Republicanos fazem pressão para que Trump abandone disputa presidencial

Um dia após a divulgação de áudio em que candidato faz comentários sexistas e vulgares contra as mulheres, magnata diz que é zero a chance de ele desistir das eleições de novembro; até seu vice disse ter ficado ofendido com declarações feitas em 2005

Redação Internacional

09 de outubro de 2016 | 05h00

Cláudia Trevisan
CORRESPONDENTE / WASHINGTON

A divulgação de um áudio no qual Donald Trump faz comentários vulgares e degradantes sobre mulheres jogou sua candidatura em uma crise sem precedentes e levou vários líderes republicanos a pedir que ele abandone a disputa pela Casa Branca. Em entrevistas concedidas na manhã de ontem, o bilionário disse que continuará na corrida eleitoral. Hoje, ele enfrentará um teste crucial no segundo debate com a democrata Hillary Clinton.

Há “zero chance de eu desistir”, afirmou Trump em entrevista ao Wall Street Journal. Ao New York Times, o bilionário disse que não ouviu nenhum apelo para renunciar à candidatura. Pelo Twitter, Trump declarou: “A mídia e o establishment querem tanto que eu fique fora da corrida – eu nunca vou abandonar a corrida, eu nunca vou desapontar meus seguidores!”

Candidato republicano faz campanha no Estado do Arizona. (Foto: Ralph Freso/Getty Images/AFP)

Candidato republicano faz campanha no Estado do Arizona. (Foto: Ralph Freso/Getty Images/AFP)

Mas muitos dos integrantes de seu partido manifestaram repugnância em relação a seus comentários em uma gravação realizada em 2005 e pediram que ele saia da disputa. “Isso não pode continuar”, disse o senador republicano Mike Lee, um dos vários parlamentares que defenderam o fim da candidatura de Trump.

“O comportamento de Donald Trump torna sua candidatura a presidente inaceitável”, afirmou a deputada Martha Roby, do Alabama. “A melhor coisa para o nosso país e nosso partido é Trump desistir e permitir que um republicano responsável e respeitável lidere a chapa”, acrescentou.

O governador de Dakota do Sul, Dennis Daugaard, também defendeu a renúncia de Trump e sua substituição pelo candidato à vice-presidência, Mike Pence, saída proposta por outros líderes republicanos.

O presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, disse que estava “enojado” com os comentários, mas não pediu publicamente que o bilionário abandone a disputa. Na noite de sábado, ele teria seu primeiro evento de campanha ao lado de Trump, mas a participação do candidato foi cancelada.

Até mesmo Pence, companheiro de chapa do bilionário, censurou as declarações. “Como marido e pai, eu fiquei ofendido com as palavras e ações descritas por Donald Trump no vídeo feito há 11 anos”, disse o candidato a vice-presidente em nota distribuída ontem.

Horas antes, o bilionário havia divulgado um vídeo no qual se desculpava. “Qualquer pessoa que me conhece sabe que essas palavras não refletem quem eu sou. Eu disse isso. Eu estava errado e peço desculpas.”

A maneira como Trump trata as mulheres e sua tendência de julgá-las por sua aparência já eram um tema da campanha eleitoral. Mas os comentários revelados na sexta-feira não têm precedentes na vida política americana. “Você sabe, eu sou automaticamente atraído por mulheres bonitas. Eu começo a beijá-las. É como um imã. Você simplesmente beija. Eu nem espero. Quando você é uma estrela, elas deixam que você faça isso. Você pode fazer o que quiser. Agarrá-las pela … (órgão sexual). Você pode fazer qualquer coisa.”

O bilionário havia se casado com sua terceira mulher, Melania Trump, poucos meses antes. Na conversa com o apresentador, ele narra sua investida mal sucedida sobre uma outra mulher, também casada.

Mulher casada. Na tarde de ontem, em uma nota, a apresentadora de TV Nancy O’Dell identificou-se como sendo a mulher casada à qual Trump se referiu no áudio e disse que os comentários foram muito tristes.

Além de se desculpar, Trump partiu para o ataque: “Eu disse coisas estúpidas, mas há uma grande diferença entre palavras e ações de outras pessoas. Bill Clinton de fato abusou de mulheres e Hillary ameaçou, atacou, envergonhou e intimidou suas vítimas.”

Em nota divulgada ontem, Melania disse que as palavras de Trump eram “inaceitáveis e ofensivas”, mas não representavam o homem que ela conhece. “Espero que as pessoas aceitem seu pedido de desculpas, como eu aceitei, e foquem nas questões importantes diante de nossa nação e o mundo.”

De Niro. Em mensagem gravada antes que o vídeo viessem à tona, o ator Robert De Niro chamou Trump de “cachorro, porco e vigarista” e fez um apelo para que os eleitores americanos o rejeitem. “Ele fala sobre como gostaria de dar um soco na cara das pessoas? Bem, eu gostaria de dar um soco na cara dele”, afirmou o ator. “Ele é uma vergonha para este país.”