The Economist: Trump e a ciência política

The Economist: Trump e a ciência política

Redação Internacional

04 de setembro de 2016 | 03h00

Assim que Donald Trump anunciou a candidatura à presidência dos EUA, em junho do ano passado, os cientistas políticos americanos, que não costumam estar de acordo sobre muita coisa, proclamaram em uníssono seu pouco caso. Armados de teses a que o tempo parecia ter conferido validade, eles achavam inconcebível que alguém tão inexperiente e iconoclasta fosse capaz de costurar o consenso necessário à conquista da nomeação republicana.

Agora, com seus postulados abalroados pela realidade, os acadêmicos da política correm para se debruçar novamente sobre os dados e formular novas hipóteses. O Departamento de Ciência Política da Universidade da Califórnia, em Irvine, começa a oferecer este mês um curso sobre o fenômeno Trump.

Donald Trump, candidato republicano à presidência dos EUA

Donald Trump, candidato republicano à presidência dos EUA (Foto: Travis Dove/The New York Times)

Como ocorre em todas as disciplinas, na ciência política algumas explicações ganham maior aceitação que outras. Nos últimos anos, uma das que lograram tal êxito foi o argumento – elaborado num catatau repleto de notas de rodapé, The Party Decides (O Partido Decide) – de que o aumento da influência dos eleitores nas primárias, observado desde os anos 1970, não teria impedido que as máquinas políticas – e grupos de interesse que nelas se abrigam – dos dois principais partidos continuassem a ter peso enorme na escolha de seus candidatos, inviabilizando a vitória de “outsiders”.

Em artigo a ser publicado no periódico Political Science and Politics, os autores de The Party Decides tentam salvar sua tese do golpe que os eleitores lhe aplicaram nas primárias republicanas. Num recuo considerável em relação às posições defendidas no livro, Marty Cohen, David Carol, Hans Noel e John Zaller admitem que, se souber explorar as redes sociais, levando seu apelo diretamente aos eleitores, e tiver habilidade para “jogar com as predisposições dos jornalistas”, um pré-candidato que se recuse a buscar o consenso interno e direcione sua mensagem para uma pequena fração do eleitorado pode obter a candidatura.

A suposição de que isso estaria por trás da ascensão de Trump tem, simultaneamente, a vantagem e a desvantagem de não poder ser comprovada. Mas o fato é que, durante as primárias, a imprensa americana realmente dedicou atenção desproporcional ao arrivista falastrão.

Exceção. O aparente malogro de tão influente tese deu origem a uma nova área de estudos: a trumpologia. Pesquisa realizada em julho pelo instituto Gallup, junto a 87 mil americanos, mostra que os indivíduos que residem em áreas menos afetadas pela globalização – seja em termos de eliminação de postos de trabalho no setor industrial, ou de influxo de imigrantes – são os que mais tendem a ver Trump com bons olhos. Não é exatamente correto dizer, portanto, que os americanos brancos que foram levados de roldão pelo livre comércio e pela imigração estejam todos se jogando no colo do candidato francamente protecionista e anti-imigração.

Um descontentamento de outro tipo parece ser indicador mais robusto do apoio a Trump: a popularidade do bilionário cresce nas áreas em que os indivíduos apresentam piores condições de saúde e índices de mobilidade social mais baixos. Trump, que acima e antes de tudo é um bom vendedor, pôs na praça a história de que “as elites partidárias não levam a sério os trabalhadores brancos”, diz Jonathan Rothwell, economista responsável pelo ensaio em que os resultados da pesquisa são apresentados. Acontece que os levantamentos mostram que Trump conta com o apoio de mais de 40% do eleitorado americano, e só uma pequena fração desse apoio pode ser explicada pela preferência de que o republicano desfruta em áreas socialmente comprometidas.

Raiz obscura. Entre as hipóteses que vêm sendo apresentadas, nenhuma é tão incômoda, nem conquistou tantos seguidores, quanto a que relaciona o voto em Trump com as tendências “autoritárias” de parcelas do eleitorado. Estudo publicado em janeiro argumenta que a candidatura do republicano é impulsionada por indivíduos cujo “autoritarismo” vibra a cada invectiva que ele lança contra muçulmanos e mexicanos. Afinal, Trump “deixou de lado a linguagem cifrada que alguns políticos sempre usaram para mobilizar eleitores preconceituosos, passando a fazer isso com todas as letras”, diz Matt MacWilliams, responsável pela pesquisa.

A ideia não é que os americanos estariam manifestando admiração em massa por um novo Mussolini. Inclinações “autoritárias” de eleitores foram medidas por meio de quatro questões sobre a educação das crianças, em que MacWilliams indagava, por exemplo, se o entrevistado considerava o respeito pelos mais velhos qualidade mais importante que a independência. A valorização da obediência e da autoridade, evidenciada pela opinião de que é preferível que a criança tenha bons modos do que curiosidade, mostrou-se especialmente prevalente entre os eleitores de Trump.

A fim de testar algumas das hipóteses com que os cientistas políticos tentam explicar Trump, The Economist analisou os dados sobre os quais elas se apoiam. Solicitamos que o instituto YouGov incluísse em sua pesquisa eleitoral semanal as mesmas perguntas utilizadas por MacWilliams. Nesse levantamento, o autoritarismo, avaliado com base em questões idênticas sobre a educação das crianças, não apresentou associação com o voto em Trump entre os eleitores republicanos que participaram das primárias – muito embora a associação estivesse presente entre os eleitores de seu principal adversário, o senador texano Ted Cruz.

Também foram examinados os dados brutos em que se fundamenta outra versão muito difundida dessa mesma tese, e verificou-se que não eles levavam em conta a religião dos entrevistados. Quando a dimensão religiosa foi incluída, e a análise, repetida, o autoritarismo perdeu muito de seu potencial preditivo do voto em Trump.

Pistas. Há, no entanto, uma hipótese que se manteve em pé. Além das indagações sobre autoritarismo, The Economist pediu que o YouGov incluísse em seu questionário uma bateria de perguntas destinadas a medir o grau de ressentimento racial do entrevistado, que é uma atitude mais sutil que o racismo escancarado, sendo avaliada com base na opinião de que os negros não merecem ajuda e fazem muito barulho para exigir atenção especial. A discordância acentuada com a afirmação de que “nos últimos anos, os negros têm recebido menos do que merecem”, por exemplo, reflete elevado grau de ressentimento racial.

A associação entre ressentimento racial e o voto em Trump mostrou-se particularmente forte, mantendo-se presente quando controlada por região, raça e religião, entre outros fatores: 59% dos eleitores que votaram em Trump nas primárias estão no quartil superior em ressentimento racial, ante 46% dos republicanos que votaram em outros pré-candidatos e 29% do conjunto do eleitorado.

Entre os entrevistados que consideram importante intensificar o combate ao terrorismo também é muito maior a tendência a apoiar o magnata.

Esses resultados levantam dúvidas sobre a ideia alarmante de que Trump vem sendo impulsionado pelo desejo latente de que os EUA sejam governados por um líder forte. E parecem dar razão à percepção de que os discursos recentes do republicano, em que ele apresenta a visão distópica de um país predominantemente negro, assolado por elevados índices de criminalidade e desemprego, não são destinados aos eleitores negros propriamente ditos, e sim ao tipo de eleitor branco que não se constrange de dizer aos entrevistadores que os negros são preguiçosos e mimados.

/ TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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