Referência cultural – No Harlem, já há saudade do líder

Referência cultural – No Harlem, já há saudade do líder

Eleitores negros querem impedir retrocessos

Redação Internacional

09 de novembro de 2016 | 05h00

Lúcia Guimarães
Correspondente / Nova York

A manhã gloriosa do outono nova-iorquino derrubou mais uma desculpa de quem quisesse ficar em casa e exercer seu direito de não votar ontem. As filas começaram a partir das 6 horas em pontos de votação do Central Harlem, onde vivem mais de 120 mil pessoas, e foram diminuindo à medida que eleitores desapareciam na estação do metrô a caminho do trabalho.

O grande Harlem tem pelo menos o triplo de habitantes da área central. Mas é o Central Harlem, a região histórica, o berço da Renascença cultural negra das décadas de 20 e 30, que levou ao mundo a arte de nomes como o compositor Duke Ellington, o dramaturgo e poeta Langston Hughes e o dançarino de sapateado Bill “Bojangles” Robinson.

People wait in line outside a school to vote in the presidential election November 8, 2016 in the Harlem Borough in New York City. / AFP PHOTO / KENA BETANCUR

Moradores do Harlem fazem fila para votar. Foto: Kena Betancur/AFP

Quem saiu da estação do metrô na movimentada esquina da Rua 125 com a Lenox Avenue encontrou a nova composição do bairro que, apesar de 70% afro-americano, está ficando mais diverso e afluente, por cortesia da gentrificação. O comércio na área hoje mistura restaurantes famosos como o Red Rooster do chef Marcus Samuelsson a mercearias e igrejas de diversas denominações. O desemprego no Harlem ainda é três vezes mais alto do que o da média de Nova York, de 5,6%.

Na frente de uma escola pública e ponto de votação à beira do Marcus Garvey Park, o veterano trombonista e compositor Craig Harris conta que votou em Hillary e diz já estar nostálgico com a partida de Barack Obama. Ao seu lado, o aposentado Bill Logan diz que também votou na candidata democrata, segundo ele, para impedir um retrocesso de décadas de direitos e respeito à diversidade. Segundo Logan, o casal Obama serviu o país com distinção, apesar da constante obstrução das duas casas do Congresso.

A banca de camelô em frente a uma nova e reluzente loja de departamentos é de Donald Richardson, cuja expressão escurece quando explica o motivo de não poder votar em Hillary. “Estou em liberdade condicional”, diz. Em Nova York e outros Estados, ex-condenados só recuperam o direito ao voto ao fim da condicional. Richardson também demonstra nostalgia pelo fim da era Obama.

Na plataforma do metrô, Vanessa Glynn, jovem autora de romances em quadrinhos, exibe orgulhosa o broche com a frase “Já votei em Hillary” e revela que está a ponto de romper com os pais, que moram na Flórida e votaram em Donald Trump.

Há um tom de melancolia e incerteza nas conversas sobre a partida do primeiro presidente negro, em quem mais de 80% dos nova-iorquinos votaram em 2012. Para muitos, o presidente foi um marco revelador de uma acirrada resistência racista, normalizada com grande apoio de Trump ao movimento que difundiu a mentira sobre Obama ser queniano e muçulmano. Obama deixa a Casa Branca como entrou: sem um escândalo pessoal ou controvérsia financeira. Até conservadores, que normalmente preferem vê-lo pelas costas, admitem que seu currículo vai deixar saudades.

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