Artigo: Por que a democrata vence

Hillary não está à frente dos republicanos nessa eleição por sorte, mas por um conjunto de pontos fortes demonstrados na campanha

Redação Internacional

22 de outubro de 2016 | 05h00

Paul Krugman
The New York Times

Hillary Clinton é uma candidata terrível. É o que os analistas vêm afirmando desde que começou essa campanha interminável. Estranho afirmar, no entanto, que ela conquistou a nomeação democrata muito facilmente e agora, tendo nocauteado o rival em três debates sucessivos, é favorita incontestável para vencer a eleição, provavelmente por uma ampla margem de votos. Como isso é possível?

Os “suspeitos de sempre” já vêm se unindo em torno de uma resposta, a de que ela apenas teve sorte. Se os republicanos não tivessem indicado Donald Trump como seu candidato a história seria outra e ela perderia feio a eleição.

Candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton (Foto: AFP PHOTO / Robyn Beck)

Candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton (Foto: AFP PHOTO / Robyn Beck)

Mas eis aqui uma tese contrária: talvez Hillary esteja vencendo porque possui algumas forças políticas fundamentais que muitos analistas são incapazes de ver. Em primeiro lugar, quem seria o outro candidato mais forte que o Partido Republicano deveria ter escolhido? Trump conquistou a indicação porque deu à base do partido o que ela queria, canalizando o antagonismo racial que tem sido a força propulsora do sucesso eleitoral republicano há décadas. Tudo o que ele fez foi dizer em alto e bom som o que seus rivais tentaram expressar numa linguagem codificada.

Na verdade, esse é um problema geral dos republicanos do establishment. Quantos realmente acreditam que os cortes de impostos têm poderes mágicos, que a mudança climática é uma fraude gigantesca, que falar em “terrorismo islâmico” de algum modo derrotará o Estado Islâmico? Mas fingir acreditar nessas coisas é o preço a pagar para ser admitido pelo clube – e a falsidade transparece.

Quando os comentaristas exortam o talento político o que têm em mente é a capacidade de um candidato de corresponder a um arquétipo: o do líder heroico, o sujeito camarada com quem você gostaria de tomar uma cerveja, o orador sublime. Hillary não é nada disso: hesitante, muito feminina para ser aquele tipo padrão, uma oradora medíocre, seus comentários preparados não produzem nenhum efeito.

Mesmo assim, a pessoa que dezenas de milhões de espectadores viram nos debates causou uma tremenda impressão: dona de si, calma sob pressão, profundamente preparada, com um domínio total dos temas políticos. Os pontos fortes que exibiu nos debates também lhe servirão como presidente.

Talvez os cidadãos tenham observado a mesma coisa. Talvez a competência óbvia e o equilíbrio em situações estressantes, reunidos, a transformem numa estrela, mesmo que isso não se insira na ideia convencional de carisma.

Além disso, há algo que Hillary mostrou nessa campanha que nenhum republicano conseguiu: ela realmente se preocupa com os temas que levam sua assinatura e acredita nas soluções que propõe. Eu sei, deveríamos vê-la como uma política ambiciosa e calculista e em alguns assuntos, como macroeconomia, ela parece apática, mesmo quando entende e diz coisas sensatas. Mas quando aborda os direitos femininos, a injustiça racial ou o apoio para as famílias, ela é autêntica de uma maneira que ninguém do outro partido consegue ser.

Devemos pôr fim a essa ficção de que Hillary chegou onde chegou por um golpe de sorte. Ela é uma figura formidável e foi assim o tempo todo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA