Pai de soldado muçulmano morto no Iraque fala na convenção democrata e confronta Trump

Pai de soldado muçulmano morto no Iraque fala na convenção democrata e confronta Trump

Pai do capitão Humayun S.M. Khan, que morreu em missão no norte de Bagdá em 2004, criticou a postura do empresário de proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos

Redação Internacional

29 de julho de 2016 | 10h06

FILADÉLFIA, ESTADOS UNIDOS – A história de Humayun S.M. Khan, um soldado muçulmano morto no Iraque, contada na quinta-feira por seu pai na Convenção Nacional Democrata confrontou o rancor expressado pelo candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, que propõe a proibição da entrada dos muçulmanos nos Estados Unidos.

“Nosso filho Humayun tinha o sonho de ser um advogado militar. Esses sonhos foram deixados de lado no dia em que ele sacrificou sua vida para salvar seus companheiros militares”, contou Khizr M. Khan, pai do soldado morto, na Convenção Democrata que terminou na quinta-feira na Filadélfia, Pensilvânia.

Khizr M. Khan, pai do capitão Humayun S.M. Khan - soldado muçulmano morto no Iraque, discursa na convenção democrata ao lado de sua mulher

Khizr M. Khan, pai do capitão Humayun S.M. Khan – soldado muçulmano morto no Iraque, discursa na convenção democrata ao lado de sua mulher (Foto: Alex Wong/AFP)

Quando estava em uma missão no norte de Bagdá, em junho de 2004, o capitão Humayun S.M. Khan fez toda sua tropa retroceder e se assegurou que estavam a salvo. Contudo, um carro-bomba explodiu, tirou sua vida e lhe transformou em um dos 14 militares americanos muçulmanos mortos após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Seu pai lançou um forte manifesto contra Donald Trump no palco da Convenção Democrata que designou oficialmente Hillary Clinton como candidata presidencial.

“Se fosse por Donald Trump, ele (meu filho) nunca teria vivido nos Estados Unidos”, ressaltou Khan acompanhado de sua mulher e em referência à proposta do magnata de proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos a fim de combater grupos terroristas como o Estado Islâmico (EI).

“Donald Trump, você está pedindo aos americanos que lhe confiem seu futuro. Deixe-me perguntar: você já leu a constituição dos Estados Unidos? Com muito gosto lhe apresento minha cópia. Neste documento busque as palavras ‘liberdade’ e ‘igualdade perante a lei'”, disparou Khan com uma cópia da Constituição em mãos.

Desta forma, o muçulmano se dirigiu a Trump para perguntar-lhe se alguma vez havia estado no cemitério de Arlington, estabelecido como cemitério nacional em 1864, durante a guerra civil americana, e onde estão sepultados mais de 400 mil soldados americanos e suas famílias.

“Vá buscar entre os túmulos dos patriotas valentes que morreram em defesa dos Estados Unidos e verá todos os credos, gêneros e etnias”, pediu a Trump o pai do militar morto. “O senhor não sacrificou nada nem ninguém”, ressaltou Khan, que recebeu uma grande ovação do público e cujo testemunho ganhou grande popularidade nas redes sociais.

O discurso dele quase ofuscou uma das falas mais esperadas da noite, a de John Allen, ex-enviado especial dos Estados Unidos para a coalizão internacional contra o Estado Islâmico e que expressou seu apoio a Hillary, a quem considerou a pessoa mais bem preparada para dirigir as forças armadas.

“O que está em jogo é enorme. Não devemos e não podemos ficar à margem” destacou Allen, também ex-chefe das tropas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Afeganistão e que apareceu no palco acompanhando por uma dezena de veteranos de guerra.

“Sei que com ela (Hillary) como nossa comandante-em-chefe, nossas relações internacionais não se reduzirão a uma transação de negócios. Sei que nossas forças armadas não se transformarão em um instrumento de tortura e não cometerão assassinatos ou outras atividades ilegais”, acrescentou o prestigiado ex-militar. / EFE

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