O Partido Republicano e a cultura do desespero

Fenômeno do bilionário não se explica só em razão de salários estagnados, mas tem a ver com um modo de vida que está sob cerco

Redação Internacional

22 Agosto 2016 | 05h00

Fareed Zakaria*
The Washington Post

Para alguns de nós, o mistério dessa eleição não é por que Donald Trump está se saindo tão mal, mas como ele consegue se sair tão bem. Dada sua óbvia falta de qualificações, suas propostas absurdas, sua hipocrisia, sua retórica tão agressiva e sua absoluta incompetência como candidato, por que ele não está pelo menos 10 pontos atrás em todos os Estados?

Em outras palavras, quem são os eleitores de Trump e por que continuam com ele? Às vezes, um bom escritor de olho arguto pode esclarecer mais que uma dúzia de pesquisas. J. D. Vance fez justamente isso em seu adorável livro Hillbilly Elegy: Memoir of a Family and Culture in Crisis. O livro disparou na lista de mais vendidos – merecidamente. Mas tem algumas lacunas importantes.

YOUNGSTOWN, OH - AUGUST 15: Republican candidate for President Donald Trump is seen through a teleprompter as he holds a campaign event at the Kilcawley Center at Youngstown State University on August 15, 2016 in Youngstown, Ohio. In his address, Trump laid out his foreign policy vision for America.   Jeff Swensen/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

O candidato republicano, Donald Trump. Foto: Jeff Swensen/Getty Images/AFP

Todos sabemos que a ascensão de Donald Trump foi determinada pela alienação e raiva da classe trabalhadora branca dos Estados Unidos. Esse segmento viu seus rendimentos estagnarem, suas cidades ruírem, seus sonhos desvanecerem. Mas Vance fica abaixo dos dados e nos mostra o que essas forças impessoais significam para pessoas de verdade. E descreve as crianças abandonadas, os hábitos de trabalho dos pobres, o abuso de drogas, a violência, a raiva. Mas ele faz isso com simpatia e amor. Afinal, eles são sua família.

Para Vance, o problema, em última instância é cultural, de valores, atitudes e costumes. “Nós, caipiras, precisamos ficar espertos”, escreve. “Temos de parar de culpar Obama, Bush ou empresas sem rosto e nos perguntarmos o que podemos fazer para melhorar as coisas.” Sua própria história de vida – com baixas expectativas, relacionamentos disfuncionais e pobreza persistente, acabando por se formar em Direito em Yale e de se tornar um executivo do Vale do Silício – mostra que, com garra, se pode conquistar tudo.

No entanto, Vance teve alguma ajuda pelo caminho. Ele conta que suas escolas públicas eram suficientemente decentes e, quando ficou motivado, os professores o ajudaram a ter sucesso. Ele diz que sua trajetória mudou quando entrou na Universidade Estadual de Ohio, que conseguiu cursar graças a generosos empréstimos e bolsas federais.

O momento decisivo no livro e na vida do autor foi quando ele decidiu ingressar no corpo de fuzileiros navais. Ele narra então como as Forças Armadas lhe ensinaram a ser disciplinado, trabalhar duro, aumentar as expectativas e usar bem o dinheiro (quando foi comprar um carro, um fuzileiro mais velho o aconselhou a desistir de um BMW e adquirir um Honda).

Isto é a burocracia federal empenhada em moldar a moral e os costumes, o maior exemplo de governo protetor. Quando tanto do que o governo faz está sob cerco, é estranho que Vance pareça minimizar o papel que o governo pode desempenhar para dar oportunidades a outros como ele.

Outra grande lacuna no livro de Vance diz respeito a raça. Ele fala das causas da ansiedade e dor da classe trabalhadora branca, mas trata dessas causas quase que só em termos econômicos. Seus empregos desapareceram, salários foram congelados, vidas ficaram mais instáveis. Mas seguramente há algo mais acontecendo aqui – a sensação de que pessoas que parecem muito diferentes e se comportam de modo diferente estão se levantando. Levantamentos, pesquisas e estudos confirmam que identidade racial e ansiedade estão no centro do apoio a Trump.

Vance toca nisso obliquamente, quando fala das quase patológicas suspeitas de seus “caipiras” com relação a Barack Obama. Vance explica que é em razão da dicção do presidente – “clara, perfeita, neutra” –, sua criação urbana, seu sucesso por merecimento, sua confiabilidade como pai. E dá vontade de sussurrar a Vance: “Porque ele é negro”.

Acima de tudo, durante anos, a classe branca trabalhadora votou em inúmeros candidatos republicanos e democratas com belos diplomas e sem sotaques regionais. Não é isto que torna Obama diferente.

A classe branca trabalhadora sempre conseguiu ter alguma condição nos EUA porque abaixo dela havia uma subclasse. Em seu trabalho seminal, American Slavery, American Freedom, Edmund Morgan afirma que, mesmo antes da revolução, a introdução da escravidão ajudou a sufocar o conflito de classes dentro da população branca. Não importa o quanto você é pobre, existe segurança em saber que há alguém que está numa situação inferior à sua.

A cólera que está insuflando o fenômeno Trump não tem a ver somente com estagnação dos salários. Trata-se de um modo de vida que está sob cerco e pode produzir uma “política de desespero cultural”. Esta frase foi cunhada por Fritz Stern para descrever a Alemanha um século atrás. A chave para evitar esta sorte não envolve um conjunto de políticas públicas – seja tarifas ou créditos fiscais –, mas políticas esclarecidas, o que significa que um líder não se aproveita dos temores e fobias da população. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA