Reportagem Especial: Interior vota em Trump contra agenda liberal

Reportagem Especial: Interior vota em Trump contra agenda liberal

Redação Internacional

13 de novembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
Enviada Especial / Grand Rapíds, EUA 

Religioso que vai à igreja todos os domingos, rejeita o direito ao aborto, mas defende o de portar armas, Tom Meiser vê a eleição de Donald Trump como uma reação do interior dos Estados Unidos a uma agenda liberal promovida pelas metrópoles do país, que teve sua mais recente vitória com a legalização do casamento gay pela Suprema Corte no ano passado.

Desde que nasceu, há 59 anos, Meiser mora em Allegan, uma cidade de 5 mil habitantes no oeste do Estado de Michigan, onde trabalha como paramédico em ambulâncias. O local é um retrato condensado dos eleitores de Trump: 92% de seus moradores são brancos e apenas 16% têm educação superior – a média nacional é de 29%. O local também integra a constelação de pequenas cidades americanas que a cada eleição está mais distante dos centros urbanos cosmopolitas, multiculturais e liberais do país.

S11 MICHIGAN EUA 11/11/2016 INTERNACIONAL Pierre Brazeau vive na zona rural de Michigan e votou em Trump por ser contra o controle de armas e a favor de controles na imigração. No outono, ele caça todos os dias e havia acabado de matar um cervo FOTO Cláudia Trevisan / ESTADAO

Pierre Brazeau vive na zona rural de Michigan e votou em Trump. Foto: Cláudia Trevisan / ESTADAO

Em Grand Rapids, a 64 quilômetros de Allegan, as amigas Liz McElheny e Summer Danielski temem exatamente o oposto de Meiser. Para elas, a eleição de Trump representa uma ameaça não apenas a mudanças recentes, como o casamento gay, mas também a uma das mais simbólicas conquistas do movimento feminista americano, o direito ao aborto, reconhecido pela Suprema Corte no fim dos anos 70.

Na semana passada, Danielski estava entre as cerca de 2 mil pessoas que protestaram nas ruas da cidade contra a eleição de Trump, dentro do movimento que pipocou em vários locais do país com o slogan “Ele não é meu presidente”. Com 190 mil habitantes, Grand Rapids é o maior centro urbano do oeste de Michigan e deu vitória a Hillary Clinton.

Levantamento do instituto de pesquisa Edison Research mostrou que a democrata obteve 59% dos votos em cidades com mais de 50 mil habitantes, enquanto Trump prevaleceu nas que possuem população menor e na zona rural. Na cidade de Nova York, Hillary teve 79% dos votos. Em Los Angeles, 72%.

O contraste entre essas duas Américas se reflete em outras características: 54% dos eleitores que vão à igreja no mínimo uma vez ao mês optaram por Trump, enquanto 62% dos que nunca vão à igreja votaram em Hillary.

“Eu não tenho nada contra os homossexuais, mas tenho o direito de acreditar que é pecado e não ser condenado ao ostracismo por isso”, opinou Meiser. O morador de Allegan disse que Trump está longe de ser um modelo para os conservadores cristãos do país, mas afirmou que ele é uma garantia de que os próximos juízes da Suprema Corte estarão mais alinhados com seus valores.

Um dos 4 mil moradores de Wayland, Pierre Brazeau votou no bilionário de Nova York por acreditar que Hillary tentaria impor limites ao porte de armas nos EUA. Como a maioria dos que vivem na zona rural, ele tem mais de uma arma e caçar faz parte de seu estilo de vida. Quando falou com o Estado, Brazeau havia acabado de matar um cervo, cujo corpo estava na carroceria de sua caminhonete. “Hillary queria limitar o número de tiros dos cartuchos de munição. Eu tenho armas com cartuchos de mais de dez tiros e não quero perder o direito de usá-las.”

Previsto na Segunda Emenda, o direito de portar armas está sujeito a interpretações da Constituição pela Suprema Corte, instituição que define as principais batalhas culturais dos EUA. Trump terá a possibilidade de moldar a instituição por uma geração, com a indicação de dois a três de seus nove juízes durante seu mandato.

Trabalhador de uma empresa de autopeças em Allegan, Tony Sneider vê os moradores das grandes cidades com uma lente de ressentimento. “Nós que vivemos na zona rural estamos acostumados a trabalhar. Nós não temos transporte público nem os outros benefícios que são dados aos que vivem nas cidades e frequentam universidades”, afirmou Sneider, que vê os urbanoides como uma elite favorecida por recursos do governo.

Especializado na programação de motores de alta velocidade, ele está há 23 anos no mesmo emprego. Apesar de não sentir que sua posição está ameaçada, Sneider concorda com a proposta de Trump de rever acordos comerciais internacionais. “Eu vi muitos empregos sendo transferidos para outros países em razão de tratados que não são benéficos para os americanos.”

A linha dura do presidente eleito em relação à imigração conquistou os moradores do interior, apesar de muitos viverem em cidades quase totalmente brancas, como Wayland e Allegan. Alguns veem a crescente diversidade dos EUA como uma ameaça à própria identidade do país, em uma visão de implícita conotação racial.

Os brancos representam 63% da população americana, mas demógrafos estimam que eles serão minoria no país antes da metade do século. “Nós temos de tomar a América de volta”, disse Sneider. Em sua opinião, os EUA deveriam aceitar imigrantes, desde que eles entrem no país de maneira legal, aprendam a língua, assimilem a cultura e não dependam de benefícios sociais. “Eles têm de ser tratados como todos nós.”

O marceneiro Art Liebelt acredita que o presidente Barack Obama implementou um governo socialista nos EUA, o que estaria refletido no Obamacare – a reforma do sistema de saúde dos EUA – e em decretos que regulam atividades econômicas e imigração. “Eu gosto de um governo pequeno. Um governo que é grande o bastante para te dar tudo também é grande o bastante para te tirar tudo.”

Liebelt gosta do estilo politicamente incorreto de Trump e de sua determinação. “Eu fiquei exultante quando ele ganhou, porque ele é a epítome do sonho americano. Ele fez tudo da sua maneira e não desistiu, apesar de todas as probabilidades estarem contra ele.”

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