Participação de negros é mais baixa que em 2012 e prejudica campanha de Hillary

Participação de negros é mais baixa que em 2012 e prejudica campanha de Hillary

Dados da votação antecipada mostram que afro-americanos dos Estados-chave da Flórida e Carolina do Norte estão menos mobilizados em relação à eleição que reconduziu Obama à Casa Branca; eleitorado é tradicionalmente do Partido Democrata

Redação Internacional

02 de novembro de 2016 | 16h12

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington

Mais sólido pilar da coalizão que levou o presidente Barack Obama à Casa Branca, o eleitorado negro está participando em menor porcentual do que em 2012 no período de votação antecipada na Flórida e na Carolina do Norte, dois Estados que serão cruciais para a definição do resultado da disputa cada vez mais acirrada entre a democrata Hillary Clinton e o republicano Donald Trump.

A menor presença de afro-americanos nas urnas é uma má notícia para a candidata, que precisa do apoio de minorias para contrapor a vantagem do adversário entre eleitores brancos. Mais importante entre os Estados que definirão a eleição, a Flórida registra empate técnico entre os dois líderes da corrida. Nesse cenário, cada voto é disputado com uma máquina de mobilização que abrange telefonemas, mensagens eletrônicas e um exército que bate de porta em porta para estimular a participação eleitoral.

DADE CITY, FL - NOVEMBER 01: Supporters cheer as Democratic presidential nominee former Secretary of State Hillary Clinton speaks during a campaign rally at Pasco-Hernando State College East Campus on November 1, 2016 in Dade City, Florida. With one week to go until election day, Hillary Clinton is campaigning in Florida. Justin Sullivan/Getty Images/AFP == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Foto: Justin Sullivan/Getty Images/AFP

Cerca de 27 milhões de pessoas já votaram nos EUA e a expectativa é de que o número chegue a 45 milhões até o dia 8 de novembro, data oficial da eleição. O número final corresponde a 34% dos americanos que devem escolher um dos candidatos à presidência.

Os votos antecipados só serão contados no dia 8, mas eles revelam uma série de informações que permitem antecipar a tendência dos eleitores de cada Estado. Entre elas, as mais importantes são a filiação partidária, raça ou etnia e a idade dos que estão votando.

Com base nesses dados, é possível saber que o voto dos afro-americanos na Carolina do Norte está 15% abaixo do registrado nesse mesmo estágio da disputa em 2012, quando Obama foi reeleito. Naquele ano, os negros representavam 25% dos eleitores que haviam votado de maneira antecipada na Flórida no mesmo período. Agora, o porcentual é de apenas 15%. Em compensação, a parcela de eleitores hispânicos que já foram às urnas no Estado subiu de 10,5% para 14,4%, de acordo com cálculo do portal Election Smith.

Avaliação. “Os eleitores afro-americanos não estão tão entusiasmados com Hillary como estavam com Obama. Para eles, raça era uma barreira maior do que gênero”, disse Susan MacManus, professora de Ciência Política da Universidade do Sul da Flórida. Segundo ela, qualquer dos grupos demográficos do Estado pode reivindicar o status de ser o fator decisivo da disputa, já que a eleição presidencial de 2012 e as duas últimas disputas pelo governo estadual foram definidas por uma diferença próxima de 1 ponto porcentual. “Se ignorarem qualquer grupo, os candidatos correm o risco de perder.”

Obama foi reeleito há quatro anos com 39% dos votos dos eleitores brancos em todo o país – 59% deles optaram pelo republicano Mitt Romney. Em compensação, o democrata foi o escolhido de 93% dos negros, 71% dos hispânicos e 73% dos asiáticos que foram às urnas. Mas a ausência de Obama da cédula torna mais difícil repetir o mesmo grau de mobilização dos afro-americanos.

Gladys Robinson, senadora estadual da Carolina do Norte, disse que a menor participação de eleitores negros no Estado é explicada em parte por decisões de governos locais republicanos que restringiram o período e o número de urnas disponíveis para votação antecipada.

“A estratégia deles para tentar reduzir a participação de afro-americanos surtiu resultado”, afirmou. Robinson acredita que o porcentual de votos negros deve aumentar até o dia 8 de novembro, com a ampliação dos locais de votações nos últimos dias antes da eleição. Ainda assim, ela disse não saber se será possível obter o mesmo nível de participação entre afro-americanos registrado na vitória de Obama.

Michael Bitzer, professor da Faculdade Catawba, da Carolina do Norte, também apontou para as restrições impostas no período de votação antecipada para explicar a menor presença de negros nas urnas. Além disso, ele avaliou que há menor entusiasmo dos negros em relação a Hillary. “Os afro-americanos representam o mais fiel bloco de eleitores democratas e se eles tiverem uma menor participação isso obviamente influenciará o resultado da disputa.”

Presidente da Convenção Negra do Partido Democrata da Flórida, Henry Crespo disse que é injusto comparar a presença dos afro-americanos nas urnas neste ano com a registrada na eleição do primeiro presidente negro da história do país. De acordo com ele, o porcentual deste ano não será inferior à média das disputas anteriores.

Tanto Crespo quanto Robinson temem que o tom negativo da campanha eleitoral acabe deprimindo a participação dos afro-americanos. A preocupação é especialmente grande em relação aos jovens, que representam grande parcela do eleitorado e demonstram pouco entusiasmo com Hillary. “Convencer os jovens a votar será um desafio e demandará mais trabalho”, observou a senadora.

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