Otan cobra compromisso de Trump com a aliança

Otan cobra compromisso de Trump com a aliança

Vitória do candidato republicano na eleição americana cria um dos momentos mais delicados para Organização do Tratado do Atlântico Norte desde final da Guerra Fria

Redação Internacional

10 de novembro de 2016 | 13h36

Jamil Chade,
CORRESPONDENTE / GENEBRA

A cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) alerta que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, tem um “compromisso com seus aliados militares” e o bloco não serve apenas para defender a Europa, mas também os interesses americanos. A cobrança deixou claro o momento crítico que a aliança vive diante da vitória do candidato republicano.

Durante a campanha, Trump indicou que os americanos não estariam mais dispostos a financiar grande parte da conta da organização, que havia chegado o momento de os europeus bancarem sozinhos sua segurança. Numa outra entrevista, ao ser questionado se a Casa Branca viria ao socorro dos países bálticos no caso de uma invasão russa, o presidente eleito apenas respondeu: “depende”. Os comentários criaram um mal-estar entre os generais do bloco com sede em Bruxelas.

Secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, fala em conferência na sede da aliança, em Genebra (FOTO: AFP PHOTO / THIERRY CHARLIER)

Secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, fala em conferência na sede da aliança, em Genebra (FOTO: AFP PHOTO / THIERRY CHARLIER)

A eleição de Trump se transformou num dos maiores desafios da aliança desde o final da Guerra Fria. Falando às rádios alemãs, a ministra de Defesa de Berlim, Ursula von der Leyen, deixou claro que a primeira pergunta que Bruxelas terá de fazer ao novo governo Trump se refere ao futuro da aliança militar. “Teremos de perguntar claramente a ele: você garantirá a aliança?”, disse.

Desde a anexação da Crimeia pela Rússia, a Otan passou a adotar uma postura mais dura com Moscou. Mas tal estratégia também pode ser obrigada a ser revista diante dos elogios mútuos entre Trump de Vladimir Putin. Se a postura da Casa Branca for modificada com o Kremlin, a Otan pode ser forçada a repensar seu plano de enviar 4 mil soldados para os países bálticos e para a Polônia em 2017. Assistentes de Trump também já indicaram que podem reconsiderar plano do governo Obama de mandar infantaria pesada para o Leste da Europa no próximo ano, com um custo de US$ 3,5 bilhões aos cofres americanos.

O novo presidente americano também deixou claro que quer a Otan atuando mais na luta contra o terrorismo, o que tem gerado críticas veladas e mesmo explícitas por parte de militares franceses e alemães, hesitantes em ter tropas internacionais agindo pela Europa.

Sabendo da dimensão dos riscos que a aliança corre, o secretario-general da Otan, Jens Stoltenberg, se apressou em insistir na necessidade de manter boas relações com o novo chefe da Casa Branca. Mas também alertou que a aliança também existe para proteger os EUA. Segundo ele, a única vez que a cláusula de defesa coletiva da entidade foi acionada ocorreu depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Stoltenberg ainda foi duro em indicar que Trump tem “compromissos com a aliança”. “A garantia de segurança da Otan é um tratado de compromisso”, disse o secretário-geral, que criticou abertamente Trump durante a campanha. “Todos os aliados fizeram uma declaração solene de defender o outro. Isso é absolutamente incondicional”, insistiu.

“Uma Otan forte é boa tanto para os EUA como para a Europa”, insistiu. “As garantias de segurança que a aliança oferece são importantes para a Europa, mas também para os EUA”, disse Stoltenberg.

Em respostas às cobranças de Trump, o secretário-geral da Otan indicou que milhares de soldados da aliança, inclusive da Europa, tem lutado contra o terrorismo no Afeganistão e que a organização continua apoiando a coalizão que vem atacando bases do Estado Islâmico no Iraque.

Criada em 1949 e tendo os EUA como membro fundador, a aliança estabelece em seu artigo 5º que os 28 Estados se comprometem a sair ao resgate de outro membro se ele for atacado.

Para um dos principais comandantes da Otan, Denis Mercier, o debate sobre o papel da aliança não é apenas uma “questão teórica”. Segundo ele, o poder de defesa russo nos bálticos, na Crimeia e na Síria podem começar a limitar a liberdade de movimento da aliança.

Hoje, os americanos pagam 75% do orçamento da Otan. Mas um acordo foi fechado para que os governos europeus usem 2% de seu PIB para financiar sua defesa. Por enquanto, no entanto, apenas Reino Unido, Polônia, Grécia e Estônia cumpriram este objetivo.

Nos mercados financeiros, as ações das companhias de defesa da Europa subiram na quarta-feira. Investidores passaram a apostar que essas empresas terão mais encomendas de governos europeus, diante da posição adotada por Trump.

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