The Economist: A era Trump

The Economist: A era Trump

A vitória do republicano põe em questão velhas certezas sobre os EUA e seu papel no mundo. O que virá em seu lugar?

Redação Internacional

11 de novembro de 2016 | 05h00

A queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, marcou, dizia-se, o fim da história. A disputa entre comunismo e capitalismo havia terminado. Depois de uma encarniçada batalha ideológica, travada por décadas a fio após a 2.ª Guerra, as economias de mercado e a democracia liberal ocidental agora reinavam sem contestação.

Na madrugada de 9 de novembro de 2016, quando Donald Trump ultrapassou o mínimo de 270 votos de que precisava para assegurar sua vitória no Colégio Eleitoral e se tornar o novo presidente dos Estados Unidos, essa ilusão se desfez em pedaços. A história ressurgiu – e veio com força total.

Donald Trump, the Republican presidential frontrunner, at Trump Tower in New York, March 18, 2016. Trump doesn?t like comparisons to individual dictators, but he doesn?t mind being called an authoritarian. ?We need strength in this country,? he said. (Chad Batka/The New York Times)

A vitória de Trump e a maneira como ela se deu põem em xeque tanto os parâmetros em que se apoia o sistema político americano, como o papel que os Estados Unidos têm como maior potência do mundo. No plano interno, uma campanha aparentemente amadora e caótica impôs derrota humilhante a um exército de consultores, especialistas e institutos de pesquisas.

Se, como ameaçou fazer, o presidente Trump realmente puser à prova as instituições que regulam a vida política nos Estados Unidos, não se sabe se elas resistirão. No plano externo, o republicano investiu contra a crença, abraçada por todos presidentes americanos do pós-guerra, de que os Estados Unidos se beneficiam da tarefa muitas vezes ingrata de exercer a hegemonia mundial. Se Trump resolver retirar as tropas americanas da linha de fogo, quem sabe o que avançará pela brecha assim deixada?

A sensação de que velhas certezas estão ruindo abalou profundamente os aliados americanos. O receio de que a globalização esteja malogrando causou volatilidade acentuada nos mercados financeiros. Tendo assistido à surpreendente vitória do Brexit, os britânicos sabem muito bem como é essa sensação, mas o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia será eclipsado pelas consequências da eleição americana. A vitória de Trump pôs fim a um consenso. Resta saber o que surgirá em seu lugar.

A construção de Trump. Comecemos pela constatação de que os eleitores americanos votaram menos por uma alternância de partido no poder do que por uma mudança de regime. Trump foi alçado à Casa Branca por uma onda de insatisfação popular, causada, em parte, pelo fato de que os americanos comuns não têm se beneficiado da prosperidade do país. Em termos reais, a renda média dos homens americanos permanece abaixo do que era na década de 1970.

Nos últimos 50 anos, excluindo-se o interregno de crescimento acelerado da década de 1990, a cada recessão que passa, as famílias americanas de classe média têm mais dificuldade para recuperar a renda corroída pela crise. A mobilidade social é pequena demais para prometer um futuro melhor. A consequente deterioração da autoconfiança não tem como ser neutralizada por alguns trimestres de salários em alta.

A insatisfação semeou o ódio. Vendo a si mesmos como vítimas de um sistema econômico injusto, os americanos comuns passaram culpar as elites de Washington, acusando-as de não ter nem determinação, nem discernimento para resistir à voracidade dos estrangeiros e das grandes corporações. Isso quando não acham que essas elites também fazem parte da conspiração. Para eles, a mídia, com seu paternalismo e sua parcialidade, é tão elitista e tão distante da realidade quanto os políticos do país.

Muitos eleitores brancos de baixa qualificação profissional sentem-se ameaçados pelo declínio econômico e demográfico. Alguns pensam que as minorias raciais se vendem, em troca de benefícios sociais, para a máquina política democrata.

Os americanos da zona rural e das cidadezinhas do interior detestam os valores socialmente progressistas que, por meio da suposta manipulação das engrenagens de Washington, seus compatriotas urbanos lhes impõem. Os republicanos agem como se colaborar com os democratas constituísse verdadeira traição.

Trump explorou magistralmente esse ódio popular. Quem não teve estômago para votar no republicano deve estar se perguntando como metade de seus concidadãos foi capaz de deixar por menos o tratamento que Trump dedica às mulheres, a ligeireza com que apela a sentimentos xenófobos, a maneira ultrajante com que despreza os fatos. Não há por que concluir que todos os eleitores do magnata aprovam seu comportamento.

