Por aval no Congresso, nomes fortes de Trump vão contra discurso do chefe

Por aval no Congresso, nomes fortes de Trump vão contra discurso do chefe

Divergências de nomeados nas audiências no Senado vão desde a questão da tortura, a Rússia e a proibição da entrada de muçulmanos nos EUA

Redação Internacional

14 Janeiro 2017 | 05h00

WASHINGTON – Os EUA não devem torturar, a Rússia é uma ameaça, um muro na fronteira mexicana é inútil, proibir a entrada de muçulmanos é um erro e a mudança climática é um problema real. As afirmações opostas às do presidente eleito Donald Trump antes de sua ascensão à Casa Branca foram feitas nesta semana por quem ele indicou para dirigir setores-chave do governo.

Em um tuíte nesta sexta-feira, a uma semana de sua posse, Trump escreveu: “Todos meus nomeados para o gabinete parecem bem e fazem um grande trabalho. Quero que sejam eles mesmos e expressem seus pensamentos, não os meus”.

Trump acena a simpatizantes na Trump Tower, em Nova York. (Foto: AFP / Bryan R. Smith)

Trump acena a simpatizantes na Trump Tower, em Nova York. (Foto: AFP / Bryan R. Smith)

A equipe de transição reconheceu que posições beligerantes e nada ortodoxas do presidente eleito, embora úteis numa campanha eleitoral, provavelmente não passariam pelo crivo na sabatina das comissões do Congresso.

O general reformado James Mattis, por exemplo afirmou na quinta-feira que como secretário da Defesa defenderá o acordo nuclear com o Irã, criticado por Trump. “Quando os EUA dão sua palavra, temos de cumpri-la e trabalhar com nossos aliados”, afirmou, contrariando a tese de Trump de que as negociações com o Irã levaram a “um dos acordos mais idiotas firmados até hoje”.

O escolhido por Trump para ser seu secretário de Estado, Rex Tillerson, discordou do presidente eleito em uma série de assuntos, afirmando que o presidente russo, Vladimir Putin, é uma ameaça regional e internacional que deve ser contra-atacada com “uma demonstração de força proporcional”.

Tillerson disse ainda ser contra uma proibição de entrada de imigrantes muçulmanos e qualificou o compromisso dos Estados Unidos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de “inviolável” – contradizendo o presidente eleito. O indicado para dirigir a CIA, Mike Pompeo, deputado republicano do Kansas, defendeu as agências de inteligência, que Trump tem criticado.

Sean Spicer, que será o secretário de imprensa da Casa Branca, disse que o magnata escolheu pessoas por sua experiência, não porque acatam suas posições. No entanto, tudo indica que a última palavra sempre será do líder. “No final, cada um deles terá de seguir a agenda e as ideias de Trump”, disse Spicer aos jornalistas.

Para a senadora Susan Collins, republicana do Maine, a grande distância entre as opiniões do presidente eleito e as das pessoas por ele indicadas a cargos importantes é inusitada. “Ao que me parece, Trump escolheu assessores que lhe oferecerão opiniões diferentes”, disse a parlamentar, integrante da Comissão de Inteligência do Senado, que sabatinou Pompeo. “Seria algo muito saudável. Mas pode enviar mensagens confusas para nossos aliados e nossos adversários.”

A posição dos democratas foi mais radical. “Vários indicados tentam se afastar das posições não convencionais do presidente eleito para mostrar para a sociedade que são mais razoáveis”, afirmou Chuck Schumer, senador do partido.

Em muitos casos, esses indicados têm um longo histórico de trabalho no serviço público e posições sólidas. A equipe do presidente eleito também reconhece que opiniões foram suavizadas, já que poderiam desagradar até mesmo aos senadores republicanos, que detêm a maioria nas duas Casas do Congresso. Os indicados pareciam determinados a criar a impressão de que suas opiniões prevalecerão numa discussão importante com Trump.

Durante as sabatinas, os futuros integrantes do governo assumiram posições contundentes contra a Rússia, envolvida na última grande polêmica do magnata. Trump passou um ano defendendo sua disposição de manter um relacionamento vigoroso com Moscou e Vladimir Putin – e apenas nesta semana admitiu o que as agências de inteligência já afirmavam: que o governo russo interferiu na eleição americana de novembro.

Tillerson foi especialmente questionado pelo senador Marco Rubio, republicano da Flórida, sobre seu antigo relacionamento com Putin quando o americano era diretor da Exxon Mobil, e por defender a suspensão das sanções contra a Rússia. Na sabatina, ele disse que o Kremlin estava por trás das operações de hackers para influenciar na eleição, mas não foi muito mais longe, como Rubio desejava, declarando que a Rússia é uma “nação pária”.

Mattis, por sua vez, foi inflexível. “Desde Yalta, temos uma longa lista de momentos em que tentamos nos envolver positivamente com a Rússia. E temos uma lista relativamente curta de sucessos nesse aspecto. Acho que, neste momento, o mais importante é reconhecer a realidade com a qual nos deparamos, com Putin, e admitir que ele está tentando destruir a Otan.” / THE NEW YORK TIMES