Após visita cordial a Obama, Trump fala em mudar saúde e imigração

Após visita cordial a Obama, Trump fala em mudar saúde e imigração

Republicano eleito, que contestava nacionalidade do democrata, disse ter sido recebido por ‘um bom homem’; atual presidente, que considerava rival de Hillary incapaz de manejar códigos nucleares, considerou reunião de 90 minutos ‘excelente’

Redação Internacional

10 de novembro de 2016 | 14h57

(Atualizada às 20h35) WASHINGTON – Em um início de transição cordial diante das câmeras, o presidente Barack Obama e seu sucessor, Donald Trump, encontraram-se nesta quinta-feira, 10, na Casa Branca. Para o democrata, foi uma “excelente” reunião de 90 minutos. O republicano disse que não esperava mais de 15 minutos e estava aberto a “conselhos”. No Congresso, Trump afirmou que trabalhará “rapidamente” saúde e imigração, temas em que a visão de ambos é antagônica.

“Queremos agora fazer tudo o que podemos para ajudá-lo na sucessão, pois se você tiver êxito, o país terá êxito”, afirmou Obama ao magnata, ao fim da conversa no Salão Oval.

Donald Trump, the president-elect, shakes hands with President Barack Obama during a meeting in the Oval Office of the White House in Washington, Nov. 10, 2016. (Stephen Crowley/The New York Times)

Trump e Obama se cumprimentam no Salão Oval. Foto: (Stephen Crowley/The New York Times

O encontro de hoje foi o primeiro após anos de troca de críticas. Ao longo da campanha, Obama acusou Trump de não ser apto para ocupar o cargo de comandante-chefe ou ter acesso a códigos nucleares. O republicano desafiou a legitimidade da presidência de Obama, sugerindo que o líder havia nascido fora dos EUA.

Ao menos publicamente, os dois deixaram a animosidade de lado. Assim que a reunião se encerrou e os jornalistas que conseguiram entrar no Salão Oval para fotos, Obama sorriu para seu sucessor e explicou como foi o encontro. O republicano disse que o presidente é um “homem muito bom” e está ansioso para trabalhar com ele no futuro, até mesmo ouvindo conselhos. Trump acrescentou que eles nunca tinham se encontrado e não esperava que a reunião durasse mais de 10 ou 15 minutos.

Os dois falaram de forma breve com a imprensa, sem aceitar perguntas. Ao comentar o encontro, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, afirmou que foi um primeiro passo importante para uma transição tranquila. Trump e Obama não resolveram suas diferenças, disse Earnest, mas “a reunião pode ter sido pelo menos um pouco menos constrangedora do que alguns esperavam”.

TrumpVotacao

A tensão ficou evidente na chegada sigilosa do presidente eleito, que entrou na Casa Branca pelo jardim sul para evitar a imprensa.

Em novembro de 2008, Obama, então presidente eleito, e Michelle tiraram uma foto em frente à Casa Branca com George W. Bush e sua mulher, Laura, no dia em que foram recebidos na sede do governo dos EUA pela primeira vez. Hoje, enquanto Trump visitava Obama, Michelle recepcionava Melania Trump, com quem também teve uma “excelente conversa”, segundo o presidente. “Queremos garantir que eles se sintam bem-vindos durante os preparativos para a transição”, ressaltou Obama.

Da Casa Branca, Trump seguiu para o Congresso. Seu partido obteve a maioria nas duas Casas. Ele se encontrou com o presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, e o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell. Os três discutiram pontos da agenda legislativa.

House Speaker Paul Ryan escorts President-elect Donald Trump onto the Speaker?s Balcony, at the Capitol building in Washington, Nov. 10, 2016. Trump saw preparations already being made for the inauguration. (Al Drago/The New York Times)

Ryan mostra a Trump percurso da posse, no dia 20 de janeiro. Foto: Al Drago/The New York Times

Fogo amigo. Ryan, que mantém o posto mais poderoso no Congresso, foi em alguns momentos da campanha crítico de Trump e relutante a endossá-lo como candidato de seu partido. Deputado republicano do Wisconsin, Ryan fez com ele o percurso a ser seguido no dia da posse – 20 de janeiro. Trump considerou o encontro de ontem com Ryan “uma honra”.

Segundo ele, após sua posse, trabalharão rapidamente em questões como saúde e imigração. “Vamos reduzir impostos, como vocês sabem. Creio que vamos fazer algumas coisas absolutamente espetaculares para o povo americano”, disse, no gabinete de Ryan. / AP, REUTERS e EFE 

 

SAIBA MAIS: Mudanças na mira do republicano

Mudança climática
Membros da equipe de Trump têm se posicionado contra o “alarmismo” das pessoas em razão do aquecimento global e o consenso científico de que a atividade industrial é a maior causadora da mudança climática. Trump tem ameaçado “cancelar” o Acordo de Paris sobre o clima que entrou em vigor recentemente e promete abolir o Plano de Energia Limpa, que limita as emissões de carbono nos EUA.

Imigração
Trump tem afirmado repetidamente que anulará todas as ações executivas de Obama que criaram o programa de proteção de jovens que chegaram ainda criança aos EUA, conhecido como Daca. Ele permite a esses filhos de imigrantes que chegaram aos EUA a partir de 2007 com 16 anos ou menos receber uma permissão de trabalho e ficarem protegidas de deportação. Segundo o Instituto de Políticas de Imigração dos EUA, 1,3 milhão de jovens estavam elegíveis este ano. Desses, 63% deram entrada para se tornar beneficiário até março deste ano e 89% foram aprovados. Trump tem dito que é preciso estabelecer “novo conjunto de normas”, incluindo deportar imigrantes ilegais.

Controle de armas
Mesmo antes de o presidente Obama anunciar suas ações executivas com o objetivo de reduzir a violência armada, em 4 de janeiro, Trump já havia prometido desfazê-las. “Não gosto de nada que tenha a ver com mudar a Segunda Emenda”, disse Trump, referindo-se ao direito constitucional de portar armas.

Seguro-saúde
A Secretaria de Serviços Humanos e Saúde e a presidência são responsáveis pela implementação da lei da reforma da saúde (Affordable Care Act). Trump poderá limitar a expansão da assistência médica Medicaid e dar aos Estados grande poder para buscar alternativas à reforma, chamada Obamacare. Poderá também ter grande interferência na implementação da reforma mudando suas regras ou encerrando os esforços para incentivar as pessoas a se inscreverem no Obamacare.

Regulação financeira
Para o conselheiro de economia de Trump, Stephen Moore, o republicano entende que já há regulação demais dos bancos americanos. Sua interferência nesse setor deverá ser na escolha dos comandos da Comissão de Segurança e Câmbio e do Federal Reserve, que operam independentes da Casa Branca, mas têm comandos decididos por ela.

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