Anti President-elect Donald Trump protesters chant outside the White House in Washington, DC, November 10, 2016. Protesters burned a giant orange-haired head of Donald Trump in effigy, lit fires in the streets and blocked traffic as rage over the billionaire's election victory spilled onto the streets of major US cities. / AFP PHOTO / JIM WATSON

Manifestantes protestam contra eleição de Trump perto da Casa Branca, em Washington

Para alguns deles, seus defeitos são insignificantes quando comparados com a Grande e Única Verdade: os EUA precisam ser submetidos a uma reforma profunda. Outros veem no pendor que o republicano tem para desafiar tabus a prova de que ele não pertence ao establishment. Como disseram alguns analistas, enquanto os críticos levam Trump ao pé da letra, mas não a sério, seus eleitores o levam à sério, mas não ao pé da letra.

Por sua vez, ainda que Hillary Clinton tenha conquistado mais votos que Trump no conjunto do eleitorado, o fato é que a democrata representa tudo o que esses americanos encolerizados mais odeiam.

Mudanças. A esperança é que a eleição tenha efeitos catárticos. Uma vez no cargo, é possível que Trump adote um comportamento pragmático e magnânimo – como fez em seu discurso de vitória. Pode ser que ele se ponha no papel de rei Donald, um líder altaneiro, um “tuiteiro em chefe”, delegando a condução executiva do governo a seu vice-presidente e a uma equipe de assessores competentes e ponderados.

Se o presidente eleito tomar juízo e desistir de construir um muro na fronteira com o México, ou se convencer de que a ideia de promover uma guerra comercial contra a China não é tão boa assim, dificilmente seus eleitores darão muita bola – porque o que eles realmente querem é que Trump resgate seu orgulho e encha a Suprema Corte de juízes conservadores.

De fato, não é difícil visualizar um futuro em que o aumento nos gastos com infraestrutura, combinado com uma política de desregulamentação, redução de impostos, fortalecimento do dólar e repatriação de lucros corporativos, faça a economia americana crescer o bastante para apaziguar os insatisfeitos. Esse Trump mais conciliador talvez fosse capaz até de tomar como modelo Ronald Reagan, um herói conservador que também era subestimado e vivia sendo alvo de chacota.

Nada nos deixaria mais felizes do que ver Trump avançando com sucesso nessa direção. Acontece que Reagan era um otimista, ao passo que Trump deblatera contra a perda de um passado que nunca existiu. The Economist nutre profundas dúvidas de que o republicano venha a ser um bom presidente – por suas propostas, de seu temperamento e das exigências do cargo que ele ocupará.

No fim, a força da gravidade se impõe. Comecemos pelas propostas. Depois de um primeiro momento de entusiasmo, as políticas populistas acabam cedendo ao peso de suas contradições. Trump prometeu acabar com o Obamacare. Isso deixará 20 milhões de americanos pobres sem acesso a saúde.

A redução de impostos beneficiará principalmente os mais ricos, e terá de ser financiada com déficits que farão a dívida pública americana chegar a 25% do PIB até 2026. Mesmo que não venha a realizar deportações em massa de imigrantes ilegais, o republicano fomentará a desarmonia nas relações raciais do país.

A front page of a Chinese newspaper with a photo of U.S. President-elect Donald Trump and the headline

Jornal chinês repercute eleição de Donald Trump; China tem interesses políticos e militares

Durante a campanha, Trump afirmou que exigirá concessões comerciais da China, do México e do Canadá. Do contrário, adotará tarifas de importação e abandonará o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta).

Seu protecionismo prejudicará os americanos mais pobres, que têm mais a ganhar como consumidores de importações baratas do que como trabalhadores num ambiente de concorrência restrita. Se provocar uma guerra comercial, a frágil economia mundial pode entrar em recessão. Com taxas de juros perto de zero, as autoridades econômicas do mundo desenvolvido não terão muita margem de manobra.

No âmbito das relações externas, Trump diz que nutre ojeriza pelo tratado que congelou o programa nuclear iraniano. Se o acordo for por água abaixo, ele terá duas opções: ou ataca as instalações nucleares do Irã ou assiste a uma proliferação nuclear no Oriente Médio.

O presidente eleito também diz que pretende reverter o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Além de prejudicar o planeta, isso abalaria a credibilidade dos Estados Unidos nas mesas de negociação.

