Situação tributária põe Trump na defensiva

Situação tributária põe Trump na defensiva

Jornal revelou que republicano pode ter ficado sem pagar imposto de renda por 18 anos

Redação Internacional

03 de outubro de 2016 | 15h25

O mistério sobre a declaração de renda de Donald Trump foi parcialmente esclarecido por novas revelações sobre sua forma de evitar o pagamento de impostos, que vieram à tona ao fim de uma semana desastrosa para o candidato republicano à Casa Branca.

O jornal The New York Times publicou no sábado três páginas recebidas anonimamente que mostram parcialmente a declaração de renda do magnata imobiliário de 1995 nos Estados de Nova York, New Jersey e Connecticut. Apesar de não mostrar o montante de impostos federais pagos neste ano por Trump, revela que declarou US$ 916 milhões de dólares em perdas, valor que teria permitido legalmente reduzir o lucro tributável durante 18 anos.

(FILES) This file photo taken on October 1, 2016 shows Republican presidential nominee Donald Trump arrives for a rally at Spooky Nook Sports center in Manheim, Pennsylvania. New York state's top prosecutor has ordered the charitable foundation run by Donald Trump to cease fundraising, saying it was operating without proper certification. A September 30 letter from the office of Attorney General Eric Schneiderman made public on October 3, 2016 informed the Trump Foundation that it

Donald Trump participa de evento de campanha em Manheim, Pensilvânia. Foto: Mandel Ngan/AFP

O artigo teve o efeito de uma bomba na campanha eleitoral, a quase cinco semanas da votação, enquanto Trump se recusa com obstinação a publicar sua declaração de renda, uma tradição de transparência respeitada por todos os candidatos recentes à Casa Branca.

Trump não desmentiu a autenticidade dos documentos. “A simples informação que esse documento fiscal velho de 20 anos foi obtido ilegalmente é uma nova prova de que o New York Times, como todos os meios do establishment, é uma extensão da campanha de Hillary, do Partido Democrata e de seus interesses específicos”, declarou a equipe de Trump em um comunicado. “Conheço nossas leis tributárias melhor que qualquer outro candidato à Presidência e sou o único capaz de melhorá-las”, escreveu Trump no Twitter.

Seus assessores adotaram a mesma linha de defesa. “É um gênio”, declarou Rudy Giuliani, o ex-prefeito republicano de Nova York, à rede ABC. “É uma aplicação perfeitamente legal do código tributário, e ele teria sido idiota de não aproveitá-la”.

Repetindo que o sistema tributário é “bizantino”, Chris Christie, o governador republicano de New Jersey e presidente de sua equipe de transição, declarou ao canal Fox que “Donald Trump é a única pessoa que se comprometeu a mudar o sistema tributário contra seus interesses próprios”.

O lado democrata comemorou as revelações que levam água ao moinho de Hillary Clinton. Durante o debate que se enfrentaram na segunda-feira passada diante de 84 milhões de pessoas, ela apontou que o milionário não havia pago impostos federais em 1978 e 1979.

“Isto significa que sou inteligente”, respondeu então Trump, cuja fortuna está avaliada hoje em US$ 4 bilhões pela revista Forbes. O portal Politico havia informado em junho que o empresário parecia não ter pago tampouco nenhum imposto em 1991 e 1993.

“Se todo mundo nesse país fosse um gênio, não pagaríamos impostos e não teríamos país. Isto é escandaloso”, disse no domingo à ABC o senador Bernie Sanders, ex-rival de Hillary nas primárias democratas, que se tornou aliado.

A equipe de Hillary se dedicou a republicar o artigo no Facebook e no Twitter. “Aparentemente, ele evitou pagar impostos durante quase duas décadas, enquanto dezenas de milhões de trabalhadores pagavam seus impostos. Ele chama isso de ser ‘inteligente'”, afirma o diretor da campanha de Hillary, Robby Mook, em um comunicado, no qual pede ao candidato a publicação integral de suas declarações de renda.

Essas revelações, ainda que parciais, completam contudo o quebra-cabeça sobre a fortuna de Trump, que ele destaca como prova de sua competência e capacidade para reformar os Estados Unidos.

As notícias devem alimentar os comentários em um momento crucial da campanha eleitoral, quando Hillary, depois de seu bem sucedido desempenho no primeiro debate na TV, retoma novamente a vantagem nas pesquisas, com 44% das intenções de voto contra 41% de Trump, em média.

O republicano, afetado por sua atuação decepcionante, passou a semana atacando a ex-miss venezuelana Alicia Machado, que contou como foi humilhada publicamente por Trump depois de sua vitória no concurso Miss Universo devido a alguns quilos a mais.

Os dois candidatos debaterão novamente no próximo domingo. Decidido a fazer uma revanche, Trump ameaçou falar das infidelidades do ex-presidente Bill Clinton. / AFP