Reportagem especial: Surpresa em redutos democratas 

Trump derruba barreira eleitoral que rivais ergueram no cinturão da ferrugem

Redação Internacional

13 de novembro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
Enviada Especial / Grand Rapids, EUA

Centro da indústria automotiva americana até os anos 80, o Estado de Michigan era um dos tijolos da muralha de proteção do Partido Democrata que ruiu diante da candidatura de Donald Trump. O bilionário foi o primeiro republicano a vencer no Estado desde 1988, ainda que por uma margem minúscula de 12 mil votos de um total de 4,6 milhões.

No cinturão da ferrugem, que viveu a decadência industrial americana no fim do século passado, Hillary Clinton também foi derrotada em Ohio, Pensilvânia, Iowa e Wisconsin, Estados que haviam votado em Barack Obama nas últimas eleições presidenciais, em 2008 e em 2012.

No último dia de campanha, Donald Trump discursa em comício em Manchester, no Estado de New Hampshire (Foto: Scott Eisen/Getty Images/AFP) == FOR NEWSPAPERS, INTERNET, TELCOS & TELEVISION USE ONLY ==

Foto: Scott Eisen/Getty Images/AFP

Donald Grimes, professor do Instituto de Pesquisa sobre Trabalho, Emprego e Economia da Universidade de Michigan, acredita que Trump provocou um realinhamento de lealdades nas bases partidárias e atraiu operários sindicalizados que votavam no Partido Democrata.

Segundo ele, movimento é uma repetição do que ocorreu nos anos 80 com os “democratas de Reagan”, que apoiaram a candidatura de Ronald Reagan à presidência, em 1980 e 1984. Em sua opinião, Trump tem uma retórica semelhante à adotada pelo ex-presidente, de crítica ao comércio internacional e ao governo federal. A diferença é que o alvo daquela época era o Japão.

“Há 50 anos, o Partido Democrata era o que se opunha ao livre-comércio e à imigração e tinha uma base operária. Agora, ele é o partido de profissionais liberais e da elite intelectualizada, enquanto o Partido Republicano está se tornando o partido populista dos trabalhadores”, avaliou Grimes.

Responsável pela coordenação de eleições no condado de Allegan, o republicano Jason Watts disse que Hillary teve dificuldade para atrair eleitores sindicalizados de Michigan, que foram energizados por Trump. “Havia uma falta de entusiasmado com relação a ela, que perdeu as primárias democratas para Bernie Sanders no Estado.”

Professor de ciências políticas da Universidade de Michigan, Arthur Lupia acredita que a história da eleição de 2016 deve ser contada tanto pelos votos que foram dados a Trump quanto pelos que não foram dados a Hillary. Enquanto o republicano recebeu quase o mesmo número de votos que Mitt Romney, o candidato de seu partido em 2012, a democrata deverá ficar 2,5 milhões abaixo do recorde estabelecido por Obama na última eleição.

Sua votação foi inferior à do presidente americano em todos os grupos demográficos, entre os quais mulheres, hispânicos, negros e jovens. “Obama era um candidato transformador, que conseguiu articular uma visão clara do que seria sua candidatura”, afirmou Lupia. Hillary foi prejudicada por ser a candidata da continuidade no momento em que os eleitores queriam mudança, que foi personificada por Trump.

Ainda assim, ela tinha até ontem 60,8 milhões de votos em todo o país, 545 mil a mais que o adversário. A previsão do estatístico Nate Silver, do New York Times é que a diferença chegue a 2,2 milhões quando a apuração estiver concluída, o que será uma vitória superior a de John kennedy, Richard Nixon e Al Gore.

No entanto, a decisão da eleição nos EUA não ocorre por votação direta, mas por votações em cada um dos 50 Estados, das quais sai a composição do colégio eleitoral. O sistema acaba dando um peso desproporcional para regiões menos habitadas do interior do país, o que favorece os republicanos.

Hillary foi a segunda democrata na história moderna dos EUA a vencer no voto popular, mas perder a eleição no colégio eleitoral. O caso anterior ocorreu no ano 2000, quando Al Gore perdeu a presidência apesar de ter recebido 500 mil votos a mais que o rival republicano George W. Bush.

Grimes disse que a retórica de Trump encontrou eco em Michigan, apesar de a economia local estar em recuperação, com aumento do emprego e da renda. No entanto, por trás das estatísticas, há comunidades que não se recuperaram do processo de desindustrialização, da reestruturação da indústria automobilística e da crise econômica de 2008.

“O comércio internacional é culpado por muita coisa pela qual não tem responsabilidade”, observou. Segundo Grimes, dos quase 6 milhões de empregos industriais que os EUA perderam nos últimos 25 anos, 1 milhão tem relação com a globalização.

No caso de Michigan, houve uma migração de empregos da indústria automobilística, mas para dentro do país, na direção dos Estados do Sul, que dificultam a ação dos sindicatos. “Nenhuma das montadoras estrangeiras que construíram fábricas nos EUA na última década tem trabalhadores sindicalizados e nenhuma delas está em Michigan”, disse Grimes.

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