Partido Democrata começa a analisar derrota nas eleições americanas

Partido Democrata começa a analisar derrota nas eleições americanas

Vitória dos republicanos colocou o partido sob um clima de incerteza, e reforça a necessidade de uma renovação ao identificar erros e reconstruir sua essência

Redação Internacional

11 de novembro de 2016 | 07h59

WASHINGTON – O desastre eleitoral que os democratas sofreram na terça-feira com a derrota de sua candidata presidencial, Hillary Clinton, colocou o partido sob um clima de incerteza e reforçou a necessidade de identificar erros e reconstruir sua essência após o fracasso.

Esta é a primeira vez desde 1928 que os republicanos têm com o controle das duas câmaras do Congresso, a presidência, com uma maioria conservadora na Suprema Corte, e a maioria no poder legislativo e nos governos estaduais.

Candidata democrata às eleições americanas, Hillary Clinton, foi derrotada pelo republicano Donald Trump (Foto: Justin Sullivan/Getty Images/AFP)

Candidata democrata às eleições americanas, Hillary Clinton, foi derrotada pelo republicano Donald Trump (Foto: Justin Sullivan/Getty Images/AFP)

Diante deste panorama, para os democratas a mudança de direção não é uma opção, é uma questão de sobrevivência. “O Partido Democrata não pode continuar com a estratégia de esperar que o Partido Republicano se destrua”, declarou José Parra, ex-assessor do líder da minoria democrata no Senado, Harry Reid, e especialista em comunicações políticas.

Segundo Parra, os democratas continuam carecendo da capacidade de mobilizar seu eleitorado natural, as minorias como a latina e a afro-americana, e continuam apostando em uma estrutura de partido liderada por brancos, incapazes de criar empatia, e portanto, chegar a esses eleitores tão necessários para eles.

“O famoso gigante adormecido segue dormindo”, disse o especialista em relação à comunidade latina, já que dos 27 milhões de eleitores hispânicos aptos a votar neste ciclo eleitoral, apenas 13 milhões foram às urnas, exatamente a mesma porcentagem de participação de 2012 (48%).

Hillary partia “com falhas” conhecidas para os democratas, vista como uma mulher fria e pouco próxima do eleitorado, além de pouco confiável, mas o partido não soube suprir essas carências com um esforço suficiente para chegar a seus eleitores mais valiosos.

“Espero que agora o partido opte por uma estratégia similar à dos anos 1960, quando se debatiam os direitos civis, e busque, por meio dos veículos de comunicações, mostrar as condições e as histórias de vida das minorias para protegê-las e se aproximar delas”, acrescentou.

Um dos possíveis rostos para liderar essa renovação é a senadora democrata por Massachusetts, a progressista Elizabeth Warren, a quem muitos apoiaram para se apresentar como candidata presidencial democrata antes do ciclo eleitoral. Ela alertou que é “necessário escutar a mensagem alta e clara de que os americanos querem uma mudança em Washington”.

Segundo Elizabeth, “o primeiro trabalho dos democratas nesta nova era” deverá ser prostar-se perante “a intolerância e o racismo” que o já presidente eleito dos EUA, Donald Trump, incentivou durante toda sua campanha.

“Como uma oposição leal, lutaremos mais duro, lutaremos mais forte e lutaremos mais apaixonadamente do que nunca”, garantiu a democrata, que fez campanha para Hillary Clinton desde que esta garantiu a candidatura de seu partido para a Casa Branca.

De acordo com Parra, os democratas não falharam na elaboração de suas propostas políticas, muito mais progressistas com a irrupção do rival de Hillary nas primárias, Bernie Sanders, no panorama político, mas na maneira de enviar sua mensagem.

Trump precisava revolucionar o voto branco operário para conseguir sua vitória, algo que alcançou amplamente, arrebatando inclusive eleitores desse setor da própria Hillary. “A crescente maioria demográfica ainda não está por aqui”, comentou a estrategista democrata e ex-diretora de comunicações da Casa Branca, Anita Dunn, ao jornal The New York Times.

“A ideia de que se pode chegar a uma campanha presidencial, pressionar um botão e fazer com que as pessoas saiam para votar, não é possível ainda”, considerou, em relação à crescente presença demográfica das minorias, que deveriam ser favoráveis aos democratas.

Apesar de Hillary e os comitês de ação política favoráveis a ela terem arrecadado grandes quantias de dinheiro e terem contado com sofisticados sistemas de análise do eleitorado, sua campanha esteve mais centrada em uma rejeição a Trump do que em explicar sua visão positiva para o país, algo que para Anita apontou como outro erro.

Por outro lado, os democratas quase não conseguiram reduzir a maioria que os conservadores ostentam no Congresso, algo sobre o qual também necessitam refletir no Legislativo. Sua renovação precisa, portanto, abraçar definitivamente as comunidades minoritárias, eleitores dos quais o Partido Democrata se descuidou ao dar como certa sua fidelidade. / EFE

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