Teoria da conspiração cristaliza apoio a Trump

Teoria da conspiração cristaliza apoio a Trump

Para especialista, ideias absurdas alimentam sentimento de alguns eleitores de que sua visão de mundo foi rejeitada pela maioria da sociedade

Redação Internacional

14 Agosto 2016 | 05h00

Renata Tranches

Liderando uma campanha presidencial nada ortodoxa em várias maneiras, Donald Trump tem atraído seus eleitores com uma sequência infindável de teorias da conspiração. Especialistas americanos têm destacado a capacidade do republicano de alimentar essas histórias e a de seus eleitores de se deixar levar por elas.

Para o professor de retórica da Wake Forest University (Carolina do Norte) John Llewellyn, as teorias da conspiração funcionam bem com o eleitorado de Trump porque ele precisa de “uma razão aparentemente válida” para explicar o “quão esperto é”, ainda que continue perdendo nas eleições.

Ele explica que uma das maneiras que permitiu a Trump ganhar tanta proeminência com o público dos candidatos presidenciais republicanos foi assumir posições, algumas vezes “ultrajantes”, que atraem atenção e reforçam o sentimento desses eleitores. “Esse tipo de posição é uma contradição direta com o discurso político tradicional, que costuma ser medido e cuidadoso”, disse, em entrevista ao Estado.

Uma pesquisa nacional da Fairleigh Dickinson University realizada em maio entre eleitores registrados mostrou que em todos partidos americanos existem aqueles que acreditam em teorias conspiratórias quando elas sugerem algo “nefasto” sobre uma pessoa da qual não gostam. Mas o número é muito maior entre a base de Trump.

A pesquisa mostrou, por exemplo, que 77% desses eleitores disseram acreditar que o presidente Barack Obama “definitivamente” ou “provavelmente” está escondendo alguma informação importante sobre sua vida pregressa. Entre os americanos em geral ouvidos pela pesquisa, 46% afirmaram o mesmo, desses, 29% eram democratas. Dois anos antes, a mesma pesquisa mostrou que 35% dos americanos (64% deles, republicanos) disseram que era “provavelmente verdade” que Obama estivesse escondendo algo.

O professor de ciências políticas da universidade e analista da pesquisa Dan Cassino afirmou, em comunicado, que ainda que o assunto relacionado ao presidente não tenha sido muito explorado na campanha, Trump é, há muito tempo, um entusiasta do movimento “Birther”, que sustenta que Obama não nasceu nos EUA e, por isso, não poderia ter sido eleito presidente. “Mesmo que ele não esteja mais falando isso, seus partidários parecem se lembrar bem.”

Segundo Llewellyn, que também já escreveu discursos políticos, essa parte do eleitorado que acredita nas teorias conspiratórias acha que sua visão de mundo foi rejeitada pela maioria da sociedade. “Essas teorias servem para rotular de ilegítimos os detentores do poder atuais e explicar como eles, eleitores, têm sido ‘roubados’ em seu direito de influenciar (na política).”

Trump fala com esse público. “Parece até que há uma disputa pela teoria conspiratória mais absurda”, diz o professor. Isso se explica pelo fato de que como ele já foi longe demais em suas teses, as declarações agora precisam ser cada vez maiores para “manter o interesse dos ouvintes”.

A última teoria conspiratória levantada por Trump, a de que Obama criou o Estado Islâmico, na avaliação de Llewellyn, foi a pior até agora. “A ideia de que um presidente americano possa criar uma organização cuja missão é atacar os EUA é de tirar o fôlego. Aqueles que acreditam, amam a ideia porque ela ‘justifica’ perfeitamente o ódio deles pelo presidente”, diz.

Trump, muitas vezes, costuma dizer que foi mal interpretado em suas declarações, mas depois que elas já foram divulgadas a seus eleitores. “Um senador americano uma vez disse que todo mundo tem o direito de ter sua própria opinião, mas ninguém tem direito a ter seus próprios fatos”, conclui Llewellyn.