Retórica de ‘lei e ordem’ marca tom do discurso de Trump em festa partidária

Retórica de ‘lei e ordem’ marca tom do discurso de Trump em festa partidária

Redação Internacional

21 Julho 2016 | 23h51

Cláudia Trevisan
Enviada Especial / Cleveland, EUA

Com um discurso em tom paternalista, Donald Trump aceitou nesta quinta-feira (21) a nomeação do Partido Republicano à presidência dos EUA, apresentando-se como o candidato capaz de combater a violência, a criminalidade e a pobreza que supostamente assolam o país. “A partir de 20 de janeiro de 2017, a segurança será restaurada”, afirmou, referindo-se à data da posse do sucessor de Barack Obama.

Falando a delegados de um partido dividido em torno de sua nomeação, Trump disse que eles chegariam “juntos” à Casa Branca.

“Nós vamos liderar nosso país de volta à segurança, prosperidade e paz. Nós seremos um país de generosidade e afeto. Mas nós também seremos um país da lei e da ordem”, afirmou, resgatando o slogan usado por Richard Nixon em sua campanha presidencial vitoriosa de 1968. “A mais básica tarefa de um governo é defender as vidas de seus próprios cidadãos.”

Para justificar seu argumento de que o país vive em uma situação de insegurança crescente, Trump citou dados sobre aumento da criminalidade, assassinato de policiais e entrada de imigrantes no país de maneira ilegal.

“Décadas de progresso feitos na redução da criminalidade estão sendo revertidas por falta de aplicação da lei por esse governo”, afirmou. Apesar das afirmações de Trump, dados do FBI mostram queda no número de crimes violentos desde a chegada de Obama ao poder, em 2009.

O discurso reiterou os principais temas apresentados pelo bilionário durante a campanha pela nomeação republicana, entre os quais a rejeição ao politicamente correto, a proposta de construir um muro na fronteira com o México, a rejeição de tratados de livre-comércio, o combate ao radicalismo islâmico e a revisão dos princípios que orientaram a política externa dos EUA desde o fim da 2.ª Guerra.

“Não apenas nossos cidadãos enfrentam desastres domésticos, mas ele experimentaram uma humilhação internacional depois da outra”, declarou Trump. A política externa foi o principal ponto usado pelo bilionário para criticar sua adversária na eleição de novembro, a democrata Hillary Clinton, responsabilizada ontem pelo crescimento do Estado Islâmico e pelo caos no Oriente Médio.

Inimigos. A consagração de Trump ocorreu 13 meses depois de ele anunciar sua intenção de disputar a sucessão de Barack Obama. Durante as primárias para seleção do candidato republicano, o bilionário derrotou 16 adversários, entre os quais o preferido do comando e dos financiadores da legenda, Jeb Bush.

Representante da mais célebre linhagem familiar republicana, Bush abandonou a disputa logo no início das prévias, depois de sofrer derrotas humilhantes. O clã dos Bush manteve distância de Trump e não participou da convenção do partido encerrada ontem em Cleveland. Os dois últimos candidatos da legenda a disputar a Casa Branca, Mitt Romney e John McCain, também se recusaram a marcar presença no encontro.

Trump ascendeu no partido com uma retórica nacionalista, populista e politicamente incorreta, marcada por ataques à globalização, à imigração e aos muçulmanos.

Em entrevista ao New York Times, publicada antes do discurso, Trump disse que o suposto desrespeito aos direitos civis dentro dos Estados Unidos não permite que o país dê “lições de moral” a outras nações sobre liberdades fundamentais.

“Como nós podemos dar lição de moral quando pessoas estão atirando em nossos policiais a sangue frio”, questionou. “Como vamos dar lição de moral quando vemos motins e o horror que está acontecendo em nosso país?” As afirmações coincidem com as críticas feitas por países acusados pelos EUA de violação de direitos humanos, como a China, para os quais Washington usa uma dupla ao tratar da situação fora de suas fronteiras.

Aliados históricos. O candidato republicano também afirmou que os compromissos do país com a defesa de seus aliados será condicionado ao pagamento de compensação pelos gastos militares. Nessa linha, Trump afirmou que só protegeria integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de eventuais ataques da Rússia se eles tivesse em dia com suas contribuições financeiras junto à organização.

O bilionário rejeitou comparações de seu slogan “América em primeiro lugar” com o lema idêntico usado por isolacionistas americanos que tinham simpatia pelo nazismo e eram contrários à entrada dos Estados Unidos na 2.ª Guerra. De acordo com ele, hoje o uso da frase tem um “novo” sentido. “Significa que vamos colocar o cuidado desse país em primeiro lugar, antes de nos preocuparmos com todos os demais no mundo”.