O mais grave, porém, são os efeitos perniciosos das propostas de Trump para as alianças americanas. Durante a campanha, o republicano disse que exigirá que os outros países contribuam com mais recursos financeiros para sua própria segurança – do contrário, levará as tropas para casa.

Isso enfraquecerá a Otan, deixando a linha de frente dos países do Leste Europeu vulnerável à Rússia. Também deve encorajar a expansão chinesa no Mar do Sul da China. Japão e Coreia do Sul talvez comecem a pensar em se munir de armas nucleares.

Personalidade. Não bastassem as propostas de Trump, seu temperamento também é motivo de preocupação. Ao longo dos últimos meses, o magnata deu incessantes mostras de que é movido por altas doses de narcisismo, de que perde a cabeça por qualquer coisa e de que é muito pouco disciplinado.

O emprego de homem mais poderoso do mundo com frequência expõe o sujeito a humilhações diárias, tanto no front interno quanto no externo. Quando um parlamentar zomba do presidente, dirige-lhe insultos e distorce suas palavras, a efetividade de seu governo passa a depender de sua disposição para dar a outra face e trabalhar por um acordo.

Se, nas próximas semanas, um juiz federal proferir uma sentença desfavorável num processo em que a Universidade Trump é acusada de fraude, ou se no futuro a Justiça se pronunciar contrariamente a políticas de seu governo, caberá ao republicano aceitar legitimidade de tais decisões – exercitando um autocontrole de que ele não se mostrou capaz durante a campanha.

Na condição de candidato, Trump ameaçou processar jornalistas que o ridicularizavam. Quando estiver na presidência, terá de ignorá-los ou mostrar a eles que estão equivocados. Quando chefes de governo o tratarem com desrespeito, o presidente eleito terá de pautar sua reação pelos interesses dos EUA, não por seu orgulho ferido.

A terceira razão que nos leva a ser pessimistas em relação ao governo Trump diz respeito às exigências impostas pelo exercício da presidência. Não há problema que chegue ao Salão Oval que não seja tremendamente complicado. Mas o republicano não deu provas de ser capaz de lidar com detalhes ou de promover o esforço concentrado que o cargo exige. Ele até pode delegar tarefas (como Reagan fez), mas sua campanha dependeu em grau extraordinário de parentes e de políticos que não inspiram muita confiança.

Trump explorou a não mais poder a ideia de que sua experiência como empresário lhe possibilitará conduzir negociações políticas formidáveis. Mas, quando um empreendimento dá errado, sempre há outro arranha-céu ou outro clube de golfe a ser construído.

Na Casa Branca, na falta de um acordo com Vladimir Putin sobre as ações russas, Trump não terá a quem recorrer. E se há uma coisa que deixará expostos o juízo e a experiência do republicano é o controle do arsenal nuclear dos EUA, que, numa crise, cabe inteira e unicamente ao presidente.

Pêndulo. A genialidade da Constituição americana está nos limites que ela estabelece para o mal que um presidente pode causar ao país. The Economist espera que Trump prove que essas preocupações são infundadas, ou que, se seu governo fracassar, ele venha a ser substituído por um presidente melhor daqui a quatro anos.

Todavia, o perigo do ódio popular é de que a desilusão com Trump só faça aumentar a insatisfação que o levou à Casa Branca. Se isso acontecer, o fracasso do republicano pavimentará o caminho para alguém ainda mais propenso a arruinar as bases do sistema americano.

A eleição de Trump é um tapa na cara de todos os que têm convicções liberais, incluindo The Economist. O livre-comércio e a democracia liberal clássica que defendemos, e que pareciam ter se afirmado em 1989, foram rejeitados pelo eleitorado, primeiro no Reino Unido, e agora nos EUA. França, Itália e outros países europeus correm o risco de seguir na mesma direção.

Está claro agora que o apoio popular à ordem ocidental dependia mais do crescimento econômico acelerado e do efeito galvanizante da ameaça soviética do que de convicções intelectuais. Nos últimos tempos, as democracias ocidentais vinham fazendo muito pouco para disseminar os benefícios da prosperidade.

Políticos e especialistas davam como garantida a aquiescência dos desiludidos. Com Trump se preparando para pôr os pés na Casa Branca, é hora de recomeçar o árduo e demorado trabalho de promover a causa do internacionalismo liberal. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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