Cenário: Resultado abalou credibilidade de análises e previsões

O diretor de documentários Michael Moore passou semanas avisando que a classe trabalhadora branca estava pronta para mandar o establishment político para o inferno e eleger Trump

Redação Internacional

10 de novembro de 2016 | 05h00

Lúcia Guimarães
CORRESPONDENTE / NOVA YORK

Qual a indústria que deve sofrer rápido declínio nos EUA? Aqui vão duas candidatas: a de analista de pesquisas de opinião e comentarista político. Durante parte da campanha, o candidato a presidente com ficha suja velejou fagueiro, a criatura da mídia colocando a mídia na defensiva.

Como tantos puderam estar tão enganados durante tanto tempo? Fenômenos europeus como a emergência de Marine Le Pen, na França, e a aprovação do Brexit, na Grã-Bretanha, mostraram que marés populistas subiram sem ser detectadas por pesquisadores munidos de sofisticadas técnicas de aferição dos sentimentos do eleitor. Quando as urnas foram abertas, a publicação digital Slate passou a monitorar resultados em parceria com uma start-up do Vale do Silício, VoteCastr, cujo “modelo proprietário” de previsão de comparecimento foi apresentado com alarde e amplamente ridicularizado pelos erros, à medida que as horas se passavam.

Donald Trump surpreendeu o mundo ao conseguir derrotar Hillary Clinton e se tornar presidente dos Estados Unidos (Foto: Carlo Allegri/ Reuters)

Donald Trump surpreendeu o mundo ao conseguir derrotar Hillary Clinton e se tornar presidente dos Estados Unidos (Foto: Carlo Allegri/ Reuters)

O diretor de documentários Michael Moore passou semanas avisando que a classe trabalhadora branca estava pronta para mandar o establishment político para o inferno e eleger Trump. Como os que votaram pelo Brexit, este eleitor não manifestou abertamente suas preferências a pesquisadores. Entre a multidão perplexa com o mau desempenho de Hillary Clinton em Times Square, esta repórter encontrou vários trumpistas bem mais discretos do que o presidente em quem haviam acabado de votar.

Enquanto a inesperada derrota democrata ia se desenrolando, na noite de terça-feira, conhecidos jornalistas americanos fizeram um strip-tease existencial nas redes, trocando acusações de complacência, indagando sobre uma futura contrição e buscando culpados. Afinal, não foi só Washington que o eleitor mandou para o inferno. A mídia liberal, que alertou para o apocalipse Trump, foi despachada sem cerimônia.

O mordaz crítico de mídia Michael Wolff apontou um fracasso de “inteligência, experiência e objetividade” e, acima de tudo, uma falha de técnicas do jornalismo digital enamorado de dados e algoritmos. Wolff acusou jornalistas de confundir virtude – fazer oposição a um candidato extremista – com negligência em investigar o que se passava entre os eleitores. Não teria sido a primeira vez. O Tea Party, o movimento conservador que surgiu em reação ao crash de 2008 e à eleição de Barack Obama, também voou abaixo do radar da mídia, até o massacre dos democratas nas eleições legislativas de 2010.

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