis – e, se deixarmos de lado os ataques contra nossa raça ou grupo étnico, as acusações de traição, etc., a maioria declara que somos maus jornalistas por não criticar igualmente os dois candidatos.

Uma resposta bastante comum a esses ataques envolve abdicar totalmente da responsabilidade de verificar os fatos, que é substituída por uma crítica teatral: não importa se a afirmação do candidato é verdadeira ou falsa, o importante é a reação; qual foi a “impressão do público”? Como ficou a “questão da imagem”?

Mas a crítica teatral é trabalho dos críticos de teatro. O jornalismo deve informar ao público o que realmente ocorreu.

Ora, o que direi se Trump mentir menos do que prevejo, e Hillary, mais? É fácil: basta relatar o debate como ele realmente foi. Mas não podemos relativizar nossos conceitos. Se Trump mentir apenas três vezes mais que Hillary, a manchete ainda deve dizer que ele mentiu muito mais que ela, e não que ele tenha mentido menos que o esperado. Pode não ser fácil, mas fazer a coisa certa raramente é fácil. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*É COLUNISTA

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.