Cenário: Tom nacionalista marca retórica de candidato republicano

Cenário: Tom nacionalista marca retórica de candidato republicano

Trump explorou a imagem do outsider capaz de transformar as regras do jogo político

Redação Internacional

23 Julho 2016 | 16h16

Cláudia Trevisan
Correspondente / Washington

Com sua fortuna de bilhões de dólares, Donald Trump é um óbvio sócio do clube do 1%, mas adotou uma retórica populista que o apresenta como campeão da classe trabalhadora branca dos EUA, nostálgica do período em que fábricas ofereciam empregos estáveis e imigrantes eram menos visíveis na paisagem americana.

O empresário que vive em um dos endereços mais caros do mundo – a 5.ª Avenida de Nova York – atacou elites, grandes empresários, doares de campanha e a mídia no discurso em que aceitou a candidatura do Partido Republicano à presidência, na quinta-feira. No melhor estilo dos caudilhos latino-americanos, Trump usou um tom demagógico e autoritário e prometeu restaurar a grandeza de uma nação supostamente em declínio.

“Acordo todos os dias determinado a ajudar pessoas em todo este país que foram negligenciadas, ignoradas e abandonadas”, declarou. Trump se vê como o agente da mudança, em contraposição à democrata Hillary Clinton, caracterizada em seu discurso como a representante do status quo e dos interesses econômicos que influenciam as decisões em Washington.

Sem nunca ter disputado uma eleição nem ocupado um cargo público, Trump explorou a imagem do outsider capaz de transformar as regras do jogo político. “Ninguém conhece o sistema melhor do que eu, e é por isso que só eu posso consertá-lo.”
Desprezado por grande parcela da elite e dos doadores de campanha republicanos, o bilionário espera que seu discurso mobilize as bases do partido e atraia trabalhadores brancos democratas descontentes com os efeitos da globalização e a crescente diversidade da população dos EUA.

Eleitora de Trump, a comentarista política Monica Crowley afirma que a eleição presidencial de 2016 é marcada menos pela divisão ideológica entre progressistas e conservadores e mais pela separação entre elites e cidadãos comuns. Para ela, seu candidato seria a personificação americana do movimento de revolta contra o status quo em andamento em diferentes partes do mundo, que teve uma de suas manifestações na decisão dos britânicos de abandonarem a União Europeia.

O mesmo tom nacionalista que impulsionou a campanha do Brexit está presente na retórica de Trump. Em seu discurso, ele proferiu a máxima que resume sua visão da relação dos EUA com o mundo: “Americanismo, não globalismo, será nosso credo”.

Como observou reportagem do New York Times, a imagem dos EUA como um país construído por imigrantes – repetida por virtualmente todos os grandes líderes americanos – esteve ausente do discurso de Trump. Os imigrantes descritos pelo republicano são assassinos e traficantes que devem ser expulsos dos EUA, especialmente se são de lugares ao sul da fronteira ou professam a fé muçulmana.

A candidatura insurgente do bilionário tomou de assalto o Partido Republicano e rompeu com posições tradicionais da legenda em favor da globalização, do internacionalismo e de uma reforma migratória que abra caminho para 11 milhões de imigrantes regularizarem sua situação nos EUA.

Roger Stone, um dos mais próximos conselheiros de Trump, disse na sexta-feira que todos os presidentes republicanos bem-sucedidos moldaram o partido à sua imagem e semelhança. “Nós voltaremos a ser uma classe média de pessoas trabalhadoras de novo. Nós estamos deixando o country clube dos Bushs”, afirmou Stone, que trabalhou como lobista dos cassinos de Trump, é obcecado por moda e divide seu tempo entre a Flórida e Manhattan.

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